Tonalidades de azul, amarelo e branco
Caroline F
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/04/21 11:45
Editado: 08/09/21 18:05
Gênero(s): Drama Reflexivo
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 7min a 9min
Apreciadores: 7
Comentários: 5
Total de Visualizações: 670
Usuários que Visualizaram: 14
Palavras: 1169
[Texto Divulgado] ""
Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

Olá, você! :3

Vindo mais uma vez pra postar o tema do mês do OPMP (mais do que em cima do laço, correndo pelo tapete vermelho), que era Cores e Sentimentos, eu escolhi a cor azul e o sentimento de tristeza. Sim, eu tive várias ideias sobre o que escrever, cheguei a começar dois outros textos e desisti, até que tive uma linda inspiração com a música "Amarelo, azul e branco" do AnaVitória (que eu recomendo vocês ouvirem enquanto lêem, vai fazer o dobro do sentido), e aí bum! Lá vamos nós de mais um texto intimista, como sempre desde que eu entrei no OPMP k.

AVISO: gatilho sobre suicídio!!! Deixando claro que o texto não faz nenhum tipo de apologia.

Capítulo Único Tonalidades de azul, amarelo e branco

Deixa eu me apresentar: garota desconhecida, vivendo uma vida dupla ou até mesmo tripla de acordo com quem vê, nome comum que garanto que qualquer pessoa lembraria — não pela banalidade citada, mas porque é uma vida extremamente repetitiva e, automaticamente, cansativa ao ponto de não ser tão simples de esquecer —, cabelos bagunçados, cartelas e cacos de vidro jogados pelo chão, garganta trancada e soluços altos demais para quem só queria morar dentro do silêncio absoluto da morte, banhada de sentimentos e cores controvérsias, mas quando conto sobre elas, eu conto a minha história.

Eu sou de um lugar no tempo onde ninguém mais pode contar sobre mim e minha coloração tríade, “por que?” é a pergunta que ronda todas as mentes possíveis ao meu redor, e a resposta é tão triste quanto a realidade: todos morreram ou foram embora por vontade própria. Alguns chamariam isso de maldição, karma, consequência, castigo divino, mas ninguém conseguia explicar propriamente o porquê a vida era assim comigo. Talvez não fosse para entender ou ter uma mínima resposta lógica e calculada para tal realidade, mesmo que isso só deixasse tudo ainda mais azul. O passado era triste, mas que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Talvez seja uma história que vale a pena gritar.

[...]

Não sei diferenciar você de mim

Eu não sei

Era uma manhã de domingo gélida, quase que um prenúncio do que estaria prestes a acontecer. A cidade estava vazia, assim como minha casa, minha vida, minha alma; mas o vazio ainda não era a fonte daquela vontade enlouquecida que tive, de repente, em sair correndo sem nem sequer ter um destino a alcançar.

Não conseguia entender, mesmo sendo uma maldita rotina há anos: alma quieta e sufocada, sangue frio, todos os demais sentimentos engolidos, dor paulatina que não vinha de qualquer órgão, amargura de café preto puro e sem adoçante, cores desbotadas para vários tons azulados em todos os lugares e cômodos da minha aflitiva existência, sonhos pósteros asfixiados, o amor era utópico demais; sem jamais ser consumida, mas acrescida de agonia, tortura, medo, desespero. Um monstro interno alimentando-se da solidão envolvente, crescendo e crescendo até que não tivesse mais como ser contida. O sentimento que mais exaure a força vital existente dentro de alguém: a tristeza. E eu nada podia fazer. Vazio. Nada. Zero.

As minhas mãos estavam trêmulas como se estivesse muito mais frio do que a realidade, a cabeça um tanto quanto confusa — como se fosse uma caixa aberta, onde alguém fez questão de embaralhar tudo com as mãos —, respiração ofegante, pressentimento de estar sendo observada e pressionada o tempo todo. Já fazia dias, talvez até semanas, daquela mesma sensação de implosão iminente, sem nem sequer ter alguém para parar minhas ações. Nada mais fazia o ínfimo sentido naquele momento, repassando inúmeras vezes as mesmas memórias insuportáveis, tudo se tornando excruciante demais para que alguém suportasse. E eu já estava cansada. Cansada de sentir como se estivesse sozinha — e de fato estava na maior parte do tempo. Cansada de sentir aquela consternação o dia todo, em todo lugar, independente do que fazia para fugir daquilo, pois aquilo realmente havia se tornado parte da minha essência.

Esse é o exato momento em que ninguém, além da própria pessoa que sente, consegue entender. Absolutamente ninguém consegue entender o desespero e a vontade impulsiva de simplesmente colocar um basta. A ânsia pelo encerramento daquele maldito sentimento me fez correr até o andar de cima.

Porta trancada. Mãos instáveis movimentando-se irracionalmente em busca da maior quantidade de cartelas de remédios possível. Silêncio absoluto em toda a casa. Respiração pela boca. Tudo jogado pelo chão. Fúria. Anseio em me rasgar por completo, esvaindo tristeza. Violência. Ímpetos socos desferidos contra minha própria imagem no espelho. Remédios jogados pelo chão e mãos. Imagem fragmentada em cacos espalhados no meu entorno. Cansaço. Pernas bambas e corpo jogado contra o piso gélido. Decisão tomada.

De repente, os meus olhos fixaram em dois cacos de vidro que caíram justamente na frente dos meus olhos, juntos, como se estivessem ligados. Podia estar louca — ainda tenho minhas dúvidas até hoje —, mas tinha alguma coisa estranha acontecendo naquele exato momento, dentro daquele quarto com cheiro de mofo, na solidão da minha companhia.

Era o meu reflexo, porém ao mesmo tempo não era. É difícil até de compreender, mesmo tendo vivido: os olhos de um dos reflexos de mim eram brilhantes e amarelos, olhos que eu não via na minha imagem refletida há muitos e muitos anos, tantos que nem saberia dizer quando ocorreu a última vez; os cabelos pareciam bem cuidados e havia um sorriso em seus lábios, como se a minha atual figura caótica não lhe incomodasse, e de que maneira eu poderia estar vendo refletida uma imagem contrária a real?! E como se isso não bastasse, o outro reflexo era claramente de alguém que eu nem lembrava ser, a serenidade no olhar — ainda que esse esboçasse uma certa preocupação —, a respiração compassada, as cores brancas da calmaria rondando-a. E novamente, não era eu, mesmo sendo; não sabia diferenciá-las de mim.

Não haviam palavras. Não haviam sussurros ou conselhos. Haviam olhares. Não reconhecia minha própria imagem, pois já tinha aceitado que eu era somente uma cor: azul. Não tinha nada de amarelo, muito menos de branco. Eu era monocromática e ponto. Mas não era tão simples assim no fim das contas.

As mãos ainda estavam trêmulas, mas a certeza da atitude anterior estava totalmente oscilante. Os olhos intercalavam entre os remédios em minhas mãos e meus reflexos. Não sabia mais. Ou, na verdade, sabia, porque aquela era a resposta que eu precisava e não foi na dependência de outra pessoa que a descobri, pois a resposta sempre esteve dentro de mim. Mas a tristeza te cega tanto, pois ela quer ser tua única cor até que seja demais suportar, que você não consegue enxergar que nunca, jamais, uma pessoa pode ser definida por um sentimento ou cor, somos muito mais do que isso.

Sim, eu era azulada, e quer saber o que mais aprendi? Sentir-se triste é humano. É compreender a força que tenho dentro do meu peito aberto. Mas existem outras faces no mesmo espectro de cor, não sou só alegria, nem só calmaria, nem outras cores que ainda não descobri, mas essa é a graça de estar vivo: mesmo quando não há cor, podemos pintar como bem desejarmos.

O passado era triste, muitas vezes a vida era de uma infelicidade sem tamanho, mas eu não podia e não posso me escravizar por causa dele, como se não houvesse mais nada para viver ou sentir; ainda existe muita vida para ser colorida por aí.

[...]

Continuo sendo a garota desconhecida, com uma vida dupla ou até mesmo tripla dentro de todos os sentimentos e faces vividas, muitas vezes ainda querendo rasgar a minha alma de fora a fora, com um nome que qualquer um pode lembrar, porque eu sou eu e sou todos os que contam sobre suas cores, os que contam sobre sua história.

❖❖❖
Notas de Rodapé

É sempre bom lembrar que somos todas as cores e sentimentos, e não precisamos nos tornar escravos de apenas um <3

Sim, parte de tudo isso foi baseado em sentimentos reais, então é isso. Só esclarecendo (caso a linguagem do texto tenha parecido confusa e metafórica demais), a cor azul representa a tristeza, a branca a calma/paz e a amarela a alegria.

Finalizo com a frase magnífica da rainha Rita Lee nessa mesma música: "Ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele."

Até a próxima!

Apreciadores (7)
Comentários (5)
Comentário Favorito
Postado 03/05/21 20:29

Como não amar essa obra di-vi-na???

Caroline do céu! Que profundo, eu tô paralisada, me identifiquei muito com o eu lírico, a intensidade de cada sentimento e cor, chegou a me fazer tremer... E esse último parágrafo... Marcante demais, pessoal demais...

"Continuo sendo a garota desconhecida, com uma vida dupla ou até mesmo tripla dentro de todos os sentimentos e faces vividas, muitas vezes ainda querendo rasgar a minha alma de fora a fora, com um nome que qualquer um pode lembrar, porque eu sou eu e sou todos os que contam sobre suas cores, os que contam sobre sua história." - Juro que não tenho capacidade cognitiva para te dizer, o quão universal, profundo e verdadeiro isso me foi.

Você é uma escritora maravilhosa, muito obrigada por compartilhar sua obra aqui!

Postado 04/05/21 20:33

Ai, Ana, assim você mata meu coraçãozinho que já não é lá essas coisas!

Eu me senti tão realizada lendo seu comentário, que não sei direito nem como agradecer, de verdade. E fico feliz que tenha sido tão profundo quanto eu tentei transparecer, mesmo que isso não seja 10% da profundidade dos sentimentos reais por detrás desse simples texto.

Obrigada por ter separado um tempinho do seu dia para ler minha histórinha, me deu até ânimo de postar umas outras coisinhas por aqui. Espero te ver por aqui sempre <3

Obrigada, de coração.

Postado 01/05/21 14:19

Ohh duquesa que desfile lindo no tapete foi esse?

Eu gosto desses textos carregados de sentimento e eu adorei de verdade cada cor elencada e a forma como brincou com elas.

Parabéns

Postado 04/05/21 20:16

Oh, Paulinha! Pois é, desfilei legal dessa vez kk

Eu fico tão eufórica quando recebo um comentário seu elogiando algo meu, é quase como se o a própria Clarisse Lispector que tivesse feito <3

Obrigada por ler e comentar

Postado 20/06/21 20:38

Olá, senhorita Carol!!

Eu já havia lido esse texto no dia da votação, mas não havia tido tempo de comentar. Mas agora eis-me aqui!!

Os seres humanos infelizmente são criaturas tristes demais, e eu me identifiquei muito com os sentimentos descritos no texto...

"Esse é o exato momento em que ninguém, além da própria pessoa que sente, consegue entender." - é exatamente isso, acho que nunca antes eu havia lido uma explicação tão perfeita para esse sentimento...

"Nunca, jamais, uma pessoa pode ser definida por um sentimento ou cor, somos muito mais do que isso." - poder ler isso me reconfortou de tal maneira como um caloroso abraço... É tão bom quando podemos nos sentir acolhidos, mesmo que por breves instantes durante uma leitura...

Seu texto está maravilhoso! Parabéns!

Um grande abraço <3

Postado 24/06/21 18:21

Ai, eu fiquei tão feliz em ver teu comentário aqui! Esse foi um dos textos recentes que mais amei escrever e do resultado. Fico feliz que essa sensação de compreensão atinja os leitores, porque essa foi a ideia; apesar da humanidade parecer ter um pendência clara a tristeza, nós ainda assim somos mais que isso <3

Obrigada por ler e dedicar um tempinho para comentar.

Postado 26/10/21 19:39

A profundidade da narrativa excede tudo! Além disso, a forma como você usou as cores... Ual! Quanta criatividade! Estou sem palavras!

Obrigada por compartilhar conosco!

​Meus parabéns, Caroline ♥

Postado 18/11/21 15:37

Muito bom e impactante o seu texto! É extremamente doloroso, mas tudo foi abordado com muita sensibilidade.

Congrats!