A Fé do Pecador
vhladrac
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 24/09/21 22:39
Tags: contos
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 4min a 6min
Apreciadores: 9
Comentários: 6
Total de Visualizações: 1064
Usuários que Visualizaram: 15
Palavras: 748
Não recomendado para menores de catorze anos

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, ganhando na categoria Mistério.
Para saber mais sobre o Evento e os ganhadores, acesse o tópico de Resultados.

Notas de Cabeçalho

Oi gente! Eu sei que sumi por um bom tempo, mas como outubro está chegando e eu queria voltar com os contos meio de suspense/mistério e talvez terror.

Escrevi esse hoje a tarde, espero que vocês gostem.

Boa leitura :)

Capítulo Único A Fé do Pecador

Naquela noite, havia apenas um homem na rua. Ele caminhava tranquilamente, envolvido pelo som dos grilos e das folhas das árvores quando eram abraçadas pelo vento vez ou outra. Não se sabia o nome e nem quem era, apenas sabiam que ele carregava sempre consigo o pequeno cantil de prata cheio de aguardente e que cantarolava canções em línguas tão antigas que até os deuses haviam se esquecido. A tosse de alguma doença que provavelmente traria logo seu fim também o acompanhava, sendo cessada com um gole longo e quente.

Passos apressados chamaram sua atenção e, de repente, a rua já não estava mais deserta. Um homem corria em sua direção assustado, com os pés descalços sujos e machucados, uma barba branca por fazer e trapos rasgados que lhe cobriam o corpo.

“Moço, preciso de uma oração!” pediu o sujeito desesperado, que o homem acreditou ser um morador de rua. “Por favor, faça uma oração para mim.”

Ele sabia que não era um homem de orações, nunca fora. Mas o coitado estava tão apavorado e havia feito o pedido com tanta força, como se sua oração fosse a cura para qualquer peste que estivesse por ali, que o homem até se esqueceu que não conhecia oração alguma.

Decidiu então guardar o cantil no bolso da calça e segurar as mãos sujas e enrugadas que lhe foram estendidas, sentindo o gélido aperto que o homem lhe deu após fechar os olhos e franzir o cenho, levantando a cabeça em direção ao céu.

Então, sem muita opção, pôs se a cantar. Pensou nas cantigas que o acompanharam por toda sua vida em bons momentos, deixou as tristes para quando estivesse sozinho. Era uma cena estranha, os dois estavam imersos naquela situação cômica, tão imersos que demorou para notarem os dois pontos alaranjados que rastejavam em ambas as extremidades da rua.

O pedinte arrepiou ao sentir o calor emanado pelas criaturas, fechou os olhos com força e apertou ainda mais a mão de seu suposto salvador. As duas serpentes flamejantes que rastejavam com fúria em direção aos homens faziam movimentos como se estivessem interpretando a dança da morte e, por onde passavam, deixavam o rastro de brasa viva. Mostravam seus dentes de forma ameaçadora enquanto seu veneno semelhante à lava em seu estado mais líquido escorria por toda parte, dilacerando o que encontrassem pela frente.

O orador abriu os olhos assustado, ouvindo o barulho de chocalho de cascavel já conhecido por ele. Sempre amara serpentes, o suficiente para saber que o que vinha em sua direção não era uma simples espécie. Apesar do chocalho na ponta da cauda, os bichos possuíam estranhos aspectos que os tornavam semelhantes a dragões da terra.

Quando se encontraram, rodaram e formaram um círculo de fogo ao redor dos homens, de repente, toda a atmosfera era quente e laranja. As árvores queimavam como uma gigante fogueira enquanto o fogo se alastrava por todos os lugares, arrancando gritos do fundo da alma da população que cercava aquela região, quanto mais altos, mais as serpentes dançavam e queimavam, o grito dos meros mortais mundanos era sua melodia.

Quando acreditou que de nada valiam suas cantigas, o homem pegou o cantil do bolso e deu um longo gole, oferecendo-o ao velho que o olhou surpreso.

“A única igreja a qual não fui expulso em toda a minha vida foi a mesa do bar, senhor.” disse encarando as criaturas. “Minhas preces carregam demônios tão feios quanto esses que nos cercam. Não acredito que Deus está contente com minha pessoa, muito menos que esteja aqui neste momento”

O velho sorriu, aceitando o cantil e bebendo tudo o que nele havia restado. Olhou fundo nos olhos do pecador, que acreditou ser efeito da bebida ao ver os olhos opacos refletirem íris de répteis.

“Suas falhas, assim como seus acertos, são partes de você. Não deixem que tirem isso, tudo o que um deus precisa, é de alguém que acredite nele.”

Dito isso, o fogo ao redor cessou como um breve soprar de vela, sem deixar o mínimo rastro de fumaça. As serpentes flamejantes agora estavam prateadas e rastejavam calmamente em direção às extremidades de onde vieram.

Ofegante e pasmo, o homem deixou de encarar o seu redor e voltou-se para onde o velho se encontrava anteriormente, encontrando apenas o escuro da noite. Surgiu então o som distante e suave do chocalho, chamando sua atenção para uma das extremidades da rua, onde a serpente prateada rastejava para longe, como se nada tivesse acontecido.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Gratidão! :)

Apreciadores (9)
Comentários (6)
Comentário Favorito
Postado 05/10/21 22:05

Thai!!!! Que obra incrível!!!~~~~

Eu amei tudo neste texto! Os personagens, o fato deles não terem um nome, os pensamentos do protanista, as serpentes, o fato dele não saber nenhuma oração, mas mesmo assim tentar ajudar e esse final... Que final!!

"A vida é feita de certos e erros" já dizia minha mãe e é destes que aprendemos a ser quem somos, uma junção dos pecados e das bondades.

Eu amo seus escritos e espero poder ler muitos mais da sua escrita aqui no site, então continue a compartilha-los. Muito obrigado por me dar a chance de epreciar tal obra, favoritei (quero um botão de favorito!)

Assinado uma pequena pecadora, <3

Postado 28/10/21 19:39

Muito obrigada, Shizu!!! Agradeço muito, foi inspirado em uma história que meu tio contou que aconteceu com ele!

Agradeço muito e fico extremamente feliz que você tenha gostado!! Muito obrigada mesmo <3

Postado 12/01/22 18:06

Nossa. NOSSAAA!!~~

Baseado em fatos reais~~~

Você fez um ótimo trabalho, ♥

Postado 22/05/22 16:07

Pegou um conceito interessante: o poder das palavras.

Jogou uma pitada de sal: a crença no panteão dá vida ao panteão.

Criou presonagens quadri-dimensional e um belo antiprotagonista.

BAM!

Este texto é inspirador, e que venham mais!

Sjow

Postado 16/06/22 23:11

Muito obrigado Sjow!!!! Fico muito feliz que um conto que em minha visão era simples possa ser interpretado de uma maneira tão incrível como essa! Muita gratidão <3

Postado 14/10/22 16:38

Sua visão é direta mas tem a capacidade de intrigar a mais seleta das mentes, obrigada por esse lindo texto

Postado 29/10/22 16:21 Editado 29/10/22 16:22

Simplesmente sensacional o seu manejo com a construção da narrativa neste texto. A escrita é cativante, assim como a situação narrada, o que possibilita ao leitor uma leitura não somente imersiva, mas também cativante. Acho que o comentário do Sjowmalf consegue descrever como me senti lendo essa obra, pois ela ficou uma verdadeira obra-prima e é um puta aulão de como construir textos desse gênero.

Obrigada por compartilhar conosco!

​Parabéns, Thai ♥

Postado 18/11/22 21:04

Todas as nossas falhas e todos os nossos acertos fazem parte de nós. Gostei, foi muito bonito. Eu não sou uma pessoa de fé, mas achei esse texto de uma sensibilidade tocante. Meus parabéns

Postado 04/12/22 15:37

"Suas falhas, assim como seus acertos, são partes de você. Não deixem que tirem isso, tudo o que um deus precisa, é de alguém que acredite nele"

Eu achei tão profundo, tão bonito e tão real essa frase. Me parece o modo como a vida de fato é.

Isso também me soa um tanto melancólico, mas não deixa de ser bonito, cativante, o modo triste que a vida funciona!

E tudo fica ainda mais interessante quando li seu comentário de que foi inspirada em uma história que aconteceu de verdade, isso é incrível demais!

Obrigada por compartilhar conosco, Srta. Thais <3

Outras obras de vhladrac

Outras obras do gênero Aventura

Outras obras do gênero Fantasia

Outras obras do gênero Mistério

Outras obras do gênero Reflexivo