Um Amanhã
Sjowmalf
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 25/06/21 14:03
Editado: 25/06/21 16:05
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
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Palavras: 875
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

O seguinte conto original tem influências da obra All Tomorrows, de C. M. Köseman.

All Tomorrows é uma ficção científica de zoologia especulativa, e uma das obras mais simples, mais curtas, e mais bizarras que já tive a bênção de ler.

Você pode lê-la gratuita aqui: https://drive.google.com/file/d/0ByV5-S712cg8Tk1vQWVFZVM5S28/view?resourcekey=0-f0n8tTyFknuKmWvLl6gYFQ

=)

Capítulo Único Um Amanhã

No momento que Eles nos viram, a humanidade estava condenada.

Quando chegaram, demos-lhes tantos nomes. Filhos da Puta, Merdas, Desgraçados, Malditos Cuzões do Caralho.

Para conveniência, usaremos o que os alemães costumavam chamá-los: teletubbyzurückwinker.

Idiotas.

Olhamos para cima um belo dia, e vimos os Idiotas flutuando a 50.000 pés do solo da Terra e de todas nossas colônias (descansem em paz).

Pensamos que víamos suas naves a manipular a força da gravidade com algum tipo de tecnologia super avançada, e até chegamos a nos maravilhar com o show de luz que seus exaustores irradiavam.

Fomos enfeitiçados pelo porte esguio e pequenino dos veículos, e nos perguntávamos se o material lustroso seria um composto desconhecido, exótico.

Ponderamos tais conjecturas; tentamos, em vão, comunicar nem que fosse um “Olá!”; respeitamos seus espaços para caso fossem “ariscos”, jamais tentando nos aproximar demais.

Deixamos de lado essas bobagens quando, diariamente, começamos a morrer aos milhões.

E então, dezenas de milhões, e centenas...

Nosso primeiro ataque coordenado exauriu nossas munições na primeira ou segunda semana, e, até hoje, não fazemos ideia de onde foram parar os mísseis, bombas, projéteis, ataques kamikaze que lançamos sobre aqueles Idiotas.

Era um sentimento estranho observar um míssil ficar cada vez menor, ou mais fino, ou mais lento ao se aproximar do alvo, até sumir num anticlímax desmoralizante. Não temos ideia de como manipulavam a matéria dessa maneira. Nossos cérebros não foram adaptados para entender o processo, e o que víamos era apenas uma “sombra” do efeito de suas armas (se é que podem ser chamadas de armas).

Nessa época, ainda parecia ridícula a ideia de uma raça com tal tecnologia não ser inteligente.

Não obstante, surgiam aqui e ali teorias de que não lidávamos com uma espécie sapiente.

Talvez fossem imbecis, idiotas, animais. Apenas poderosos a ponto de ser obsceno. Já nos escondíamos nos túneis subterrâneos de nosso planeta dominado quando a ideia se tornou popular.

Nunca abatemos sequer um Idiota no breve período em que nos usaram de saco de pancadas cósmico. Conseguimos, porém, capturar um.

Num dia como qualquer outro, um, ou uma, valente - ou de extrema sorte, - jovem sucateira que se aventurava na superfície, retorna de suas andanças ao lar subsolo. Trazia uma nave Idiota.

A nave Idiota foi posta e permaneceu inerte na mesa de operações improvisada, nossos xenobiólogos a salivar.

Era menor do que um boi, leve como papelão, e tão frágil quanto. Havia arranhões, e até um rasgo na superfície reluzente, por onde podia-se ver o interior escuro.

Iluminamos o rasgo e vimos órgãos.

Quando metemos o tecido sob um microscópio, identificamos estruturas celulares. Estavam vivas. Não era um veículo, pelo menos não na definição clássica de um. Aquilo era um animal.

A curiosidade vencia a cautela, e estudamos mais.

Não havia manipulação de gravidade, apenas um propulsor biológico movido a gás. Os Idiotas se mantinham suspensos no ar com peidos eficientes.

A pele reluzente absorvia radiação cósmica, portanto alimento não faltava. Bastava estarem próximos a uma estrela para poderem peidar até qualquer planeta em um sistema solar.

Sua anatomia era compartimentalizada, ou seja, todas as partes eram separadas como se fossem câmaras de pressurização. Como uma nave espacial.

Os idiotas ajustavam a pressão em cada um de seus órgãos como nós ajustamos nossa pressão sanguínea: pura e simples automação biológica. Caso estivessem no vácuo do espaço, utilizavam esse mecanismo para regular a pressão interna e para se locomover (reitero: com flatulências).

A forma cilíndrica alongada dava aerodinâmica, permitia que habitassem asteroides, e também algo surpreendente. Analisando imagens de ultrassom do Idiota, identificamos uma estrutura venosa que percorria o corpo cilíndrico de um extremo ao outro.

A estrutura não transportava sangue ou nutrientes, se aproximando mais a um sistema nervoso oco. As “paredes” desse sistema nervoso produziam forças eletromagnéticas que aceleravam partículas até velocidades quase luminares.

Nós costumávamos ter coisas parecidas, há muito tempo. Chamavam “aceleradores de partícula”, e, em 21XX, os tornamos ilegais por serem caríssimos, por termos aprendido tudo o que tinham para nos ensinar, e, principalmente, por criarem buracos negros, às vezes.

Os Idiotas evoluíram, evoluíram, e evoluíram, até desenvolverem mãos e pés quânticos, de modo que podiam manipular o espaço-tempo. Coisas que jamais sonharíamos, não fosse nossa capacidade de aprender, experimentar e comunicar.

Foi assim que nos dominaram sem dó nos primeiros rounds.

Anos depois, quando foram embora e finalmente tínhamos o equipamento necessário, olhamos mais de perto.

O DNA possuía duas hélices, e funcionava quase como o de criaturas terrestres. Na verdade, possuía assustadoras semelhanças com o de nossa extinta Titanomyrma, um gênero de formiga pre-histórica.

O que não notamos naqueles dias foi que, enquanto mutilávamos, cortávamos e eletrocutávamos nosso convidado, seus irmãos, ainda pendentes em nossa atmosfera, agonizavam, gritavam e peidavam com uma dor e sofrimento que, acreditamos, jamais haviam experimentado.

E foram embora.

A humanidade se reergueu das cinzas, tímida, a apalpar túnel afora a terra, o ar puro e o céu azul, enfim livre de Idiotas.

E voltamos aos nossos negócios, da melhor maneira que conseguimos. Não fizemos igual, mas também não era tão diferente. Cometemos outros erros, e outros acertos, também.

Mas, agora, somos temerosos. Apontamos nossos telescópios para cada pedra que se move em nosso cosmo.

É melhor encontrarmos a Rainha dos Idiotas, antes que ela nos encontre.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Espero que tenham gostado, e obrigado por ler!

Apreciadores (2)
Comentários (2)
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Postado 27/06/21 11:17

A forma como você escreve é simplesmente entusiasmante e cativante!!!

Fui capaz de sentir cada sentimento do narrador da forma mais nua e humana possível ao decorrer da leitura, além de ser um enredo misterioso e interessantíssimo que faz o leitor se surpreender, ficar ansioso e até sentir medo em algumas linhas, ainda tem essa dose de humor excêntrica, que eu amo em todas as suas obras.

Como sempre, mais uma obra extraordinária e muito bem escrita, parabéns! E obrigada por compartilhá-la conosco!

Postado 08/11/21 20:01 Editado 08/11/21 20:05

"Os idiotas se mantinham no ar com peidos eficientes"

HAHSJADHJASDH EU VOU TATUAR ISSO NAS MINHAS COSTAS!!!!!

Formigonas ultrassônicas movidas a gás, eu tô de boca aberta com essa ideia. Morrer nas "mãos" quânticas de um bicho ridiculamente poderoso soa bem digno da humanidade, algo como um ultimate ig nobel prize.

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