Alguns sonhos me atravessam e me marcam por anos a fio.
Demorei muito tempo para colocar este em palavras, por um motivo que ainda não entendo. Talvez pelo medo de que, ao escrevê-lo, ele não se torne real. Ou, pior do que isso, que seja apenas uma mera ilustração da minha imaginação fértil demais.
Mas algo dentro de mim quer que seja mais. Quer que seja real.
Cada pedacinho.
Cada cor e cada detalhe.
Assim que acordei, uma sensação de paz me invadiu. Desde então, gosto de revisitá-lo todas as noites. Gosto de estar lá.
Enquanto escrevo estas palavras, uma emoção gritante cresce em meu peito. Estou chorando. Chorando por tantas e tantas coisas.
—
O céu está azul. Um azul claro, sereno. O sol me invade, me aquece, me preenche.
Olho ao redor e a brisa me faz respirar fundo. Meu cabelo está em um daqueles dias rebeldes, cheio de vida. O vento o bagunça cada vez mais, mas isso me tranquiliza.
Acaricio minha barriga e sinto um chute forte. Meu sorriso cresce instantaneamente.
Seguro as costas e caminho pelo jardim à sua procura.
Naquele verão, nosso jardim estava perfeito. Exuberante. Deslumbrante.
Enquanto atravesso a pequena estrada de terra, avisto sua horta ao longe.
Ao redor, minhas rosas me contemplam com a mais pura beleza do mundo. Nesta época do ano, elas estão completamente abertas, exibindo suas cores mais vibrantes. Você as plantou para mim no ano passado e cuida delas todos os dias. Sabe o quanto eu as amo.
Hoje, elas me presenteiam com as cores mais intensas que já vi. Um azul suave e um branco delicado, como nuvens. Misturam-se até parecerem um céu sobre a terra. Um imenso lençol de flores azuis e brancas.
Então eu o vejo.
Ajoelhado entre a terra e as flores.
E meu peito se expande.
Você insiste em andar descalço, mesmo que isso sempre termine em alguma discussão depois. Está cavando um buraco, plantando mais alguma coisa.
Aproximo-me.
— Meu amor, você está descalço de novo — digo, rindo.
— Ah, já estou terminando, meu amor. Plantei mais alfaces desta vez.
Você se levanta e se aproxima.
Está luminoso.
Bonito de uma forma que me deixa sem palavras.
Veste uma camisa branca e uma calça branca. No pescoço, aquela corrente azul que nunca consegui descrever direito, mas que amo mesmo assim.
— Seu teimoso. Você sabe que pode machucar o pé, não sabe?
Você me encara e abre um sorriso que preenche cada espaço do meu coração.
Seus braços me acolhem.
Então você me beija.
Um beijo suave, doce e macio, como só você consegue me dar.
Suas mãos acariciam minha barriga, que já está grande demais, para falar a verdade.
— Como vocês estão hoje, garotinhas? — pergunta, olhando para minha barriga.
— Teimosa como o pai. Está me chutando desde cedo.
Você gargalha e deposita um beijo em minha testa.
Eu o deixo terminar suas tarefas e volto para minha cadeira de balanço.
Retorno ao livro que já estava quase terminando.
Observo o jardim.
O vestido branco e longo dança junto ao vento leve.
E, mais uma vez, sinto a paz me invadir.
—
Então eu acordo.
Na cama.
Longe dali.
Longe de tudo.
Assim que abro os olhos e vejo a realidade exatamente como ela é, uma tristeza absurda toma conta de mim. Um vazio silencioso começa a ocupar espaço.
Os dias passam.
O trabalho continua.
A vida volta a ser como sempre foi.
Mas aqui dentro, bem aqui...
Eu ainda volto para lá.
Porque é onde eu quero estar.
Com você.

