Obsessão
Victoria C
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 05/10/20 21:31
Editado: 07/10/20 08:58
Gênero(s): Mistério Suspense
Avaliação: 9.53
Tempo de Leitura: 9min a 12min
Apreciadores: 5
Comentários: 3
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Palavras: 1477
[Texto Divulgado] "A vida imita a internet." Se se usa a tecnologia pra tudo. então...não custa nada usa exemplos práticos de tecnologia na vida real.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Obsessão

“Aquilo que você confunde com a loucura é apenas um excesso de agudeza dos sentidos.”

- Edgar Allan Poe

Capítulo 1:

“Lendo esse livro de novo?”

04:00

Se eu soubesse o que iria acontecer, eu teria feito diferente, procurado outro assento, subiria em outro ônibus. Mas o que foi feito não pode ser mudado.

Levanto os olhos para a figura que falou comigo. Os olhos parecem cansados e vermelhos, um calafrio percorre o meu corpo. Talvez fosse um prenúncio do que aconteceria. “Lendo esse livro de novo?”. É a terceira vez que leio esse livro, sempre quando viajo para algum lugar, eu o coloco em minha mochila. "Odeio viajar".

O desconhecido senta ao meu lado, no assento vazio, comprei a passagem de última hora com o propósito de escolher um local que eu pudesse sentar sozinha, mas não foi possível. Observo-o retirar da sua mochila, uma cartela com algumas pílulas. O sujeito se vira para mim e antes de engolir duas pílulas, fala algo “Você sabe bem como é isso, já fez o mesmo, preciso me controlar.”

Capítulo 2:

03/04

Observo a casa da frente ou como eu a apelidei, casa de vidro. As suas janelas largas de vidro dão um aspecto encantador a casa, mas também assustador. As longas cortinas escondem o interior da casa. Recentemente, alguém se mudou, não vi quem é e ainda não conheço o meu novo vizinho, talvez seja uma pessoa que não gosta de se expor, mas a curiosidade é a minha aliada.

04:30

Sim, eu sei bem como é. Mas nunca contei sobre isso para ninguém. Com o rosto virado para a janela de vidro vejo a paisagem do outono passar, o frio castigou as árvores, como de praxe as folhas secas caem no chão e os galhos das árvores ficam fracos e quebradiços. Ainda olhando para a janela, percebo que o desconhecido me observa tão intensamente que eu acredito que ele me conhece de algum lugar, mas talvez eu o tenha esquecido.

“Deve ser cansativo viajar sempre assim”. É cansativo. Sempre? “Eu sei que você não fala, não se preocupe em dizer algo, ainda estou aprendendo sobre isso.” Como ele sabe?

Capítulo 3:

05/09

O meu telefone não para de tocar, é bombardeado por ligações e mensagens via todos os aplicativos em que tenho alguma conta. Como ele conseguiu isso? Seguro o aparelho e o lanço contra a parede, tentado fazer isso parar.

Verifico a casa novamente. Tranco, destranco e tranco todas as portas e janelas. Nas saídas de ar coloquei grades firmes há alguns meses. Apesar de não sair de casa há algumas semanas, verifico também se tem algo fora do lugar. O notebook, as canetas, os perfumes e qualquer objeto que possa ter sido trocado de lugar acusando alguém de ter entrado na casa.

05:00

“Foi difícil conseguir essas passagens de última hora, estou procurando uma casa também para morar, então se você conhecer alguma pode me avisar”. Pensei que o efeito da medicação o deixaria sonolento e menos falante, mas parece que isso só acontecia comigo. Viro o meu rosto em direção àquela figura, parece cansado e exausto, se eu pudesse falar ou tivesse algo para escrever, perguntaria “Quem é você?”.

Capítulo 4:

07/09

Toc-toc. Ouço a batida na porta da frente. Toc-toc. Não ouso descer a escada, prefiro ficar aqui em cima, é mais seguro. Eu sei que ele está apenas brincando comigo. Toc-toc. Então ouço um barulho ensurdecedor, seguido de um silêncio que me deixa assustada.

Caminho até a janela e olho para baixo, a visão me permite ver o que ocorre em frente da minha casa, não há ninguém. Desvio o meu olhar para a casa de vidro, de forma rápida e brusca vejo a cortina sendo fechada. Ele estava me observando.

05:18

“Espero que você não sinta a sua privacidade invadida, estou apenas sentando ao seu lado, não invadindo a sua casa.” Ouço a risada baixa dada depois da fala. Talvez ele tenha percebido o meu desconforto, mas continua sentado ao meu lado, olhando-me fixamente, os olhos vidrados em mim.

Destravo o cinto, coloco o livro que estou lendo no assento e quando tento me levantar, sinto a sua mão agarrar o meu pulso e me puxar de volta para a poltrona do ônibus. “Não tenha pressa, eu sei que você odeia viajar.”

Capítulo 5:

08/09

Ao abrir os meus olhos, ouço uma respiração rápida e descompassada perto de mim. Tento me mover, mas o meu corpo não obedece, a minha cabeça dói e sinto que algo está preso na minha garganta. Apenas a minha cabeça move para o lado e ao fazer isso, percebo que não há nada perto de mim. Então sinto que a respiração pertence a mim, tento respirar calmamente e me concentrar no que está acontecendo. Tudo o que eu lembro é que me obriguei a tentar descansar, mas devo ter caído no sono.

Um medo começa a crescer em mim. Fecho os meus olhos e tento fazer o meu corpo obedecer aos comandos do meu cérebro. “Mova-se”. Concentro-me nos dedos das mãos, mas não se movem, então tento o pé, porém obtenho o mesmo resultado. Solto uma respiração pesada, descompassada e começo a chorar de desespero, sem perspectivas do que pode acontecer comigo. “E se ele tiver feito isso comigo? Colocado algo na água da encanação… e está tentando entrar na minha casa.” Escuto um ranger da madeira ao lado, parece ser a porta se abrindo, movo o meu rosto, mas não há nada. E agora o que irei fazer?

05:50

“Talvez esse livro pudesse se tornar um filme, algo mais realista.” Possivelmente, o desconhecido ao meu lado tenha o prazer no medo da protagonista do livro… ou das pessoas, na realidade. A sua mão se ergue até o meu rosto e toca no fio de cabelo em frente ao meu olho direito. “Eu gostava do seu cabelo como era antes, mas tudo bem, você continua ótima assim”.

A minha respiração acelera ao ouvir isso. Sinto como se algo atingisse a minha cabeça, com as mãos suadas e geladas, afasto aquela mão da minha face. “Talvez você precise mais das pílulas do que eu”. E mais uma vez a risada. Eu quero levantar e sair desse ônibus imediatamente, mas não tenho escapatória. Olho para trás, para os lados, para frente, mas não há um assento vazio. O olhar do desconhecido acompanha o meu. Se eu pudesse, eu gritaria.

Capítulo 6:

09/09

Relembro da noite anterior. Hoje eu não posso dormir, preciso permanecer acordada, vigiar tudo o que acontece na casa de vidro. Eu sei que ele está me observando, apesar da escuridão lá fora.

Sinto-me tão idiota, o livro em cima da cama, confirma isso novamente. “Lendo esse livro de novo?”. Sinto vontade de gritar, correr e fugir, contudo, eu sei que ele irá me encontrar. Choro de desespero por não encontrar nenhuma alternativa, eu já tentei de tudo, mas ele ainda está aqui. Meu corpo treme e a minha respiração falha, sinto-me sufocada, a minha cabeça dói, corro para o banheiro e antes de chegar ao vaso sanitário, vomito em meus pés, uma poça líquida se forma, não como nada há dias. “Talvez eu precise das pílulas novamente”. Por um instante sinto como se não estivesse mais forças para me manter segura.

“Espero que você não sinta a sua casa invadida, eu apenas encontrei a porta aberta”. Ouço aquela voz, não acredito. Não. Não. Isso não está acontecendo. Temo virar e me deparar com aquele desconhecido atrás de mim, na minha casa. Viro bruscamente, com as lágrimas descendo dos meus olhos, a minha visão embasa, sem distinguir as formas vejo algo vindo em minha direção. Fecho os meus olhos. Respiro profundamente e antes que ele consiga me alcançar corro em direção à porta aberta. “Livros não são como a realidade”.

08:00

O desconhecido retira novamente a cartela de pílulas da bolsa. Remove quatro, engole três e antes que eu possa fazer algo força a outra pílula na minha boca, viro o meu rosto e cuspo. “Calma, estou apenas tentando ajudar, você parece assustada”. Olho para as pessoas no ônibus e ninguém parece notar algo, talvez para eles sejamos apenas amigos.

Algo parece desbloquear antigas sensações. Começo a sentir falta de ar, o meu coração acelera, eu acredito que irei vomitar. Seguro firme a minha bolsa e o livro, destravo o cinto de segurança e antes que ele possa me alcançar corro até a porta mais próxima do ônibus e bato para que o motorista a abra, mas nada acontece. Ele está se aproximando. Bato mais uma vez, então a porta se abre, o ônibus começa a parar, mas eu não espero, lanço-me para fora, vejo algumas caras assustadas me olhando, o motorista não para, apenas segue a rota, e quando a porta se fecha, ainda vejo, pelo pequeno vidro da porta, o rosto do desconhecido me fitando.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Olá. Tudo bem? Fico feliz que você tenha chegado até no final do conto. Que tal deixar nos comentários o que você achou?

Apreciadores (5)
Comentários (3)
Postado 06/10/20 22:19

Intrigada. É como me sinto agora rs

Extremamente intrigada. A leitura flui, a ansiedade aumenta, a conexão com a narrativa se aprofunda.

Preciso de respostas, me senti assistindo a AHS rs

Amei o texto, Srt.Victoria C

Postado 10/10/20 15:48

hahaha! Muitíssimo obrigada,espero que você consiga encontrar as respostas através da sua imaginação!

Postado 07/10/20 20:26

É inevitável ler suas obras e não ser imerso na profundidade da narrativa. Você consegue prender o leitor na leitura até o fim do texto, além de criar conexões. Já disse antes em algum outro comentário, mas preciso novamente dizer que amo como você usa os horários para criar um sentimento de ansiedade no leitor. Fiquei arrepiada com essa trama toda e muito impressionada. Assim como a Malva, estou muitoooooooo intrigada!

Obrigada por compartilhar conosco!

​Parabéns, Victoria ♥

Postado 10/10/20 15:50

Muito obrigada, Sabrina! Fico feliz que tenha gostando e ficado intrigada com a trama. ♥

Postado 28/11/20 20:41

Senhorita Victoria, que história incrivel, estou chocada com esse final...!

Senti tanta tristeza pela narradora durante toda a história... pois ela sofre muito, mas não consegue pedir ajuda, e ninguém repara que ela está em perigo...

Gostei muito desse clima tenso e triste! Parabéns pelo ótimo conto!

Um grande abraço <3