Segunda Chance (Em Andamento)
Joel Raffa Maia
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 08/11/26 08:01
Editado: 08/11/26 08:32
Qtd. de Capítulos: 1
Cap. Postado: 08/11/26 08:01
Cap. Editado: 08/11/26 08:32
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 16min a 21min
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[Texto Divulgado] "Diálogo sobre a loucura" "Diálogo sobre a loucura" é um mergulho poético nas águas turvas da paixão humana. Sob um céu cinzento que chora em forma de chuva, a voz do poema trava um embate intenso entre a frieza da razão e o abismo do sentimento. Diante do olhar verde, puro e impassível de uma misteriosa menina, esconde-se o maior dos enigmas: seria o amor a única loucura que nos salva da lucidez do nada? Uma obra marcante sobre a coragem de se fazer tolo para aprender, finalmente, o que significa amar.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Segunda Chance
INTRODUÇÃO CORK, IRLANDA.

Natasha, envolta pela balaclava que revelava apenas o brilho dos olhos, trajava calça e camisa como uma segunda pele, além das luvas, tudo na densidade insondável do Vantablack-IR.

Mais do que um simples preto, era um material de supressão dupla: devorava 99,9% da luz visível e suprimia a sua assinatura no espectro infravermelho.

Durante a noite, tornava-se um abismo para os sensores eletrônicos; uma falha não só no campo visual de um vigia, mas também nos monitores de vigilância noturna mais avançados, ou mesmo sob o ataque dos holofotes superiores a 500 W.

Durante o dia, sua eficácia transformava-se. O que era uma capa de invisibilidade contra fontes de luz direta, tornava-se uma negação da própria tridimensionalidade. A luz do sol, que deveria revelar volumes e formas, falhava em definir seus contornos. O material não a tornava transparente, mas sim uma mancha de puro vazio, uma falha no campo visual que o cérebro de um observador distraído interpretava como uma sombra profunda, um pedaço de tecido esquecido ou qualquer coisa que não uma pessoa.

Enquanto ela ascendia pela escada externa, tão estreita que a obrigava a alternar um pé e uma mão por vez, seus movimentos eram serenos. Passo após passo, elevava-se acima do concreto, até alcançar o cume do Knocknaheeny Water Tower, um reservatório de água situado no norte da cidade, capaz de ser visto à distância de diversos pontos de Cork, Irlanda. Solitário e altivo, a estrutura dominava a paisagem de prédios residenciais e comerciais, todos soterrados na escala pela sua silhueta imponente contra o céu noturno da cidade adormecida.

O peso brutal da mochila de assalto — larga, da mesma cor do traje e presa firmemente às suas costas com alças peitorais e lombares reforçadas — abrigava o rifle desmontado e seus cinco projéteis. Somado ao vento cortante que vinha de noroeste, tentando arrancá-la da escada, a carga exigia que cada movimento fosse uma decisão consciente. Ainda assim, não quebrava a fluência e nem a rapidez dos seus gestos. Cada passo na escalada era um testemunho silencioso do seu preparo físico.

Enquanto ascendia, sua mente estava concentrada apenas no filme da rotina d’O alvo, que conhecia tão profundamente: chegar em casa, dirigir-se à cozinha para beber água direto da torneira, trancar-se no banheiro por cerca de quinze minutos, servir-se de um whisky sem gelo no frigobar e, por fim, acomodar-se no sofá de couro para a maratona de séries que preenchiam suas noites solitárias, mas uma parte de sua consciência jamais abandonava a escalada. O vento gélido do outono irlandês mordia-lhe o corpo, um lembrete constante de que bastaria uma distração, e a queda seria fatal.

Conforme o final da escada se aproximava, uma verificação final ecoou em sua mente: “deixei o celular desligado?”, fazendo o seu sangue gelar. Era a única condição imprescindível para o seu véu de invisibilidade.

Se a filial de Cork — cidade onde ela deu entrada com um ofício falso como enviada da sede em Roma, onde estava lotada, para uma missão secreta — tentasse contatá-la, um sinal originado de Roma arruinaria sua farsa documental instantaneamente e, imediatamente, requisitariam à sede a confirmação do ofício de missão. Natasha seria dada como desertora. Ela poderia tentar fugir, mas não conseguiria se esconder por muito tempo. Todas as filiais espalhadas pelo mundo seriam informadas da sua deserção e seria colocada na lista de procurados. Pior: se a sede a chamasse e a ligação não fosse atendida, interpretariam como um ativo desaparecido, sendo despachado duas equipes concomitantemente: uma de localização e outra de extração para o seu apartamento ou onde quer que o seu aparelho estivesse, uma vez que não saberiam a gravidade da situação.

O silêncio do aparelho era seu único aliado. Um celular ligado no lugar errado era uma confissão. Se questionada sobre o motivo dele estar desligado, a desculpa do superaquecimento seria suficiente. Mas, naquele momento, subindo aquele último degrau, tudo dependia de um simples gesto que ela poderia ou não ter cometido horas antes, num apartamento a 1.800 quilômetros dali.

Ao atingir o último degrau, soltou um suspiro de alívio. Acabara de lembrar que havia desligado o aparelho e uma vez no topo do reservatório, rastejou com a sua mochila até a outra extremidade, mantendo a cabeça baixa para que escondesse seus olhos até mesmo de um profissional especializado como ela.

Natasha abriu o zíper central da sua mochila e retirou um anemômetro portátil. Posicionou-o estrategicamente próximo àquela borda da estrutura, para que o aparelho fizesse a medição da velocidade e direção do vento, sem que o seu próprio corpo servisse de barreira, conferindo uma leitura incorreta. Os dados do aparelho, somados à umidade relativa e à pressão barométrica que ela mesma estimava, eram cruciais para o êxito da sua missão pessoal.

Sua respiração transmitia o sossego incomum perante aquela situação, até que os números no visor digital começaram a ser apresentados, rapidamente substituídos por outros valores, estabilizando-se em uma média que seu cérebro já começava a processar, convertendo-os em variáveis para uma equação que ela sabia calcular mentalmente.

Fez uma primeira verificação para confirmar se os dados do anemômetro Kestrel estavam sendo recebidos via Bluetooth pelo seu smartwatch. Um pequeno símbolo azul de "conectado" brilhava no canto da tela. Seus olhos percorreram os números na cor âmbar no visor principal de fundo preto e os cruzaram com os que mostravam no relógio tático, em verde, já estabilizados. A redundância era um vício de ofício; uma única fonte de dados era sinônimo de erro em potencial.

Em seguida, arrastou-se sorrateiramente até à lateral esquerda e começou a montar o seu equipamento. Da bolsa, retirou primeiro a almofada e o tripé de tiro reforçado, desdobrando-o com cuidado para suportar o peso e o recuo que viriam. Em seguida, veio o seu rifle Snipex Alligator — uma besta de ferrolho em 14,5x114mm projetada para perfurar veículos blindados e eliminar alvos além do horizonte —, montando seu corpo monstruoso sobre o tripé. Deixou que a coronha descansasse sobre a almofada de Vantablack, tão furtiva ao infravermelho quanto os seus equipamentos. Por fim, encaixou a mira de precisão — com o telêmetro laser integrado — no trilho Picatinny, travando as alavancas com um clique sólido.

O carregador metálico continha cinco projéteis 14,5x114mm. Cada um tinha a massa de um pequeno tijolo de chumbo e o comprimento de uma mão adulta espalmada. Eram munições de guerra, projetadas não para ferir, mas para negar a existência do que tocassem. Ela deslizou o carregador para dentro do poço da arma até ouvir o estalo seco do engate.

Uma vez o rifle montado, seus dedos encontraram as pequenas alavancas da mira. Girou a primeira, mais próxima, e a tampa flip-up do ocular saltou para cima. Em seguida, repetiu o movimento com a alavanca distante, liberando a objetiva. Agora, nada obstruía o caminho entre o seu olho e O alvo.

Seu olhar direcionou-se para o condomínio do outro lado do vale, no alto da montanha oposta. Lá estava o arquiteto de sua ruína e renascimento: o homem que transformara uma dona de casa numa assassina profissional. Com o queixo firmemente apoiado na coronha, sua visão fundiu-se com a ocular. O mundo do outro lado era apenas uma mancha sem forma. Seus dedos, operando por pura memória muscular, giraram o botão de foco com uma lentidão deliberada, até que as massas informes se dissociaram em terreno e estrutura, e o cenário se revelou com clareza crua.

Sua vista, agora fundida com a lente, varreu a paisagem. Ignorou o conjunto residencial próximo ao do seu objetivo, abaixando a coronha do rifle para ver o conjunto residencial mais distante. Um microajuste no anel de foco trouxe nitidez cristalina. Alinhou o retículo no extremo esquerdo do bloco de casas conjugadas no segundo andar e contou mentalmente cinco janelas à direita. Ali deveria estar o apartamento d’O alvo. O retículo percorreu todas as janelas e a porta da sacada. O apartamento estava completamente às escuras, conforme planejado, conferindo-lhe o tempo necessário para imergir na ação em uma concentração própria de quem não podia errar, tornando o rifle uma extensão do seu próprio corpo.

Natasha não precisava ter pressa. Retirou o laptop da mochila e ligou-o. Mal o sistema operacional carregou, um brilho quase imperceptível, ajustado para mínimo, cobriu a tela — o filtro de privacidade que instalara garantia que apenas quem estivesse diretamente atrás do equipamento poderia discernir qualquer informação, diluindo assim a possibilidade do equipamento chamar a atenção. Abriu o software de cálculo para o disparo perfeito. O programa conectou-se automaticamente via Bluetooth ao anemômetro, enviando os dados para o seu smartwatch, o que lhe permitia ter todas as informações no pulso, bastando deslizar a tela para a direita e a esquerda, sem precisar desviar a atenção do rifle.

Ao software, faltava apenas um dado crucial: a distância exata. Esta seria fornecida pelo telêmetro laser acoplado à sua mira, que calcula o intervalo entre o disparo do sinal luminoso e seu retorno ao anteparo. Natasha, no entanto, só obteria essa medida no momento anterior ao disparo, assim que o homem estivesse sentado no sofá com a sua nuca à mostra.

Natasha perdeu por um breve momento a concentração naquela escuridão da ocular com um pensamento intruso, em um italiano mal pronunciado, devido a uma dificuldade do estrangeiro em não conseguir perceber, e assim pronunciar, consoantes dobradas:

“Isso não vai passar despercebido do meu Rafa.”

Natasha ignorou a voz vinda de dentro de si, então A voz decidiu mudar a estratégia:

— Eu tenho muito mais a perder que você, mas Frau Berg (Senhora Berg) e Le Bureau vão persegui-la para sempre.

Ela fechou os olhos calando aquela voz e retornando seu pensamento à missão. Ela não chegara até ali para desistir.

Permaneceu olhando para a ampla porta da sacada — um portal vazio que, no entanto, não a cegava. Na sua mente, estava impresso um mapa de tudo: a sala com a TV presa à parede de frente para o sofá e do seu lado direito, o corredor estreito que levava à porta de ingresso, com o banheiro à esquerda e a cozinha à direita. Do lado esquerdo do sofá, junto à parede, o frigobar e do lado direito, a porta de acesso ao quarto.

Finalmente, a luz do corredor acendeu. O alvo surgiu de costas, fechando a porta. Um sorriso breve e frio cruzou o rosto de Natasha. Seus dedos giraram o anel de foco uma última vez, num microajuste final, até que a imagem na ocular se tornou tão nítida e definida quanto o próprio retículo da mira — uma cruz precisa com suas escalas de medida aguardando o comando final.

Esperou que ele fosse até a cozinha e ligou o laser apontando para o sofá. Com as medidas carregadas no software, ela voltou a desligar o laser, segundos antes dele passar da cozinha para o banheiro. Caso não fosse possível uma segunda medição por falta de tempo ou um imprevisto, o software já poderia calcular o ajuste final. Assim que a informação foi salva, ela aproveitou o momento para também mirar o laser para a porta. Um segundo arquivo de informações foi juntado à base de dados, fazendo mentalmente alarde da sua proficiência: “Não há mais onde se esconder. Em breve você estará em um escuro infinito, de onde eu consegui voltar. Você, no entanto, não terá esse privilégio, a não ser que imite Lázaro”.

Com os dados finais calculados e carregados no sistema, Natasha ajustou a torre de elevação, levando em conta a distância do alvo fornecido pelo telêmetro a laser, compensando a queda do projétil em relação à distância e posteriormente ajustou torre de vento, para compensar a perda horizontal em relação à velocidade do vento no cenário em que O alvo se encontraria no sofá.

“Vamos lá! Deixe essas palavras cruzadas que você não tem capacidade de completar de lado e saia logo desse banheiro” — resmungava, imóvel, sem ousar tirar o olho da ocular da mira.

Essa foi uma das lições que grudaram na mente durante seus exaustivos treinamentos na Sibéria, um presente de Frau Berg, aquela senhora já passada dos sessenta outonos, ao enviá-la para lá, onde teve contato com Vladimir, o seu instrutor de tiro. Suas palavras invadiram a mente de Natasha, que lhe passaram o conhecimento com uma voz quase que hipnotizante, qual um sussurro:

“— À espera do alvo, não tire o olho da ocular. Distraia-se e o seu alvo poderá não mais estar ali. Você terá perdido a chance.

“— Semanas, talvez meses de vigilância estão jogados no lixo. Bexiga cheia? Aguente até que você esteja em segurança. Lembre-se. Você no papel de atiradora está exposta, mesmo à noite ou sob camuflagem. N-U-N-C-A se distraia. Vontades fisiológicas podem esperar. Aprenda a controlar o seu corpo. – e a fazia beber água até a sua bexiga encher ao limite.”

E finalmente a lição mais valiosa para um atirador do nível de Natasha:

“— Disparo efetuado é posição revelada. Posição revelada é missão fracassada. Você é uma sombra. Você não existe. Aja como uma. Se você atira e não elimina o alvo, você foi descoberta. Ele pode não ver você, mas sabe que tem alguém querendo matá-lo. Ninguém quer morrer. Ele irá tentar se proteger e se tiver um atirador de elite protegendo o alvo, então você se tornará a vítima. O tiro entrará diretamente pela objetiva da sua mira explodindo a sua cabeça.” — Num tom de autoridade, enfatizou — “É exatamente isso que eu esperaria de você caso estivesse protegendo um provável alvo.”

Natasha dissolveu da mente a lembrança de Vladimir, do ambiente congelante e das suas palavras quando o homem saiu do banheiro e foi para a sala. Ela posicionou o seu dedo estendido acima do gatilho à espera do momento do disparo, quando O alvo mudou a sua trajetória, voltando para o corredor de onde vinha.

O fantasma no alto daquele reservatório de água simplesmente esperou. Ela teria a infinidade da madrugada para eliminá-lo, caso necessário, mas para a sua surpresa, ele abriu a porta e uma mulher de cabelos pretos, cortados na altura dos ombros, entrou no apartamento e lhe deu um beijo nos lábios, tomando levemente a frente do homem enquanto caminhavam em direção à sala.

O alvo não estava mais sozinho. Haveria uma testemunha para contar a história e testemunhar. Natasha inspirou profundamente, enchendo os pulmões para oxigenar o cérebro e alcançar a máxima clareza de pensamento.

O dilema se instalou. Pelo seu treinamento, em ambientes controlados não se deve ter testemunhas. Se fosse necessário dar um ou dois tiros, todos precisavam ser eliminados, o que muitas vezes implicaria em esperar que os alvos estivessem em posição estratégica para que um não visse o assassinato do outro, dando à Natasha tempo suficiente para reposicionar o rifle em outra direção.

“Ou então com um único disparo eliminar ambos os alvos” — continuou mentalmente Natasha a explicação de Vladimir.

Pela ocular, ela podia ver o pescoço da acompanhante perfeitamente alinhado ao peito d’O alvo. Um único projétil bem-planejado... Era tecnicamente viável. Com a respiração e batimentos cardíacos sem alteração, o dedo permaneceu imóvel pairando sobre o gatilho, que só deslizaria para baixo na hora da sentença final. O tempo estava se esgotando para Natasha tomar uma decisão quando o momento se mostrou perfeito. O dedo começou a deslizar para baixo em direção ao gatilho quando em uma última tentativa de dissuasão, A voz soou novamente:

— Meu marido jamais lhe perdoará por isso.

A imagem na tela mental da atiradora foi devastadora. Ela viu Frau Berg e Raffa juntos em um mesmo escritório escuro, com luzes artificiais iluminando parcialmente o ambiente. Não soube dizer o que faziam, mas os dois olharam para ela, sérios. Compenetrados. Como se Natasha houvesse invadido o espaço reservado deles.

“Eu não me lembro disso. Isso não aconteceu” — exclamou Natasha, pensando de onde estava vindo a tal lembrança. Embora conhecesse a ambos, jamais havia vivenciado aquilo.

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