Eu sou filho de uma mulher que se casou com meu pai.
Meu pai morreu e ela continuou a obra dos dois.
E qual foi a obra dos dois?
Fomos nós os sete filhos que eles tiveram.
E ela, silenciosamente, nos disse:
- Vivam meus filhos!
E os sete filhos dela e dele se viraram no mundo.
E estudamos e nos empregamos e trabalhamos.
Das coisas literárias cuidei eu, apenas eu.
E estava empregado quando ganhei um prêmio.
Por força das circunstâncias me demiti.
Ela custou a admitir que eu podia escrever.
E eu continuei a escrever. E a publicar.
E um dia mostrei a ela um trabalho meu.
E ela me disse:
- Agora o senhor está satisfeito!
E eu estava satisfeito mesmo. E eis que a morte a levou.
Me lamentei e a empregada que já trabalhava aqui em casa me disse:
- Olha seu guarda-roupa, você não tem culpa.
E eu considerei tudo força de um milagre e de graças.
E quem concede em nossas vidas milagre e graças é Deus.
E só posso considerar aqui os filhos que ela teve com enorme satisfação.
Afinal são meus irmãos.
E aqueles entre eles que me cobram perfeição, eu digo:
- Perfeito só Deus.
E o amor caminha por caminhos atravessados ás vezes.
Muitas foram as brigas entre meus pais. Para que nós fôssemos felizes.
E eis o amor. Presente em minha vida como eu hoje o vejo.
Existe amor perfeito?
E nos lábios de minha mãe a palavra "amo", só se apagou no dia em que ela foi ao hospital para morrer.

