A Fome
Holzwarth
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 28/02/23 23:09
Editado: 28/02/23 23:09
Gênero(s): Terror ou Horror
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 2min
Apreciadores: 2
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Palavras: 359
[Texto Divulgado] "cinzas" E sobre o monte mais alto fiz a promessa de atirar tuas cinzas ao vento. para o destino infinito que é a sua eternidade.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

Nenhum rato foi ferido durante a escrita deste texto. Este texto contém descrições gráficas e detalhadas de uma cena potencialmente chocante. É recomendada discrição ao lê-lo.

Capítulo Único A Fome

Num beco sujo e imundo, abriu os olhos, faminto, outrora desmaiado em cima de uma poça turva. No estômago riam as hienas de seu fracasso quando fora enfiar os dentes no braço do homem há muito morto ao lado do latão e as muitas baratas o afastaram dali. Elas viviam em volta das feridas abertas nas solas de seus pés, nos buracos purulentos em seus ombros, nos cantos secos de sua boca — por onde não sabia se entravam ou se saíam. Também viviam debaixo da pele podre, dentro das paredes dos intestinos abertos, em cima dos fiapos embaraçados do corpo torcido e trançado no abandono da morte. O fedor da carcaça perfurou suas narinas e atiçou seu estômago: mesmo envolto pela escuridão, via, soterrado por uma pilha de lixo, o corpo inerte, anônimo e ainda vestido, tomado por um turbilhão fervilhante de baratas e vermes.

Tinha nas mãos os punhos para brigar com aqueles insetos imundos pelas vísceras à mostra, mas um chiado gentil o tirou de seu torpor. Um rato grande e gordo farejava, curioso, seus dedos do pé, e o fascínio pela sujeira debaixo das unhas longas o distraiu. Mexeu os bigodes, balançou o nariz: com cuidado, mordiscou-os.

A matilha de hienas famintas cravou os dentes nas paredes do estômago vazio enquanto ululava e gania, frenética, pelo sangue quente da ratazana cinza. As mesmas mãos, antes em punhos, mas agora em garras, raptaram o bicho num só mergulho ao chão. Levantaram-no no ar e trouxeram-no diante de olhos fundos e famintos. O animal guinchou, se contorceu, gritou. Girava o corpo para se libertar de seu predador enquanto clamava, inutilmente, pela misericórdia da boca faminta. A dor da fome ensurdeceu a insignificância do pedido da ratazana. Os dentes se fecharam em volta de sua barriga estufada de uma só vez e, num puxão para cima e para trás, separaram um retalho de carne, pele e pelo do resto do rato ainda com vida. Engoliu o pedaço por cima dos ovos de barata escondidos entre sua glote e sua laringe e deu outra bocada — ainda mais voraz — no bicho, cujos últimos suspiros eram embebidos em saliva grossa e sanguinolenta.

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Apreciadores (2)
Comentários (1)
Postado 05/03/23 03:34

AI COMO EU AMO UM GOREZÃO CHEIO DE NOJEIRA COM MUUUUUUITA DESCRIÇÃO!!!

Holz, eu nem tenho o que dizer sobre essa obra... Era o que eu precisava para destravar uma parte bem específica da minha imaginação hehehe!

Estou profundamente impressionada com a suacriatividade e imaginação. Tudo foi vívido e viscoso demais! Parabéns camarada! Por mais textos assim, completamente bizarros, fétidos e poderosos!

Por falar nisso... Acho que ouvi um ratinho...