O presente
Jyuuken
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 03/12/17 22:23
Editado: 04/12/17 22:34
Avaliação: 9.84
Tempo de Leitura: 8min a 11min
Apreciadores: 7
Comentários: 8
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Palavras: 1427
[Texto Divulgado] "Já que é pra mudar" Estaria fadado a viver em desalma Era o que eu pensava Um fantasma almadiçoado a vagar em multidões Que meu rosto para os outros não teria sequer feições
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Tirando a poeira da minha conta aqui, voltando a postar coisas...foi difícil chegar na idéia pra esse conto! Acho que me falta prática em terror... e realmente me faltou criatividade pra um nome mais interessante...

Capítulo Único O presente

Gabriel se remexia na cama, tomado pela ansiedade e pela curiosidade. Sua mãe lhe deixara bem claro: “vá dormir menino, o papai Noel não gosta de ser incomodado! Terá seu presente pela manhã!” Mas Gabriel já era velho demais, no auge de seus dez anos, para ainda acreditar nessas coisas de criança. Bem sabia ele que era seu pai quem deixava os presentes embaixo da árvore.

Mas tudo bem, ele manteria aquele teatrinho. Porém, sua ansiedade explodia com a possibilidade de ganhar um VR para incrementar o seu Playstation. Mal se aguentava de ansiedade para experimentá-lo.

Escutou passos percorrendo o corredor. Acendeu a tela do seu celular no criado mudo, e teve a confirmação que queria. Meia-noite, a hora em que seu pai colocaria o presente na árvore que adornava a sala. Gabriel esperaria mais uns vinte minutos, e quando tivesse certeza que seus pais estivessem dormindo, escorreria até lá embaixo, e teria seu presente.

Teria uma noite toda para testá-lo e então o devolveria ao lugar, e é claro, fingiria surpresa pela manhã. Um plano genial feito por uma mente genial. Foi contando os segundos até acreditar que seria seguro sair do quarto, e então pôs seu plano em prática.

A casa estava no completo silêncio, entrecortado apenas pelos causais roncos de seu pai. Gabriel avançou a passos leves pelo corredor, depois desceu devagar a escada, tão leve quanto uma pluma.

E lá estava a árvore. As luzes piscavam, projetando sombras por todo o cômodo. Não era uma árvore muito grande, mas tinha uma estrela bem dourada na ponta. Aos pés do enfeite, um grande embrulho, do tamanho que o menino esperava.

Gabriel estava animado demais para reparar que o grande relógio preso a parede estava girando ao contrário. Apanhou seu presente e com a mesma leveza e agilidade com que viera, voltou.

Trancou-se no seu quarto, acendeu o abajur e foi logo ligando a tv. Sem fazer muito barulho, abriu o embrulho, dando de cara com uma caixa preta e sem adornos, de um material duro e frio. Um pequeno pedaço de papel amaçado estava pregado na tampa da caixa, com os dizeres “para crianças desobedientes, carvão” em uma caligrafia esticada e apressada.

“Oh porra!”, pensou Gabriel, “fui pego...”

Abriu a caixa e nada viu em seu interior. O gato da vizinha começou a miar lamuriosamente. Tateou no interior escuro da caixa e estranhamente não conseguiu sentir o fundo. Sentiu um frio invadir seu quarto.

Passos pesados ecoaram pelo corredor. Alucinado, Gabriel apagou todas as luzes e se deitou, deixando a caixa aberta no chão e fingindo que estava dormindo. Os passos seguiram, começando a descer pela escada. O desespero tomou conta do menino, estava definitivamente encrencado.

Acendeu a lanterna de seu celular para procurar a caixa. Os passos continuavam a descer, mas faziam ruídos demais, como se a pessoa estivesse descendo os degraus pulando. Fez a lanterna cruzar o quarto e a luz bateu contra o espelho de seu guarda roupa.

Seu reflexo estava sorrindo.

Gabriel a princípio não notou, mas quando olhou mais atento, tomou um susto. Seus olhos estavam escuros, sua boca esticada num sorriso macabro. A visão durou alguns segundos e então sumiu.

Sem entender, Gabriel pegou a caixa e a tampou. Começou a botar o embrulho de volta, quando um baque veio da sala o fazendo pular de susto. Parecia que algo pesado havia batido em uma parede.

O som se repetiu, e de novo, e de novo. Uma pontada de medo percorreu sua mente. Mas então entendeu a situação. Seus pais estavam lhe pregando uma peça.

Saiu no corredor, silencioso e cauteloso, e viu que a porta do quarto de seus pais estava aberta. O som se repetiu. Gabriel avançou alguns passos e sentiu algo gelado sob seus pés. Um cheiro estranho estava impregnando o ar, um cheiro podre e nauseante.

Com a fraca luz do celular, o menino iluminou o chão, revelando uma água preta que se estendia por todo o corredor, como se algo grande e gosmento houvesse se arrastado por ali.

Assustado, pensou em voltar para seu quarto. Olhou para trás, e a pouca iluminação que vinha do quarto de seus pais revelou uma figura, parada, em frente a seu quarto. A sombra não se mexia nem dizia uma palavra, parecia apenas observá-lo.

Sentiu os pelos de seu corpo eriçando. O baque lá embaixo continuava. Sem saber o que fazer, o menino apenas continuou indo em direção a escada. O cheiro foi ficando ainda mais forte. Desceu alguns degraus e viu o cômodo todo iluminado de vermelho, com as luzes piscando de vez em quando.

Uma figura alta e esguia, usando uma camisola esfarrapada, se contorcia e se dobrava, batendo a cabeça contra a parede de tempos em tempos. Gabriel viu que era sua mãe. Parecia em transe, gemendo de uma forma doentia, entre espasmos estranho e bizarros.

Assustado, Gabriel pensou em voltar, mas a sombra agora estava mais perto. Seu coração acelerou. Desceu mais um degrau. Sua mãe bateu a cabeça ainda mais forte e começou a gritar.

— M-mãe, o que você tá fazendo? Isso não tem graça...

Ouviu passos atrás de si. A sombra se aproximava. Gabriel sentiu um medo forte, acendeu a lanterna mais uma vez, jogando a luz contra a sombra. Com medo, olhou primeiro para os pés, descalços e de unhas grandes. As pernas, grossas e peludas, uma cueca encardida, a barriga grande de tanta cerveja, o peito cabeludo. Era seu pai. A correntinha de ouro que ele nunca tirava, para dar sorte, e então... então... uma espiral de carne retorcida que misturava todo o seu rosto em uma confusão horrenda. Tudo estava esticado, se torcendo até formar uma espiral cujo centro era onde costumava ser o nariz.

Gritou e saltou os degraus restantes da escada. Viu sua mãe se contorcer em sua direção e gritou ainda mais. Se encolheu em um canto da sala, fechou os olhos o mais forte que conseguiu. Inconscientemente, se agarrou o mais forte que conseguiu a caixa que ainda carregava.

Com os olhos fechados como estava, sentiu a caixa vibrar com violência. Um braço monstruoso saiu de seu interior. Gabriel sentiu a mão apertando sua cabeça, sentiu unhas afiadas furando sua pele, sentiu sua cabeça sendo puxada com brutalidade para a pequena caixa.

Gabriel gritava, enquanto a mão o puxava com uma força terrível. Sentiu sua cabeça sendo esmagada pouco a pouco, a pele sendo repuxada, enquanto sufocava pelo aperto de chumbo daquela mão doentia. Nem mesmo seu grito conseguia escapar. Sangue jorrava quente, enquanto o impossível parecia acontecer, e a pequena caixa engolia o menino.

Quando Noel entrou na casa, se deparou com a cena grotesca. O chão cheio de lama, um homem gordo sem rosto, uma mulher com a testa rachada se contorcendo e um menino com a cabeça enfiada numa caixa bem pequena.

— Que diabos está fazendo, Krampus? Perdeu o pouco juízo de vez?

Toda a loucura que estava acontecendo pausou, e o silêncio reinou. Noel acendeu as luzes da casa, com um olhar indignado, procurando seu companheiro.

— Vamos, apareça seu demônio infeliz!

Noel retirou a cabeça do menino de dentro da caixa. Estava desmaiado. Krampus apareceu, um demônio alto, usando vestes de papai Noel esfarrapadas, com uma cara de bode e chifres enormes. Sua expressão era um misto de aborrecimento e divertimento.

— O menino desobedeceu aos pais e veio bisbilhotar o presente. – respondeu o demônio, com convicção

— E o que os pais fizeram? A quem esses dois desobedeceram? Você tem que dar um maldito susto nos endiabrados, seu retardado, não enfiar a cabeça deles em uma caixa!

— O menino está assustado...

— O menino está morrendo! E isso está uma tremenda bagunça!

O demônio pareceu diminuir de tamanho, visivelmente aborrecido com o sermão. Noel chamou por seus ajudantes, os pequenos duendes que vieram prontamente.

— Limpem essa bagunça, e tragam essas pessoas ao estado normal delas. Apaguem as memórias... deixem apenas uma sugestão de pesadelo no menino. — enquanto os duendes partiam para cumprir suas ordens, Noel se voltou a Krampus — Enquanto a você, infeliz, vamos indo. E não me faça uma loucura dessas de novo, se a cada criança acordada que encontrarmos você montar esse show de horrores, não vamos terminar esse natal a tempo! Um susto, e nada mais que isso!

Noel saiu a passos apressados e irritados, sendo seguido por Krampus. O demônio deu uma última olhada para a cena, orgulhoso de sua criatividade, e então, com a voz carregada de deboche, disse:

— Velho, se eu fosse você ficaria de olho nas renas, elas andam te olhando de um jeito estranho...

❖❖❖
Notas de Rodapé

O que achou da coisa do rosto em espiral? Aquilo é uma referência ao mangá Uzumaki, do Junji Ito, se não conhece e curte o gênero horror, recomendadíssimo... é isso, até a próxima!

Apreciadores (7)
Comentários (8)
Postado 04/12/17 23:04

Essas renas... Hahaha

Postado 06/12/17 23:01

Vão dominar o mundo...

Postado 16/12/17 03:46

Ah, o lado sombrio do Natal... Quão grotesco e pavoroso o senhor exibiu-o para nós com esta obra! Se foi sua primeira no gênero, devo dizer que o senhor começou muito bem! A atenção aos detalhes contribuíu bastante para a criação e manutenção da atmosfera sinistra e a brutalidade do "susto" que a entidade quis pregar também me foi congruente e inspiradora!

E como não gostar da referência a uma das mais hediondas e geniais obras de Terror já concebidas? Um verdadeiro simbolismo à espiral destrutiva e enlouquecedora que tragava a toda aquela miserável família...

Completando o show de horrores, uma ameaça velada ao bom velhinho (que faz a obra ter um quê de continuação que seria bem-vindo, devo ressaltar). Embora o final tenha suavizado bastante toda a malevolência do texto, acredito que foi feito um belo trabalho aqui, Sr Jyukken! A ideia de um presente maldito de uma entidade para uma criança cética me foi deveras interessanre!

Desejo-lhe boa ventura no Desafio!

Atenciosamente,

Um ser que confecciona caixas pretas para o Natal, Diablair.

Postado 16/12/17 22:58

Sim, o final dá aquela suavizada básica porque afinal de contas, é natal né... Obrigado pelos elogios, fico feliz em saber que me saí bem nessa empreitada, terror não é algo ao qual estou habituado a inventar ou escrever.

Acho que de tudo que escrevi ai, a caixa foi a coisa mais interessante que me ocorreu, embora tenha trabalhado pouco a idéia...

Boa sorte a ti também, afinal, o obscuro que se encontra naquele trono sangrento, que os antigos chamavam de Diablair, há de criar algo terrível e hediondo para este concurso.

Postado 22/12/17 10:13 Editado 22/12/17 10:14

Olá.

Olha, eu sei que o conto é Terror/Horror, mas eu gargalhei com o Noel dando um esporro no Krampus, hahaha. Achei cômica essa parte do texto.

Mas só essa parte também. Até então, eu estava com medo. Inclusive, quero dizer, antes de mais nada, que esse texto, na minha concepção, foi o que melhor se encaixou com o tema dos que eu li. Assim sendo, posso lhe afirmar que senti medo e senti o Natal em cada linha que li.

O terror é algo bem presente. Cenas como a caixa sem fim, a mensagem na caixa, o sorriso macabro no espelho, os pais transtornados e o Gabriel assustado, certamente, deixaram qualquer pessoa aterrorizada. Isso, porque, elas são cenas que assustam por si só e porque foram bem contadas. Inclusive, a ideia da caixa foi demais!

Pra finalizar, acho que é válido dizer, que a narrativa poderia ser um pouco melhor trabalhada. Algumas ideias ficaram meio que perdidas. Essa pequena correção e o texto fica perfeito.

Parabéns pela obra e muito obrigado por compartilhá-la conosco!

Postado 27/12/17 22:42

Obrigado pelo comentário!

Concordo com você, muitas idéias ficaram meio soltas, talvez uma olhada mais calma e uma reescrevida tornariam esse conto mais interessante! A tensão gasta muitas palavras para ser montada, e é algo difícil de se dizer se está funcionando, gostei de saber que tenha funcionado com você.

Agora, me lisonjeia imensamente ao dizer que meu conto misturou bem os temas terror e natal, passei varios dias tentando achar uma idéia que fizesse isso e quase desisti de escrever algo! Muito obrigado!

Postado 25/12/17 22:58

Cara, amei as referências a Uzumaki e a história do teu amigo! <3

Isso ficou bem massa e foi super criativo! Curti muito tua narrativa, bem envolvente e sedutora. Curti demais as descrições! Você é bom nisso, faz a pessoa se imaginar sem querer na situação! Enfim, ótimo conto!

Parabéns!

Postado 27/12/17 22:45

Referências são sempre algo divertido, eu ri pra caramba quando escrevi sobre as renas assassinas do conto do Alien.

E já que eu precisava de algo bizarro, por que não uma espiral doentia de Uzumaki? Muito obrigado pelo comentário!

Postado 29/12/17 15:44

Muito bom, adorei.

Parabéns ❤

Postado 29/12/17 21:53

Obrigado!

Postado 08/01/18 17:37

Antes de tudo, gostaria de agradecer pela sua participação no Desafio. Fiquei maravilhada quando li essa obra pela primeira vez e da segunda me agradei ainda mais.

De todos os textos participantes esse foi o que mais ganhou pontos em compatibilidade. Sério, parabéns!

Eu realmente fui a loucura com essa descrição impecável e detalhada. Todo esse horror e essa referência perfeita. Me faltam palavras para descrever o que senti cada vez que li a obra de arte que Krampus (e você, claro) criou. Um verdadeiro show de horrores natalino. Terror puro e envolvente.

Quando o Noel chegou para estragar a festa, até fiquei um pouco triste. Claro que logo comecei a rir do jeito que o “bom velhinho” falou com seu companheiro de natal.

Renas são criaturinhas estranhas. Esse final foi maravilhoso e eu realmente acharia muito bom se uma continuação aparecesse, como mágica, para nos abrilhantar.

Parabéns!!

Postado 11/01/18 23:05

Não sei nem como agradecer tantos elogios! Obrigado mesmo! É mais que recompensador saber que meu texto se encaixou tanto assim com o tema proposto, quebrei muito a cabeça tentando encontrar o tom que julguei ser o certo...

Eu gostei muito de ecrever aquele final, acho que foi a parte que mais gostei.

Agradeço muito pelo comentário, por dedicar tantas linhas de seu tempo. Quanto a continuação... quem sabe...

Postado 19/01/18 22:46 Editado 19/01/18 22:47

Caraléoooo, se eu acordasse de um "PESADELO" assim, eu ia ficar com trauma de ir dormir. Ferrou a mente do menino de qualquer forma! IOASJIJOWJEWIOJE

Sei que é de terror, mas tem muita comédia e eu achei seu conto espetacular! Parabéns, como sempre, por escrever algo tão FODA! <3

Postado 25/01/18 11:39

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk talvez o moleque tenha um trauma eterno com caixas, com a cor preta e com o natal... Obrigado pelo comentário!

Postado 21/01/18 23:53

GABRIEL É MEU PERSONAGEM BEBÊ, COMO ASSIM VOCÊ COLOCA ELE NESSE TERROR TODO? Hahaha, brincadeiras a parte, eu realmente me deliciei nesse conto. Está mito bem escrito, impactante e detalhista; não há como não imaginar as cenas descritas.

Acho que nunca mais vou ver uma Rena como antigamente. Foi uma leitura tão gostosa e interessante, mesclando vários temas e gêneros ao mesmo tempo, mas sem perder a essência do terror, do medo e do suspensa. Brilhante!

Ótima obra, parabéns!

Postado 25/01/18 11:41

Obrigado pelo comentário! Eduque bem seu Gabriel pra que ele não tenha a infelicidade de receber uma visita do Krampus, o Noel pode não estar por perto da próxima vez, kkkkkkkkkkkkkkkk