c a r g o
6 de Janeiro
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 08/05/19 23:19
Editado: 08/05/19 23:21
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 2min a 3min
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Palavras: 438
[Texto Divulgado] "Frágil ponto azul" No coração do espaço um objeto de origem desconhecida é encontrado. De onde ele terá vindo? Quem o construiu?
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

este estava guardado faz tempo. eu só não tinha forças pra postar. espero que gostem e apreciem minha volta.

Capítulo Único c a r g o

me peguei observando

os olhos mortos deste corpo que

me encara de volta, com pena...

sua face é vermelha, seus olhos são um poço, sua boca tremula e o coração em seu peito apodrece

a mais grandiosa perca de tempo:

respirar com pressa

pois nada nunca para, os segundos nunca param de rodar

num momento hospitaleiro, descanso meus olhos pensando que a semana nauseante se passou, e quando percebo, é domingo. 23h59. pisco os olhos. segunda-feira.

quero me enforcar nos ponteiros do relógio.

quero me dilacerar, e dilacerar esse corpo que me fita, que a propósito, é meu.

sim, e não há nenhuma surpresa, sou eu que encaro, pelo canto destes olhos,

este encargo que sou

enquanto no reflexo do espelho,

o encargo se lamenta, por sermos uma só

fiz de meu leito, uma maternidade de pesadelos

e dores e fomes e saudades

quis vomitar tudo que possuo em minha alma esfarelada

mas tudo que consegui foi chorar até o emudecer das palavras

quis ver minha pele retalhada em escarlate

imaginei-me sem um só fio de cabelo castanho-avermelhado

(sem mais apelidos carinhosos, tenho horror, a cada cacho)

desejei-me desfigurando com os punhos minha própria face

mas nem me destruir perpetuamente consigo,

o que me resta é perpetuar neste vazio com aroma industrializado de vida

me resta ansear pelos dias que já quero que acabem

pelos minutos que desejo que se que virem pó

pelos segundos que freneticamente abençoo por já terem voado

voltei a me incomodar

estando presa a este chão

os corredores barulhentos me vêem correr cada vez mais depressa,

os sinais de trânsito têm medo de me ver chegar

pois eu sou o mais catástrofico acidente

que não cessa de incendiar.

meus ossos poídos com unha de demônio,

demônio este que me atormenta em qualquer lugar

ele assassina minha alma em cada indesejado pesadelo medonho

quando estou dormindo, não consigo descansar,

e eu, continuo me encarando com pena de mim mesma

encarando este hospício que chamo de lar

encarando meu corpo cansado e meu rosto arrebentado de dor e saudade,

eu desejo ter um ombro para chorar.

mas não há ombro que mereça o peso dos meus dias

não há bom coração que mereça me ouvir lamentar

eu faço minhas pausas apenas para encharcar meus olhos no banheiro

e toda decisão certa que tomo, faz outra certamente, desmoronar.

e eu estava bem certa, sobre o que disse em outra desventura depressiva: a vida é um grande, eterno e último suspirar

o suspiro eterno. eternos 19 anos suspirando, estou roxa, já sem forças para fazer qualquer lado de meu pulmão trabalhar

alguém. por. favor. desligue. o. ar.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Não se preocupem, não estou depressiva, apenas postando textos atrasados. Este em particular é muito bom, terrivelmente bom e real demais.

Obrigada a quem prendeu a respiração até aqui.

Apreciadores (1)
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Postado 11/05/19 14:31

Eu terminei de ler chorando. É uma agonia palpável, um sentimento presente em todas as palavras, um pedido de socorro e aceitação em cada linha. Eu terminei chorando porque essa é a realidade de muitas pessoas, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos.Terminei chorando porque ainda há mentes fechadas que autodenominam como frescura. Terminei chorando porque me identifiquei quase que em totalidade.

A cada vez que você se olha no espelho, você vê menos você, é como saber que aquele reflexo é seu, mas não conseguir mas se ver como é. É se diminuir a cada olhada, achar os defeitos em cada coisa - por mais insignificante que seja. É se perder em si mesmo.

A depressão, como dizem, nem sempre é chorar. É sorrir com um vazio no olhar, é andar no modo automático. É não querer se levantar; ver em cada rotina um possível motivo de sua morte. É todo dia morrer, e ainda continuar vivo.

E ninguém nota isso. E ninguém percebe o limite que chegou seus pensamentos e angústia.

Essa última linha realmente foi genial. É como se realmente estivéssemos com falta de ar.

Eu amei a maneira que você abordou o tema, ainda mais que cada linha realmente transmitiu os sentimentos conturbados do eu-lírico. Realmente espero que você esteja bem, Ana.

Parabéns pela obra ♡

Postado 16/05/19 08:17

Obrigada por todo amor. Eu também espero que você bem, sei como é doloroso saber exatamente do que se fala. Mas toda essa angústia um dia passa, e todos vamos sobreviver e ter uma pilha de fracassos e sucessos para organizar. No final, tudo fica bem. E não vai mais importar quem acha o quê sobre nós. Vamos aprender a lutar e a ficar em paz. Toda luz e conforto para você. Se sinta abraçada (e obrigada por sempre me abraçar)

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