Muito além de um Cachorro
Scheffer
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 22/10/22 15:42
Gênero(s): Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 14min a 19min
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Capítulo Único Muito além de um Cachorro

Eu recém havia perdido o Tobi, um Pinscher (revoltado, mas isso é pleonasmo, porque todo é Pinscher é revoltado, não é mesmo?!) que foi convencido a fugir de casa graças a uma cadela no cio. Resultado: ficou tão cego de amor que foi atropelado por um ônibus.

Depois daquele evento eu resolvi pegar um outro cachorro, com o intuito de preencher a dor e o vazio deixado pelo Tobi (como se isso fosse possível). Eu prometi que não queria mais machos e fui ao petshop definida a pegar uma cadelinha.

Ao chegar lá, estavam todos eles, uns cinco, em um cercadinho, sedentos por receber amor e carinho. Eu me abaixei, acionei meu foco para encontrar fêmeas, e um deles simplesmente bagunçou todo o meu campo de visão ao sair correndo ao meu encontro. Só faltou falar, me leva para casa! Eu não resisti, é claro, eu nunca resisto. Peguei ele no colo, e…

A não, é um macho!

Mas, era praticamente impossível ignorar aquele pedido. Dizem que assim como a varinha escolhe o bruxo, os cachorros também escolhem os donos… e foi justamente isso o que aconteceu…

E o nome? Gente, ele parecia uma ovelhinha, fofa, branca e muito pequenina, a ponto de não conseguir subir um degrau da escada.

Fui convencida pelo estrangeirismo, pois, aquele nome parecia traduzir a sua fofura: Sheep, ovelha em inglês. Era curto, fácil de entender, sua sonoridade remetia ao chip do telefone, algo também pequeno e bem contemporâneo (hehehe).

O problema mesmo foi a escrita, não era algo que o pessoal estava acostumado e eles erravam o nome dele seguidamente. Aliás, pensem bem antes de colocar consoantes ou vogais em locais estranhos, isso pode complicar a vida do seu filho mais tarde, ao menos aqui no Brasil!

Mas, acho que podemos dizer que o português deu um jeito de se apropriar disso, depois, em outras palavras, minha avó começou a chamar ele de “Pipi” ao invés de “Sheep”. E de fato, ele fazia muito pipi, então, acredito que esse apelido também caiu bem!

E eu não sei como vocês se comportam diante de um cachorro fofo, mas eu começo a afinar a voz, trocar algumas letrinhas das palavras, falar tudo no diminutivo, além de fazer cara de abobada. É quase que um sequestro da minha racionalidade. E quem me conhece sabe o quanto eu tento evitar isso, mas, nesse caso, eu não estava nem aí. Eu curtia e me deixava seduzir pela sua tentadora fofura.

E de fato, era tentadora a sua fofura. A minha avó, por exemplo, é uma daquelas que é viciada em limpeza, volte e meia tá subindo pelas paredes para limpar as paredes, e com isso você até pode imaginar uma certa repulsa por criaturinhas com pelos que podem ameaçar a sanidade do seu sofá ou tapete. E obviamente ela tinha pavor de cachorros. Até que…

O Sheep apareceu em nossas vidas. E eu disse, ele era tão tentador que nem mesmo a Dona Tere resistiu, ele amoleceu o coração de todo mundo. Algum tempo depois, passou a acessar até mesmo o sofá da casa (quem diria), com direito a um lugar privilegiado e um cobertor próprio, cheio de manias, ele até que me lembrava o Sheldon do The Big Bang Theory.

E quando fazia pipi dentro de casa, o culpado passava a ser o vô Remo, que não percebeu que ele queria fazer xixi, porque o Sheep mesmo se pronunciava, a fim de que levássemos ele lá fora. Então, ele saia ileso dessa, com dizeres como: pobrezinho Remo, tu não viu que ele queria fazer xixi e não levou lá fora?

E é assim que a minha avó desenvolve pessoas e cachorros mimados, sem querer (a família inteira está aí para provar isso)!

Falando nisso, o Sheep também me fez refletir sobre inúmeras coisas importantes na vida, começando pelo condicionamento. Ele era um cachorro esperto e desde cedo aprendeu a fazer manhas, em outras palavras, ele descobriu que, se ele teimasse, ele poderia ganhar comida na boca e tudo mais que ele quisesse.

Resultado? Ele sacudia o pote de ração e resmungava toda vez que queria comer, e não comia, até que alguém colocasse comida na sua boca. Outro caso, era o fato de que se ele não dormisse na cama, ninguém dormiria, pois, ele arranhava a porta e latia até que alguém abrisse e satisfizesse o seu desejo.

Amaldiçoada mesmo foi a minha mãe, que passou a fazer as vontades do cachorro e nunca mais parou. Isso me fez refletir o fato de que se não colocarmos limites, eles irão dominar você ingenuamente. E medidas que acabam com o nosso estresse a curto prazo, como abrir a porta para o cachorro entrar e ficar quieto, podem se tornar um pepino a longo prazo, ou várias noites de insônia, porque ele não para, ironicamente, quieto, mas, agora é na sua cama!

E aqui a gente chega na importância de uma boa educação, não é mesmo? E eu sei que estamos falando de cachorro, mas, isso, obviamente, também se aplica a todos nós, seres humanos. E falando nisso, com todo o respeito, essa linha entre seres humanos e cachorros não parece ser tão clara, o Sheep, por exemplo, só faltava falar, o resto eu acho que ele entendia tudo…

Mas, trocando de saco para mala, esse cachorrinho foi resistente. Por mais sensível que ele fosse. Ou seja, ele “adorava” contrair uma otite, teve uma bolinha no testículo que estava com preguiça de descer e a gente teve que remover em cirurgia.

Algum tempo depois, eu notei que ele estava mordendo demais, literalmente, e ao abrir a sua boca, eu percebi que ele tinha duas fiadas de dentes na arcada superior, isso mesmo, era o dobro de dentes. Caso inédito e genético, segundo o veterinário. Depois, a gente passou a encontrar alguns dentes pela casa, pois, a natureza viu que aquilo não era muito sustentável e fez cair uma fiada. E todas as coisas que ele mordia agradeceram, inclusive os meus dedos!

Os anos foram passando… e o nosso pequeno Sheep também passou a encarar o peso da idade.

Teve um probleminha de coração, daí passou a tomar remédio, assim como os idosos tomam remédio para a pressão. E qual é o outro problema bem comum depois de uma idade, hoje em dia? Tá! falta de memória eu não consegui descobrir se ele tinha, mas, ele passou a ter diabete. Sério, isso também dá em cachorros, acreditem!

E com isso, ele me fez teorizar a respeito das rações para cachorros, seriam elas as culpadas pela diabete do Sheep? A gente sabe que diabete tipo 2 é predominantemente desenvolvida por maus hábitos alimentares, ao menos em humanos…

Faz sentido dar aquele negócio padronizado e industrializado para cachorro, sendo que a maior parte da evolução, eles comeram “comida de verdade”? Eu ainda ouso dizer que isso também anda prejudicando a saúde dos nossos bichinhos e até dou a ideia de um investimento bem atrativo: um restaurante para caninos com comida natural… olha que negócio, em!

Alguns dizem que é da idade, mas eu também tenho ciência que isso pode ser influenciado pelo diabetes, no caso, o nosso pequeno foi ficando cego aos pouquinhos, e no final da história, ele, que já era branco, virou um floquinho de neve, pois até seus olhinhos ficaram brancos, uma pena neh?

Ao olhar para o Sheep, era inevitável se questionar como deveria ser a vida de um cachorrinho cego e um pouco surdo, seria uma eterna prisão do presente? ou ele possuía o direito de recordar de memórias passadas e beber do entretenimento de seus pensamentos? Eu ainda acho que fico com a última opção.

Mais tarde, veio a pedra na bexiga, o problema do fígado aumentado e um tumor, bem em uma patinha dianteira (eu confesso que não sei bem se foi tudo nessa ordem, porque cá entre nós, era muito problema). E as coisas se agravavam pelo fato dele estar velhinho, e nesses casos, a cirurgia não era algo muito recomendado, em outras palavras, a probabilidade dele não voltar era alta.

A sorte mesmo foi que o tumor não era maligno, por mais que deixasse o pezinho dele horroroso e fedido. E o restante era possível contornar com medicamentos. Então, a gente, ou melhor, principalmente a minha mãe e meus avós, que ficavam com ele, foram levando.

Era o comprimido para o coração, uma vez ao dia, comprimido para ele poder fazer xixi, insulina que era injeção mesmo, duas vezes ao dia, além de uma ração especial, cara para burro, sem açúcar, e a troca do curativo do pezinho, três vezes ao dia. Por vezes, eles precisavam dar um analgésico e um xarope para acalmar as suas crises de falta de ar. Além de água e comida na boca, porque depois de uma idade, segundo a Vó Tere, justificava-se em função do nosso pequeno não conseguir enxergar.

Mas, talvez, vocês devam estar pensando: tudo isso para um cachorro? E era justamente nisso que eu gostava de filosofar. Os remédios não eram baratos, o tempo que ele exigia da rotina deles também, então para que fazer isso? Por que não encontrar uma justificativa superficial como muitos encontram e fazer a eutanásia? Era essa a pergunta que me enchia de vida. Porque, por trás de todo esse cuidado, havia um sentimento muito valioso, que precisamos recuperar na contemporaneidade, ou seja, o amor e o valor das coisas em si mesmas.

O Sheep não era apenas um cachorro ou um objeto de nossa posse, ele era sim um membro da família com valor em si, e existia uma troca de carinho, amor, companheirismo, que superava todos os seus problemas de saúde e justificava todo o cuidado. Com isso, ele me fez perceber que o respeito independe da espécie, mas, parece ter muito mais a ver com a relação afetiva que estabelecemos com o outro, sejam lá de que espécie ele for.

Há uns vinte dias a minha mãe entrou em contato comigo dizendo que o Sheep estava tendo crises mais fortes, não conseguindo dormir e que estava pensando na eutanásia. A gente já havia conversado e a orientação seria de que, se ela percebesse que ele estava sofrendo mais que vivendo, a gente optaria pelo seu descanso eterno.

Analisando os recursos e o seu estado de saúde, essa solução parecia ser a mais coerente, e é o que eu penso ser adequada em situações semelhantes com humanos, inclusive. Mas, claro, cada caso é um caso e deve ser tratado com a devida atenção e respeito.

O problema, foi que quando eu recebi essa informação, uma parte de mim que não queria perder o Sheep implorava por buscar uma outra alternativa. É mais um dos casos que na teoria é algo simples, mas na prática, as emoções tomam conta e fica difícil definir.

A gente involuntariamente recebe o peso da responsabilidade de escolher tirar uma vida e se pergunta veementemente se temos esse direito. Em resumo, resolvemos tentar esperar mais um pouquinho, pois definitivamente ninguém da família queria fazer aquilo.

E aqui vem mais uma lição que aprendi graças ao Sheep. Depois de ser apresentada à possibilidade de perdê-lo, eu comecei a refletir o quanto, de uns tempos para cá, eu acabei reduzindo a minha atenção para com ele. Esse é mais um dos casos que se não nos guiarmos conscientemente, seremos conduzidos pelos nossos instintos (já explico).

Eu percebi que o fato dele não ter mais uma aparência tão fofa, em função da idade e das condições de saúde, me fizeram se afastar. É bem doído dizer isso, mas eu não percebi. E então, eu notei o quanto a beleza ainda tem influência nas nossas relações e, talvez, porque tantas pessoas, mesmo sem um olhar consciente, temam ficarem velhas. Um cachorro fofo desperta em nós a vontade de cuidado e aproximação. Assim como um bebê fofo. Mas, o contrário, não.

Não se você não tiver esse olhar consciente em que eu me toquei no último do segundo tempo. Deu tempo de pegar ele no colo, abraçar apertado e fazer um carinho. Deu tempo de dizer eu estou aqui, seja lá pelo o que você está passando. Deu tempo de me despedir de algum modo. Deu tempo de sair do mundo das aparências e entender que uma vida é muito mais que isso.

Eu admiro os meus avós, pelo exemplo de cuidado, carinho e amor. Por eles terem enxergado o que eu precisei pensar para enxergar. Eu também admiro a minha mãe por toda a sua dedicação com o nosso pequeno. Eu admiro o nosso veteriano, o Thiago, que cuidou do Sheep, pois, segundo a mãe, ele não teria vivido nem metade do que viveu. E é claro, agradeço a todos que participaram da vida dele de alguma forma.

E o final da história, é aquele que todo mundo é obrigado a viver. Ele partiu fisicamente, mas, eu prometo guardar você no meu coração, lembrando de você e seus ensinamentos em cada gesto de carinho e te tornar eterno enquanto eu viver.

Enfim, eu não sei se você notou, mas essa não é apenas um pedacinho da história de um cachorro. É uma história de amor e valores que só conseguiremos enxergar se nos abrirmos para o outro, se tivermos um olhar consciente sobre as nossas ações, se expandirmos a nossa capacidade de respeitar não só o ser humano, como os animais e a natureza como um todo. E por fim, tente enxergar a sua volta, a vida vive lhe dando lições de vida, mas você precisa parar um pouco para perceber.

Enfim, Sheep, eu te amo e serei eternamente grata pela sua presença em minha vida.

Muito obrigada, vai para o céu minha estrelinha, volta para a alma do mundo!

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Comentários (1)
Postado 26/11/22 15:48

Esse foi um texto de uma sensibilidade extrema. Tantas partes em que coisas incríveis foram escritas. Pensei na minha sogra, em ela cuidando de sua cachorra. E que lição esse texto nos presenteou, sobre a aparência que afeta até mesmo nossa interação com os animais. É muito triste. Sinto muito por sua perda. Mas fico feliz que você conseguiu amar o Sheep até o final.