O Despertar do Inferno
Lucas Gomes
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/10/16 20:43
Editado: 31/10/16 21:37
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 31min a 41min
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Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween" No Concurso Oficial de Halloween da Academia de Contos, apoiado pela DarkSide Books, convidamos os participantes a escreverem textos no estilo "creepypasta", ou seja, obras detalhadas de terror escritas com o objetivo de assustar os leitores e deixá-los se perguntando o que é real e o que é ficção na história. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único O Despertar do Inferno

I.

-Cacete! Que dor de cabeça. - Esganiçou Joe ao tentar se levantar, ergueu as mãos a altura da cabeça, mas com um solavanco fora impedido. Olhou para seus pulsos, estava acorrentado.

-Quieto! - Exclamou uma mulher deitada a sua esquerda, a alguns metros de distância. Chacoalhando suas correntes com raiva.

Joe tentava se situar, sua visão estava um tanto embaçada, e os machucados no seu corpo não tardaram a arder. Sentia-se sujo, imundo e dolorido, como se uma horda de Formigas Vermelhas o tivessem picado pelo corpo topo.

Sentou-se de pernas cruzadas e tentou identificar em que lugar estava. Forçava sua visão mas mesmo assim não conseguia assimilar muita coisa.

-Você está numa masmorra, retardado! - Bradou a sua companheira de cárcere.

Logo após o grito, surgiram passos no corredor, passos estrondosos, como se quem viesse andasse com botas de titânio. Ouviram uma voz extremamente grave resmungando, e apagaram novamente.

Sentia-se ainda mais cansado além de farejar um forte cheiro semelhante a fossa, sua testa estava queimada. Queimada? Sim, realmente queimada, mas não entendia o por que. Estava com ainda mais dificuldade para se manter lúcido, tinha a impressão de que se continuasse em silêncio começaria a alucinar, enlouquecera.

Joe fixara sua visão na mulher encolhida junto ao canto da parede, ela estava com algo semelhante a um pijama branco, embebido em sangue. Seus cabelos, ou o que restara deles, eram todos emaranhados perdidos entre as feridas distribuídas aleatoriamente sob seu crânio. Tentou respirar fundo e fora atacado por acessos de tosse. Assim que acabaram, suspirou e perguntou-a:

-Você está acabada, o que houve? - dissera em um tom ameno, com medo de como ela poderia reagir. Mas não foi de muito agrado, percebera seu olhar incisivo como quem diria não é da sua conta, mas insistiu no diálogo.

-Quem é você?

-Aquela que como você, agora está sentenciada.

Ao término dessa frase, Joe estava completamente pasmo, não conseguira ver seus olhos por inteiro antes, eram brancos. Pareciam como uma fina camada de gelatina cobrindo um vazio que habitava aquele lugar onde deveriam estar seus glóbulos oculares.

Ela simplesmente definhava na própria existência, eu não sou um ser tão triste, por que estou aqui? Pensava, porém, fora interrompido pelo forte som de passos vindo a fora, junto com o som metálico e pesado já ouvido anteriormente.

Só então Joe percebeu que aquilo era realmente uma cela, quase tão apertada como um hospício, mas sem comodidades como camas, de longe era possível se ouvir viajar pelo ar o som do mais profundo pranto. As paredes pareciam transpirar temor, e Joe suava frio.

Ouviu então um barulho de chaves que tilintavam contra a fechadura, tudo parecia estar em slow-motion. A maçaneta se abriu e então surgiu um busto na porta. Era um homem alto, branco, musculatura magra e definida, de olhos completamente brancos e vazios. Em suas mãos carregava uma espada de pequeno para médio porte aparentemente muito afiada, sua bainha era ornamentada, tomando a forma de uma serpente contorcida e de sua boca saía a lâmina.

-Bem em tempo, disse o homem, de pé, as duas putas! Adentrou a sala e então Joe percebera algo que revirou seu estômago, o homem era ligado, como são gêmeos siameses, pelo quadril, com um busto que ele identificava como sendo uma mulher, eles eram idênticos, igualmente carecas, mas o outro tinha seios. Andavam nus e tinham somente uma genitália masculina.

Ambos tinham dois braços e portavam uma espada longa e outra de tamanho reduzido. Iguais. Nas costas de cada um, estendiam-se longas asas, belas e negras.

-Pare de me olhar, verme! Gritou a plenos pulmões, ou o que quer que constituísse aquela criatura. E prosseguiu - Vocês, vocês dois são meus agora e a menos que queiram adiantar seu tormento, eu tenho uma missão a lhes dar!

-Sim, meu Senhor. - Respondeu a moça.

Joe sentia um pavor tremendo ao olhar para tal criatura, sempre fora muito interessado no misticismo, ocultismo e afins. Mas sempre teve isso mais como um hobby, nunca pensara que na realidade poderia deixá-lo tão amedrontado. Seria por isso que havia sido pego? A criatura não saberia de tudo a respeito dele, ou saberia?

As dúvidas escorriam pela sua cabeça e ao pingar lhe causavam tremenda confusão. Em meio ao seu turbilhão de tentativas de entender o que acontecia, a criatura invocou uma fenda dimensional de mais ou menos 2 metros de altura, onde era possível observar as pessoas pelo mundo.

-Vejam, temos mais de 7 bilhões de vermes humanos como vocês andando por aí rumo a lugar nenhum. Estarão libertos por ora, de suas penitências, se voltarem até lá, e servirem a mim como meus receptáculos e "evangelizadores".

II.

Se havia sido um pesadelo ou não, Lilian não saberia dizer. Embora tenha se levantado encharcada de suor, as coisas estavam tranquilas, verificou as crianças e continuou pensativa, conferiu o relógio 5:45, logo iria amanhecer, não valeria a pena voltar a dormir.

Aproveitou seu tempo para preparar a mesa para as crianças, deixou o café pronto, e seus uniformes escolares também.

Suas duas crianças, Jeremy, um garotinho adorável, moreno e pequeno, de olhos esbugalhados e sua meia-irmã Sofia, uma menina de 8 anos de temperamento instável, compunham uma bela e clássica família dos tempos pós-guerra, uma mãe solteira, trabalhando e lutando pelos seus filhos.

Isso se Lilian trabalhasse, abastecendo-se da “herança” deixada pela morte de seu marido, sentia-se apenas na obrigação de cuidar da sua prole e abastecer o seu coitadismo e autopiedade.

As crianças foram para a escola que era em período integral, de certa forma sentia um alívio em afastar sua maior responsabilidade por alguns segundos.

Era hora de relaxar.

Procurou pelos seus cômodos até encontrar um pequeno saquinho de cocaína. Só restava um pouco, o dinheiro do mês era escasso, talvez vendesse um móvel ou dois, ainda não sabia. Se preocuparia com isso mais tarde.

Sob o efeito da droga, Lilian sentia-se a mulher mais poderosa do mundo, ela existia e estava acima de todos! Nada a derrubava. Se quisesse, e é claro que um dia iria experimentar, poderia simplesmente pular do alto de um edifício e voar, voar para muito longe, longe de todos aqueles, ao redor dos quais, sua vida era construída.

Passou o dia andando pela própria casa, transtornada, até a chegada de seus queridos filhinhos, aos quais encaminhou diretamente para seus quartos onde deviam fazer sua lição até o jantar chegar.

Chegou ao final do dia, sentou-se à varanda e começou a pensar no sonho da noite anterior, que porcaria poderia causar isso? Já cheirava havia muito tempo e nunca viu nada que chegasse perto daquele horror, de vez em quando sofria, mas nunca era algo tão excessivo como fora anteriormente.

Enquanto seus pesadelos e receios tomavam conta da sua linha de pensamento, suas emoções extrapolaram, a sensação natural das mães, mesmo até das péssimas, era de proteger seus filhotes, e um medo incessante crescia exponencialmente enquanto tinha seus devaneios. As crianças, meu Deus, as crianças.

Correu para os quartos. Entrou de maneira sutil, ao modo mais silencioso que poderia fazer. Ao chegar deparou-se com seus filhos dormindo calmamente, e não entendera o porquê daquele sentimento no momento. Ao dar as costas ouviu um rangido como se fosse um arranhão na parede do quarto e um pequeno grito abafado.

Silêncio.

Lilian temia por dar meia volta e olhar o que havia acontecido, precisou se acalmar, estava tão assustada quanto uma ovelha ao avistar uma matilha de lobos.

Com calma, respirou fundo e olhou, Jeremy não estava mais lá.

III.

A lua escondida por trás das nuvens escuras e carregadas de água estendia seus feixes de luz através de suas falhas. Abaixo de suas luzes, Joe seguia rapidamente pela rua em direção a sua casa, a passos largos, a noite é sempre temida.

Recém saído da casa de seus pais, Joe tinha um pequeno serviço como zelador de uma escola de ensino médio, nunca gostara muito da ideia de uma faculdade, talvez isso se devesse ao seus atos de rebeldia constantes.

Não odiava seus pais, não. Mas os considerava como grandes impasses que impediam seu progresso, e com o tempo criara desgosto pelos mesmos. Talvez as más companhias o influenciassem, também não sabiam seus pais. Era um garoto sozinho.

Quando tinha 15 anos de idade. Numa de suas matanças de aula Joe se escondia na Biblioteca Municipal, que ficava a aproximadamente a três quadras do seu colégio. Ficava vagando entre as sessões quando encontrou um livro diferente. Chamava a sua atenção, odiava estudar, mas pela primeira vez sentia realmente um interesse. Não tenho nada pra fazer, não custa olhar, pensou.

Era um livro branco, encardido pelo tempo. Parecia nunca ter sido pego por ninguém. Tinha dois totens egípcios na capa, alguns hieróglifos na parte inferior e as asas de Ísis no topo. No meio sua nomenclatura "LIBER Al vel LEGIS".

Vislumbrava cada página fascinado, as narrativas de Aleister Crowley sobre sua iniciação e descoberta dos Deuses e do Oculto o maravilhavam! Os versículos 42 e 43 do Livro da Lei se tornaram a base de sua vida a partir de então, até por que, os identificara como se houvessem sido desde sempre: "42- Deixai aquele estado de multiplicidade limitado e repugnante. Então com teu todo; tu não tens direito senão fazer a tua vontade. 43- Faze isso, e nenhum outro deverá dizer não." Aquilo, se antes era camuflado, agora era transparente.

Aprofundava-se cada vez mais nos estudos do Oculto, passando realmente muito tempo envolvido na tarefa, começara a adotar as simbologias, os pentagramas e afins ao seu cotidiano, para ele, adquiriria poder com isso.

Começou a passar mais tempo na biblioteca que na própria escola, em menos de uma semana, já havia lido o grande livro "Necronomicon", um guia básico e essencial para necromantes, invocadores e ocultistas em geral. Este, era um livro velho, surrado, com uma capa de couro cheia de costuras com uma pequena grafia do título, infelizmente não havia como obter a versão original, embora essa já fosse bem antiga.

Demorou até alcançar resultados, precisou de muito tempo para praticar e a atividade exigia perfeição, um risco torto no desenho, uma vela, um ornamento mal posicionado, um pequeno erro na passagem e nada daria certo. Partiu das tentativas de fazer pequenas invocações, como demônios inferiores, espíritos zombeteiros entre outros, que mais poderiam causar incômodo a qualquer outro alguém que agregar poder ou conhecimento a ele mesmo.

Continuou então praticando com aberrações maiores, demônios que se assemelhavam muito em aparência com os animais presentes na Terra. Tal como alguns insetos-demônio que tinham um tamanho extremamente gigantesco comparado as criaturas "originais", e sempre foram marcados por um grande número de olhos ou pernas. Além de alguns tentáculos e um exoesqueleto que cobria o seu corpo apenas sobre seus membros móveis, dentre os espaços do esqueleto exposto sempre era possível observar humanos em tormenta, não sabia ele se aquilo era mais uma característica das criaturas para causar terror, ou se eram aspirantes ao ocultismo que não souberam lidar com forças superiores.

Prosseguiu com seus estudos e obteve notória prosperidade, poderia não entender as matérias escolares, mas no que realmente lhe importava, era um prodígio. Adentrara a Ordem dos Nove Ângulos (uma importante organização satanista britânica espalhada pelo globo) ainda muito jovem, com apenas 17 anos, sendo o membro mais jovem a se tornar parte do grupo.

Com seu temperamento agressivo se mantendo constante, sua paixão pelo Thelema só causou mais conflitos e resultou em um abismo entre ele e seus pais. Mas não importava, para Joe agora era como para Crowley: "Fazei o que tu queres, há de ser o todo da Lei.".

A Ordem se responsabilizou por sustentá-lo quando o mesmo deixava a própria casa, as reuniões aconteciam em um grande templo localizado na parte externa da cidade, próxima as florestas, e era para lá que fugia quando mais precisava. Seus irmãos entendiam seus problemas e a sua idade e o acolhiam, mas agora estava se tornando mais importante. Precisava mostrar serviço.

A organização solicitava alguns pequenos serviços de praxe e documentação, até alguns relativamente mais importantes como sacrifício de pequenos animais em agrado aos demônios inferiores que agora conhecia como Familiares, os quais ajudavam na prosperidade da Ordem.

O que ele não entendia, é por que sempre lhe era disponibilizado tanto material e informação para estudo, para um membro tão novo, tão baixo. Foi quando descobriu um dos maiores fracassos de Crowley e que viria a se tornar seu maior objetivo.

Joe aprendera tudo sobre um Rei do Inferno chamado Belial, o qual era temido por todos e comandante de 80 legiões de demônios, registros da Ordem datam que Belial é ancestral a Lúcifer, sendo o primeiro "Deus" do Inferno, se fazendo presente inclusive no livro de Gênesis dos Cristãos.

Interessou-se cada vez mais no assunto, tanto que acabara chamando a atenção de um dos Conselheiros de Ritualística da ordem, Anthony Lovecraft. Este, foi um dos responsáveis pela dispersão do Satanismo no mundo, sendo instrutor de grandes mestres da bruxaria e artes ocultas como da própria Helena Petrovna Blavatsky, mais conhecida como Madame Blavatsky, que mais tarde seria conhecida por seus feitos e bruxarias em toda a Rússia.

Anthony observava em Joe um grande Dom para rituais, e o incentivou nos estudos para trazer o Rei Demônio ao mundo terreno, embora fosse uma tarefa árdua, afinal, eram necessários grandes sacrifícios humanos e espirituais por parte de seus invocadores.

Belial seria a tentativa mestra de consagrar a Ordem entre os ocultistas do mundo e Joe era a grande estrela.

IV.

Sentou-se ao sofá da sala, Lilian não tinha ideia do que fazer. Só conseguiu pensar em que deveria levar Sofia para algum lugar seguro, a acordou as pressas e a encaminhou para a casa de uma amiga, para passar o final de semana, a mãe precisava de um tempo, dizia, para se explicar a garotinha, que deu de ombros, adorava poder brincar com suas amigas. Será que deveria chamar a polícia? Era capaz de não a entenderem, além do mais, sua casa estava um lixo, ela estava desarrumada e, não fazia muito tempo, havia usado drogas. Como minha situação é deplorável, meu Deus, pensou ela. Quando por fim acabou dormindo sentada ao lado direito do sofá da sala estar. Entrou em um sono profundo, que se soubesse que o teria, desejaria nunca mais dormir.

Seus sonhos não passavam de flashes durante seus momentos presa e violentada naquela prisão com aquela criatura absurdamente grotesca lhe tocando e torturando, alcançando o máximo de prazer ao mesmo tempo que degustava da sua carne, viva.

Lembrava também daquele garoto atirado ao canto da cela, seu corpo parecia sofrer a ação da gravidade mais intensamente que qualquer outra pessoa, era como se ele fosse constantemente pressionado contra o chão.

A última coisa que se lembrava era da então abominação aparecendo e fitando-a com as duas cabeças. E dizendo "O tempo está correndo."

Acordou extremamente assustada, além de tudo, sentia-se exausta, não sabia como, mas estava pior que antes de ir dormir. Aos poucos seus olhos tremiam e se abriam, aos primeiros sinais de plena consciência começara a tossir muito, balançou muito o corpo, e sentiu um peso sobre o seu. Moveu-se com cuidado e então percebeu que era seu filho. Que alegria, meu filho de volta! Poucos milésimos e estaria posta às lágrimas, mas raciocinou um pouco. Como? Era só isso que se perguntava, estava feliz, muito feliz, mas como?

Se fosse mesmo a criatura que tivesse o pegado, ela o devolveria assim sem mais nem menos? Não fizera nada.

-Jeremy? Jeremy? Acorda meu amor. - Disse ela com a voz trêmula enquanto balançava o corpo do filho, ele não reagia. Então voltara a realidade, e começou a sentir muitas náuseas, um cheiro extremamente forte cobria o lugar. Virou o corpo do filho para olhar em seus olhos. Não havia olhos, e sua barriga estava aberta, com suas entranhas a mostra.

Lilian vomitou no chão, vomitou e vomitou. Que doentio, por o cadáver do seu pequeno Jeremy para dormir ao seu lado? Quem sabe há quanto tempo ele foi posto ali? Teria dormido ele a noite toda com ela? Sentia-se acabada, as rachaduras do seu coração foram totalmente quebradas e abertas, tornaram-se em abismos, uma parte de sua existência foi morta.

Pegou o pequeno cadáver e o pôs de volta ao sofá, para que repousasse antes de ligar para a polícia ou quem quer fosse chamar.

Foi ao banheiro, sentia-se tão imunda, tantas lembranças, tantas dúvidas, estava completamente fragmentada. Precisava lavar o rosto, deixar talvez escorrer algumas lágrimas para aliviar toda essa dor que nesse momento a flagelava impiedosamente.

Ao chegar no banheiro olhou o fundo dos seus próprios olhos. Quando a porta atrás de si fechou-se em uma batida brusca e uma força a segurou paralisada, sufocada de frente ao espelho. Seu reflexo abriu um sorriso malévolo, segurava as mãos contra o próprio pescoço e então as esfregava na barriga, provavelmente uma forma de debochar de Jeremy. Então a entidade a libertou e uma inscrição surgiu na porta: "Vindico minhas animus. Sacrificum". Escrito com sangue, sangue do seu pequeno Jeremy, não havia como provar, não havia como saber que aquilo realmente acontecia, mas realmente, era dele. Ela sabia disso.

Limpou-se por inteira, e antes de qualquer coisa queria tentar entender um pouco mais sobre o que aconteceu, percebera que seu sonho poderia mesmo ser real. Procurou tradutores no Google, e deduziu que a linguagem era latim, significava "Reivindico minhas almas. Sacrifique-as". Seria Jeremy então, uma penitência paga pela desobediência?

Enquanto assimilava os acontecimentos, havia muita fumaça passando entre os corredores e ofuscando a visão pela casa, que estava totalmente fechada devido a chuva. Sentira cheiro de queimado, sua sala de estar estava em chamas, o pequeno Jeremy queimava como madeira podre e se esfarelava em cinzas pelo chão, desesperada em poupar o corpo do filho e conseguir ao menos que o velassem, desesperadamente buscou e jogou água contras as chamas. Todas as suas tentativas falharam, não era um fogo comum, era um fogo que ardia e se apagava conforme sua "vítima" desaparecia.

Caiu de joelhos, o corpo estava em cinzas.

V.

Lilian saiu de casa aos prantos, não sabia pra onde ir, a chuva tomava um ar tempestuoso, mas tudo que ela queria fazer era correr, seus cabelos longos e vermelhos esvoaçavam na perdição das águas do céu com as suas. E ela corria sem direção.

Correu sem parar e desesperadamente, talvez pudesse se atirar diante de algum carro, pensava, mas não conseguia decidir o que realmente tinha vontade de fazer. Sempre procurando pela menor aglomeração de pessoas. Chegou a ser perseguida por alguns cães de rua mas os despistou.

Um homem corria na direção oposta à sua, ele se parecia muito com o garoto dos sonhos. Aumentou o ritmo e foi ao seu encontro. Ofegante ela passou por ele e o puxou pelo braço.

-Ei! Eu conheço você?

-Talvez, disse disfarçando um sorriso sarcástico e seguiu andando.

-Espera! Eu tenho algumas perguntas… - Engoliu o choro.

-Você lembra, não lembra?

-O sonho?

-É, “sonho”. - Riu-se enquanto falava.

-Então aconteceu mesmo? Ele levou meu filho, ele, ele…

Antes que pudesse continuar o rapaz a interrompera, pegou-a pelo braço e arrastou a mulher pelo caminho com ela.

-Eu te conto tudo depois, agora nós precisamos partir. O tempo é escasso.

-Para quê? - Deu-lhe um tapa no braço e se soltou das mãos do garoto. E continuou, meu filho acabou de morrer, e eu acho que você tem alguma coisa a ver com isso. Começou a chorar muito enquanto esbravejava, sempre que essa memória tão recente retornava, a dor abria cada vez mais buracos na sua alma, e esses se preenchiam com ódio.

-Caminha, vadia teimosa. - Esbravejou

Lilian pesarosa, assentiu.

Seguiram até uma casa antiga, envelhecida com uma pintura clássica de telhado marrom e paredes vermelhas que já descascavam.

-A propósito meu nome é Lilian.

O rapaz balançou a cabeça, me chamo Joe.

Ao se aproximarem, um homem alto, caucasiano e careca de aproximadamente 1,85m de altura surgiu na entrada. Suas feições eram geométricas e pouco expressivas. E também vestia algo semelhante a uma batina de um padre. Um olho de Hórus marcava presença no meio da sua testa.

-Anthony! - gritou Joe.

-Meu rapaz, bem em tempo. - falou o homem ao esboçar um meio sorriso no rosto. - E essa, quem é?

-Essa é Lilian, ela também fará parte.

-Muito bem, vamos lá. - disse Anthony abrindo a porta educadamente.

-Parte do quê? - Indagou ela, surpresa.

-Entre e descobrirá. - Afirmaram em uníssono.

VI.

Se Lilian não estivesse tão assustada quanto curiosa em estar ali, perguntaria se a casa não havia sido cenário de um filme de horror, ou um antigo manicômio. Apesar de sua decoração ser aparentemente chique, era dotada de visual gótico e simbolismos espalhados pelas mesas, paredes e onde mais pudessem ser postos.

Quando Lilian deu seus primeiros passos mais a frente, Joe a empurrou sobre Anthony, que a agarrou e colocou um saco sobre sua cabeça. Rapidamente foi amordaçada, amarrada e despida.

Lilian sufocava em horror, seu maior desejo era que logo lhe cortassem o pescoço, não aguentava mais sofrer tanto, sua vida havia sido um sucesso quando nova, bonita, atraente, os garotos e algumas garotas a desejavam, vinha de uma boa família. E mesmo assim, parecia fadada à desgraça, desde o fim do seu curto casamento de 2 anos, sua vida vinha sendo um declínio constante. Mas que em um curto período de dias, a fez se sentir pior que um Judeu aos olhos de um coronel nazista.

-Nós temos uma surpresa para você. - Disse Joe, Anthony já foi providenciar.

Nesse momento, o homem surgiu com um corpo mumificado sobre uma maca, e o empurrou para a sala, Joe a pôs sentada em um velho sofá e ajudou seu mentor a desenrolar o cadáver.

Era um corpo que estava em podridão pura. Haviam apenas resquícios de pele e carne sobre o que se revelava ser um esqueleto há algum tempo já enterrado.

Joe a puxou pelo braço, retirou uma pequena faca dos bolsos do seu casaco e fez um corte no seio da moça. Que gritou extremamente alto, ou ao menos tentou, a mordaça lhe impedia, mesmo assim, foi um grito agonizante que liberou mais do que a dor desse corte, e sim a maior parte de suas dores que lhe haviam sido impostas até então.

Foram feitos diversos cortes com muita precisão pelo restante das proximidades de suas partes íntimas. Seu sangue foi utilizado para ambos se banharem e fazerem um gigantesco pentagrama no chão, a mulher estava extremamente pálida, havia perdido muito sangue.

Os dois a carregaram até o centro do pentagrama, onde a puseram de pernas abertas.

-Para fazermos o que será feito, queria que você entendesse algumas coisas.

Lilian olhou para os dois desesperada e concordava, na esperança de ganhar tempo, que alguém a salvasse. Chorava, chorava muito...

Joe prosseguiu - Durante nossos estudos, descobrimos que Aleister Crowley, pai da Thelema e um dos membros fundadores da nossa organização, tentou trazer o corpo espiritual do demônio Belial ao plano físico, mas não funcionou. Ele precisava de uma alta carga de magia sexual, emocional e poderio espiritual. Infelizmente ele não pode contar com ajuda para consegui-las, era um homem extremamente famoso, não havia como fazer algo assim, como pegar uma vagabunda e infringir dor como foi feito em você, sem ele ser pego. Nós temos observado você, Lilian. A Ordem sempre está observando a todos.

VII.

Joe saiu do quarto por alguns instantes e voltou vestido com uma roupa semelhante a Anthony, totalmente preta, logo Lilian perceberia que ambos estavam nus abaixo das vestimentas.

Ambos deram-se as mãos e entoaram cânticos em Latim pela glorificação de Belial, pela sua chegada a Terra e domínio sobre o mundo terreno. Eles pareciam estar em transe. Lilian se debatia muito no chão, mas já estava ficando sem forças. Em seu desespero, ela não via a hora de morrer, essa era a verdade. Era uma questão de tempo, e esse, que passasse logo.

Eles forçaram seus membros para dentro da mulher, esparramada, que abafava seus gritos a cada movimento de quadril que eles fizessem, ela sofria tanto. Por que não morria logo? Por quê? Ela sentia os seus pênis como sendo dois grandes vermes gordos, esbranquiçados e famintos que sugavam sua energia para sobreviver, que devoravam mais fundo que em sua vagina, na sua alma. Seguravam seu cabelo com tamanha brutalidade que por diversas vezes chegaram a arrancar enormes quantias, deixando-a careca em algumas regiões da cabeça. Ambos ainda entoavam algumas frases, sempre em sincronia impressionante, aterrorizante.

Eles estavam quase chegando ao orgasmo quando Joe começou a ficar completamente insano, e a cada segundo mais violento. Era possível ficar ainda mais? De fato, ele provou que era.

Joe começou a se revirar e debater, levantou-se e começou a gritar desesperadamente por ajuda, Anthony abriu um sorriso imenso, doentio. Estava funcionando. Belial tomou o controle do corpo de Joe que no momento, debruçava-se em dor na sua barriga de onde escorria muito sangue, assim como da barriga de Lilian.

Suas peles começaram a rasgar. Uma sensação de dor como se sofressem do açoite de milhares de legiões infernais rompia as suas almas. E uma voz gutural eclodiu no ambiente. EU NÃO RECEBI MINHA CELEBRAÇÃO, INFIÉIS.

Foram jogados no chão enquanto o homem no centro celebrava tudo de braços abertos, o rei estava vindo.

Seus corpos começaram a perder pele e pelos, tornaram-se pálidos igual a criatura dos sonhos, era ele com quem ela tanto sonhava, isso a deixava completamente horrorizada.

A sensação da sua vida se esvaindo, do seu crânio e corpo se quebrarem e se transformarem era absurdamente dolorosa. Em pouco tempo, os dois tomaram a forma dantesca do demônio, Anthony empurrou Joe para perto do corpo de Lilian caído no chão. Eles se juntaram, dando então vida, ao grande Rei Demônio.

VIII.

Ao abrir os olhos novamente, Lilian pensou, finalmente estou morta, acabou, tudo acabou.

Mas então, se estou morta, onde estou?

Foi quando viu Joe, da mesma maneira que lembrava ter visto nos seus sonhos, desacordado, inocente.

-Do que morri?

Lilian não lembrava de nada. Mas os barulhos de Joe e o som de suas correntes a tiravam do sério, estava com muita dor de cabeça.

-Quieto! - Gritou ela, o garoto não entendeu muito bem, estava com dificuldades de recobrar a consciência.

Ela olhava ao redor e tudo que ela ouvia era dor, tão íntima dor que quase poderia senti-la no seu ventre, por que lhe era tão familiar?

Joe mantinha um olhar perdido aos seus arredores, mas antes que pudesse abrir a boca e iniciar um diálogo, Lilian impaciente respondeu.

-Você está numa masmorra, retardado!

O garoto parecia insistir em uma tentativa de conversa.

-Você está acabada, o que houve? Quem é você? - claramente, tinha medo de como ela reagiria ao ser tratada daquela forma, mas ele não conseguiu se conter.

-Aquela que como você, agora está sentenciada. - Mais uma vez, não entendia como sabia, apenas, sabia.

Após o brado, ouviram-se passos no corredor e a porta se abriu, Belial adentrou a sala. Lilian não entendia, mas sabia que ela deveria reverenciá-lo. Abaixou a cabeça.

O monstro gritou.

-Bem em tempo, de pé, as duas putas!

Não conseguia tirar os olhos de Joe, ele olhava para o demônio com tanto pavor e fascinação, que parecia que ao mesmo que não acreditasse e temesse o que havia a sua frente, era tudo que sempre quis ver. Que sempre quis presenciar em sua fútil e curta vida mortal.

-Pare de me olhar, verme! Gritou a plenos pulmões, ou o que quer que constituísse aquela criatura. E prosseguiu - Vocês, vocês dois são meus agora e a menos que queiram adiantar seu tormento, eu tenho uma missão a lhes dar!

-Sim, meu Senhor. - Respondeu Lilian.

O demônio prosseguiu.

-Vejam, temos mais de 7 bilhões de vermes humanos como vocês andando por aí rumo a lugar nenhum. Estarão libertos por ora, de suas penitências, se voltarem até lá, e servirem a mim como meus receptáculos e "evangelizadores". Vocês não responderam pelo meu chamado enquanto vivos, e ao que respondeu, não o fez como deveria. Abriram minha passagem para o mundo físico, e agora serão minhas marionetes, eu tomei suas vidas, e também suas almas, eu estou no comando.

Anthony entrara por trás montado sob um grande cavalo branco, ele estava diferente, usava uma coroa e portava um arco e flecha em mãos. Dois outros cavalos andavam com ele, um vermelho, que em sua boca carregava uma grande espada, e o outro preto que trazia consigo uma balança. Todos portavam olhos fulminantes e carregados de ódio.

-Agora que adentrei aquele mundo, preciso completar meus objetivos, preciso tomá-lo. E vocês me ajudarão nisso, vocês serão meus cavaleiros. - E as cabeças sorriram.

- Você, Joe, levará consigo ao mundo a Guerra, incentivará amigo contra amigo, nação contra nação e fará dos rios e mares puro sangue. - Disse a parte masculina.

- E você, Lilian, trará ao mundo a Fome, causará discórdia entre os povos, e impossibilitará o provimento de alimentos, se não perecerem na Guerra, que seja na Fome. - Disse a outra cabeça.

Anthony se posicionou e disse com um tom de arrogância.

-Eu levarei a Peste a todos aqueles que não se subjugarem perante o mestre, morrerão. Hão de morrer das piores doenças! - Esbravejou.

Nesse momento um quarto cavalo surgiu, era de cor amarelo-esverdeado, a cor do cadáver que se decompõe. Belial subiu sobre ele. Cortou o ar com as mãos para dar espaço a uma fenda dimensional e avisou.

-E eu, sou a morte, irei liderar-vos e trarei a morte ao mundo, para que sofram no fogo do meu inferno!

E as correntes dos prisioneiros se desfizeram, montaram seus cavalos, e seguiram o rei Demônio. E atrás deles, toda as suas legiões demoníacas, eram tantos que não era possível ver toda sua extensão a olho nu.

-E quando conquistarmos a Terra, o que faremos mestre? - Perguntou Joe.

-Derrubaremos o proprietário original deste inferno, Guerra. Deus.

E o mundo fez-se em pranto, caos, fome e chamas.

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Apreciadores (4)
Comentários (3)
Postado 01/12/16 00:11

Eu tive que colocar muito na cabeça esse texto pra ter coragem de avaliar, mas, quando comecei, nem parecia tão grande. Você fez um ótimo trabalho! :D

Postado 01/12/16 12:44

Muito obrigado, de coração Julih! <3

Postado 06/12/16 03:28

Sr. Lucas, que trabalho magnífico temos aqui! A quantidade e qualidade das informações agregadas ao texto tornam a trama ainda mais robusta e agregam valor à obra, assim como conhecimento aos leitores. O esforço que o senhor fez para criar algo desta magnitude é notável e admirável!

Devo concordar com a senhorita Julih: embora tenha uma quantia considerável de palavras, não me pareceu tão extensa assim, embora eu admita que ficaria ainda melhor se tivesse sido dividida em capítulos ao invés de uma one shot pelo simples fator de ácumulo de tensão e também porque uma história com uma trama tão ri a merecia ser ainda mais explorada, na minha modesta opinião. Fazia um bom tempo que não lia algo desse porte neste site; lembrou-me o mesmo clima do arco "Exército da Danação" da HQ HellBlazer da Vertigo, mas com um tom mais épico e cataclísmico.

E este final? Satanás, o modo como o senhor reuniu as informações e eventos para tecer o àpice hediondo me foi deveras aprazível! Eu o congratulo sinceramente por esta criação tão grotesca quanto muito bem planejada e executada! De verdade, meus parabéns por tamanha criatividade e empenho!

Atenciosamente,

Um ser vitimado e destinado ao Inferno, Diablair.

Postado 15/08/17 20:41

QUE TEXTO INCRÍVEL!!!!!

Simplesmente amei cada linha, cada palavra!!!

O modo como cada parte foi se juntando, para ter esse final magnífico, foi muito fascinante!!!

Uma verdadeira obra prima Sr. Lucas!!

Um abraço,

Meiling!

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