A Flor de Santharis. (Em Andamento)
Alenz07
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 13/11/25 00:43
Editado: 21/11/25 01:17
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 21/11/25 01:17
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 10min a 13min
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Palavras: 1642
[Texto Divulgado] "Flegetonte - O Rio da Cura." Condenada a despertar no Tártaro sem lembrar como ali chegou, uma alma ferida percorre os rios do submundo em busca de redenção. Entre o Estige dos juramentos quebrados, o Cócito das lamentações eternas e o Aqueronte das travessias impossíveis, ela revisita pactos, dores e desistências que marcaram sua existência. Movida pela esperança de purificação, encontra o lendário Rio da Cura: o Flegetonte. Diante da luta pela cura e da repetição infinita da dor, resta-lhe uma última escolha.
Não recomendado para menores de dezoito anos
A Flor de Santharis.
Notas de Cabeçalho

• O Sol Noturno

Os Primevos acreditavam que existiam dois sóis: o visível e o “nocturnus”, um brilho oculto que iluminava apenas a magia. Dizem que reis Aetheryn às vezes sonham com esse segundo sol.

Capítulo 3 O Trono Vazio

Maeve dedilhava o alaúde com leveza, os dedos correndo pelas cordas como se as próprias notas lhe guiassem o corpo. A música que nascia ali era mais suave, quase uma confissão em voz cantada:

“Por mares e desertos sigo,

sem mapa, nem céu, nem lar.

Buscando flor, buscando abrigo,

e encontro um trono, e um olhar.

Oh, jornada, cruel e bela,

fiz de ti minha prisão,

e nas pedras do castelo,

gravei minha canção.”

A cada verso, Maeve olhava em volta — os vitrais altos, os corredores de pedra azulada, as flâmulas da Casa Aetheryn pendendo como fantasmas em seda.

Em cada estandarte, o mesmo símbolo: um sol de prata envolto por ramos retorcidos, lembrando uma coroa viva — como se a própria realeza tivesse raízes.

Ela descrevia as tapeçarias em sua mente, maravilhada, sentindo o coração bater em ritmo de música.

Mas o encanto se quebrou quando a voz de Aldric cortou o ar:

— Guarde o alaúde, barda. O rei está passando.

Maeve arqueou a sobrancelha, curiosa. — O rei?

— Sim. — respondeu Elric, endireitando-se. — Mostre reverência.

Ela virou-se — e viu apenas um garoto.

Cabelos loiros quase brancos, olhos verdes que pareciam refletir o céu de inverno, e sobre a cabeça, a coroa dos Aetheryn — uma peça antiga, feita de prata e ouro trançados, pesada demais para alguém tão pequeno. O menino caminhava entre guardas e monges, o passo calmo demais para a idade.

E mesmo assim, o salão inteiro se curvou.

Maeve sentiu um arrepio na nuca e, por instinto, ajoelhou-se ao lado de Elric e Aldric.

O pequeno rei parou diante deles. Sua voz, embora suave, carregava uma autoridade que nenhum adulto ousaria desafiar.

— Levantem-se.

Eles obedeceram.

— Sou o rei Caelum Aetheryn, herdeiro do Sol Noturno. Mytrell deseja vê-los. Mas… — seus olhos pousaram em Maeve — a nascida do fogo deve ficar.

Um leve sorriso cruzou o rosto infantil. — Cante mais para mim.

Elric hesitou, mas Aldric o tocou no ombro.

— Ordem real.

E ambos seguiram deixando a companheira aos cuidados do jovem rei e toda sua comitiva que a olhava curiosa.

Maeve ficou, o alaúde em mãos, tentando esconder o nervosismo.

Sentou-se de novo, e cantou — desta vez com mais solenidade:

“Nas mãos do rei repousa o dia,

no seu olhar dorme a lei.

Se ele fala, o mundo guia,

se ele cala, o mundo é rei.

Que viva o nome sagrado,

que o trono brilhe em seu véu.

Pois onde pisa o coroado,

até os anjos caem do céu.”

O menino ouviu em silêncio. Quando o último acorde morreu, ele não aplaudiu — apenas baixou o olhar.

— Sua voz é linda, Maeve Darran.

— Não gostou da música, Vossa Graça?

Ele suspirou, e a idade desapareceu de sua voz.

— Gostei. Mas o poder que canta não é meu. Sou pequeno demais para reinar. O trono… ainda está vazio.

Maeve o olhou, confusa, mas antes que pudesse perguntar, ele se virou, o som das botas ecoando pelo salão. Do outro lado das portas douradas, Elric e Aldric entraram na câmara real.

O ar ali tinha cheiro de incenso e ferro antigo.

O patriarca dos Fenraed esperava — um homem alto, de barba grisalha e olhar como uma lâmina gasta.

— Ser Aldric. — disse ele, sem se mover. — Não acreditei quando ouvi os rumores. Meu filho… andando com um noviço e uma nascida do fogo? — indagou Lorde Edwyn.

Sua voz soava entre desprezo e tristeza.

Aldric manteve o olhar fixo no pai, e o silêncio que se seguiu pareceu durar um século. Mas antes que uma palavra de reconciliação pudesse nascer, as portas se abriram — e o perfume inundou o ar.

Mytrell entrou.

A Sacerdotisa Mytrell.

Seu andar era lento, hipnótico, e cada movimento parecia medir o espaço como se o próprio chão lhe pertencesse.

Os cabelos negros brilhavam como veludo sob a luz do vitral, e a coroa de galhos — entrelaçados com espinhos dourados — repousava sobre sua cabeça como uma ironia viva.

A seda escura de seu vestido fluía como sombra líquida.

E o perfume… doce e venenoso, uma iguaria rara que fazia o sangue pulsar em lugares que deviam permanecer quietos.

Elric sentiu a mente nublar por um instante, como se a fé se tornasse frágil diante da beleza. A presença de Mytrell era como um eclipse — atraía e obscurecia ao mesmo tempo.

Havia no perfume dela algo que não era apenas fragrância, mas lembrança — de um jardim que nunca vira, de uma promessa que jamais ouvira.

Por um breve momento, sentiu a alma vacilar.

Mas em pensamento, lutou contra isso:

Deus criou tudo o que é belo — até mesmo o que nos testa.

Repetiu a frase em silêncio, como quem empunha um escudo invisível.

E ao fazê-lo, percebeu que talvez a fé verdadeira não estivesse em resistir à tentação, mas em reconhecê-la sem se perder dentro dela.

Mytrell sorriu ao vê-lo resistir. — Andar com uma nascida do fogo, noviço… não é bom para sua fé. Nem para sua reputação.

Elric ergueu o rosto. — Deus criou o mundo inteiro. Não creio que Ele distinga o valor das almas pelo nascimento.

O sorriso da sacerdotisa perdeu a doçura.

Um lampejo — quase irritação — cruzou seu olhar.

— Talvez esteja certo. — disse, por fim. — Um noviço, uma nascida do fogo e um cavaleiro em busca de redenção… soa como uma fábula. — Voltou-se para Aldric. — Fizeste tua escolha, cavaleiro. Que ela te honre como espera ser honrado.

Depois, seus lábios desenharam um sorriso afiado, quase encantado.

— Mas ouça-me, Aldric Fenraed. Se a nascida do fogo mostrar qualquer sinal de bruxaria… mate-a. Seu julgamento terá o poder real.

A frase saiu mansa, como se ordenasse que acendessem uma vela.

Aldric baixou o olhar — e em silêncio, pensou que nem precisava de ordens para aquilo.

Não por obediência, mas por algo mais profundo e indefinido.

Mytrell estava ali, e o ar ao redor dela parecia diferente — denso, vivo, quase sagrado.

Os olhos verdes dela o fitavam com uma calma que queimava.

Por um instante, Aldric pensou ver neles o reflexo de todas as juras que um homem poderia quebrar.

Tentou desviar o olhar, mas a presença dela o mantinha preso.

Não era apenas beleza. Era domínio, era adestramento, poderia tomá-la ali, mesmo que estivessem diante do noviço, mas não o fez.

O contorno do rosto dela, a inclinação suave do pescoço, a maneira como a luz parecia se curvar em torno da coroa de galhos — tudo nela falava de um poder que não precisava de espada.

E Aldric, que um dia juraria a própria vida por uma princesa, sentiu-se pela primeira vez sem juramento algum.

Naquele instante, compreendeu que o desejo também podia arder — e que o fogo de Mytrell não precisava de chama para consumir.

O salão parecia respirar junto dela — um espaço vasto, abobadado, onde o som de cada passo ecoava como uma lembrança.

A luz atravessava os vitrais altos e derramava-se sobre o chão de mármore, tingindo de ouro e carmim as pedras antigas.

O trono em si era uma relíquia do primeiro reinado dos Aetheryn — esculpido em madeira escura, quase negra, entrelaçada por finos veios de prata que desenhavam ramos e espinhos, como se a própria natureza houvesse tentado tomar posse do poder.

O encosto, alto e curvado, lembrava o contorno de uma chama. Sobre o assento, repousava apenas o manto real dobrado, guardando a forma ausente de quem um dia se sentara ali.

Mytrell deteve-se diante dele — e o silêncio pareceu se curvar.

Ela pousou a mão sobre o braço do trono, como quem toca algo sagrado, e o leve tilintar dos anéis em seus dedos soou como uma oração distorcida.

Por um instante, seus olhos verdes refletiram as chamas das tochas — não como fogo, mas como algo vivo, consciente.

Inclinou-se então, quase num gesto de reverência, e deixou escapar um sorriso enigmático.

Havia algo de teatral naquilo — como se o trono, vazio, fosse apenas uma peça no palco de uma encenação que ela dominava.

E no entanto, por trás do deboche, havia uma aura quase divina: a sensação de que, se quisesse, bastaria um gesto para que o trono deixasse de estar vazio.

Seu perfume dominou o ar, misturado ao brilho pálido das velas.

Ela os olhou por sobre o ombro e disse, quase em um sussurro:

— Que a sorte dos elfos os acompanhe. — o movimento foi pequeno, mas bastou para que o salão parecesse prender o ar.

Seus cabelos negros, brilhantes como vidro molhado, deslizaram sobre o ombro e refletiram o lume das tochas em fios dourados e cobre.

A coroa de galhos — uma homenagem à antiga realeza élfica — faiscou com pontas de espinhos dourados, e por um instante, mais parecia um halo profano.

A luz acariciava-lhe o rosto de forma desigual: um lado mergulhado em sombra, o outro iluminado com doçura quase divina. Os olhos verdes, vivos e insondáveis, traziam a calma de um lago e a ameaça de seu fundo oculto.

O contorno da boca, suave e firme, sugeria tanto clemência quanto condenação — e nem ela parecia saber qual das duas oferecia.

A cada palavra, o perfume raro que exalava — notas quentes de mirra e pétalas queimadas — se espalhava lentamente pelo ar, confundindo fé e desejo de todos os homens.

Era impossível não olhá-la.

Não como se olha uma mulher, mas como se encara um presságio.

— O poder... — murmurou ela, a voz baixa, como se o som lhe pertencesse mais do que o ar — ...é uma chama que consome quem tenta segurá-la.

Quando se voltou completamente, o manto do trono esvoaçou levemente atrás dela, como se obedecesse a um vento invisível.

E então, por um instante breve e impossível de medir, Mytrell pareceu ser parte do trono — não sentada nele, mas feita dele: a coroa, os espinhos, a sombra e o ouro.

Elric sentiu um arrepio — não de medo, mas de pressentimento.

Sabia, no fundo, que o destino começara ali. E que, diante do trono vazio, talvez nenhum deles voltasse a ser o mesmo.

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Apreciadores (1)
Comentários (2)
Postado 25/01/26 16:47

Que escrita potente!

Foi como ver um filme, como fazer parte da cena, a tensão ali, palpável...

Seu texto realmente mexe com o leitor e dá vazão a uma profusão de sensações...

Ansiosa pelo restante da história...

Sinceramente, eu queria é o livro completo na minha mão...

Obrigada por compartilhar conosco!

Postado 25/01/26 16:47

Que escrita potente!

Foi como ver um filme, como fazer parte da cena, a tensão ali, palpável...

Seu texto realmente mexe com o leitor e dá vazão a uma profusão de sensações...

Ansiosa pelo restante da história...

Sinceramente, eu queria é o livro completo na minha mão...

Obrigada por compartilhar conosco!

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