Existe uma lenda muito antiga… tão arcaica que já circulava entre os gregos e romanos em tempos passados. O conto descreve um curso d’água, um rio que está nas regiões mais profundas do submundo, suas características se diferenciam de todos os outros: no lugar da água limpa e cristalina, corre um líquido vermelho e borbulhante. Alguns acreditam que o rio é puro fogo, já outros, que o fluído é, na verdade, sangue borbulhante. De acordo com os ancestrais, o curso do rio poderia purificar ou castigar a alma dos pecadores. Devido a seu caráter purificador, alguns o nomeiam de “Rio da Cura”, um modo de purificar as almas inescrupulosas que recaíram sob o Tártaro.
O Tártaro é o abismo profundo e primordial que está abaixo do submundo de Hades – o Deus do Mundo Inferior. Ele é uma prisão eterna para titãs, deuses e inimigos da paz e harmonia. Lá, estão as piores punições que foram afligidas aos mortais, como é o caso de Tântalo. O homem foi condenado a ficar próximo a um lago, com água e comida ao seu alcance, mas sem poder saciar a sede ou a fome. No caso de Sísifo, ele foi condenado perpetuamente a empurrar uma enorme pedra morro acima, apenas para vê-la rolar de volta ao início do cume – para, então, recomeçar o trabalho.
Mesmo outras crenças descrevem as angústias do Mundo Inferior. O Deus de outra narrativa, durante o chamado Novo Testamento, revelou que os anjos pecadores seriam lançados ao Tártaro, para serem reservados ao Juízo Final. De qualquer modo, esse lugar é reconhecido e consagrado como o espaço de punição, aquele que todos devem temer e rezar aos céus, aos deuses, às divindades e ao universo para que nunca, em hipótese alguma, tenha sua alma sentenciada a ele.
Imagine a minha surpresa quando caí aqui.
Eu mal posso me lembrar como foi a descida, ou porque ela aconteceu. Tudo que sei, é que pareceram dias, semanas e anos. Mas quando alcancei o solo, eu permanecia igual. Isto é, desconsiderando os cortes nas mãos, braços e pernas – a areia que circuncidava os rios do submundo eram pequenos cacos de vidro, que rasgavam cada mínimo espaço da minha pele. Eu não fazia ideia de como sobreviveria àquilo. Mas segui. Se as histórias fossem verdadeiras, eu poderia encontrar o Rio da Cura e esperar que ele tivesse piedade de mim, me curasse e não me condenasse ainda mais. Enquanto percorria o caminho, sangrando, com dores por todo o corpo, o ar rarefeito machucando meus pulmões, a temperatura tão alta que drenava toda a água do meu corpo, eu só mantinha o pensamento nela, na cura.
Enquanto caminhava, reconheci os outros rios do submundo. No total, são 5. Meu querido amigo Flegetonte, o Estige, Aqueronte, Cócito e o Lete. O rio Estige é meu antigo conhecido, mas não dessa viagem, nos encontramos outras vezes. Ele é o símbolo do ódio e da inviolabilidade, os deuses e seus filhos faziam juramentos utilizando de seu nome, como prova de sua lealdade. O barqueiro, Caronte, é o responsável por velejar por ele, encarregado de atravessar os mortos para seu destino post mortem. Eu já fiz muitos juramentos para o Estige. O último, provavelmente, foi o que me trouxe até aqui. Com todo o ódio do meu coração, eu jurei que recuperaria a minha vida, a vida que estava perdida. Bom, o rio não deve gostar de mentiras, muito menos promessas quebradas. Talvez, por isso, ele me puniu.
Eu também já mergulhei no Cócito, o rio das lamentações. Ele foi formado por todas as lágrimas, desistências e sonhos perdidos dos mortos. Lá, estão os maiores sonhos, as maiores conquistas que poderiam ter sido, os diplomas, os sorrisos, os anéis de noivado… tudo aquilo que poderia ter sido. Me disseram que, ao mergulhar no Cócito, as lamúrias desesperadas tiram de você toda a vontade de viver, eles te puxam para o fundo em um abraço de desespero, para que você se junte a eles. E por isso, eu mergulhei. Eu estava cansada, eu estava vivendo uma vida tão desesperançosa quanto a daqueles espíritos, eu já havia desistido da vida, enquanto vivia. Mas quando mergulhei, nenhum deles quis tocar em mim. Nenhuma das lamúrias tiveram a coragem de entrar nos meus pensamentos. Acredito que não havia espaço para elas, eu já carregava o suficiente.
O rio Aqueronte, assim como o Estige, também é utilizado por Caronte para levar as almas para o outro lado. É o rio da dor e aflição, neste, velejam apenas àqueles que pagam Caronte com uma moeda. Eneida, da Odisseia, dizia que as almas não sepultadas vagavam por lá por 100 anos. É engraçado, este rio também existe no nosso mundo. Ele fica na Grécia, em Épiro. E eu estive lá também. Foi a primeira vez que encontrei Caronte, ofereci a ele moedas, cédulas de dinheiro, dracmas gregas, pepitas de ouro. Nada foi suficiente para que ele aceitasse me levar. Por alguns segundos, pude jurar que vi uma feição de pena em seu rosto, como se lamentasse pelo meu futuro e soubesse que dinheiro nenhum no mundo seria capaz de pagar pela minha travessia. Então, ele apenas virou as costas e partiu.
Enquanto refletia sobre todos esses (des)encontros, caminhei tanto que nem percebi que já estava de frente para o Rio da Cura. Essa é minha penúltima tentativa. Precisa dar certo. Me ajoelhei diante da lava, que parecia me queimar viva e afundei as mãos. Com as mãos em concha, ignorando toda a dor, trouxe um pouco do líquido até a boca e bebi. Nada poderia me preparar para isso, nenhuma pimenta se equipara ao sabor do Flegetonte, queimaduras de segundo e terceiro grau parecem assaduras leves perto das que se formavam na minha garganta. Comecei a tossir, vomitar todo o fogo e convulsionar ao lado do rio. Depois de algumas horas inconsciente, ainda sozinha, acordei ao lado da margem. E o pior de tudo? Não me sentia curada. Foi assim que percebi... tanto quanto Tântalo e Sísifo, estou em uma punição circular. Não importa o que eu faça, eu nunca alcançarei as uvas para saciar a fome, eu nunca conseguirei levar a pedra até o cume da montanha, ela sempre me amassará.
Por isso, diante dessa pequena faixa de lucidez, decidi ir ao rio Lete.O rio da ocultação, do esquecimento. Dizem que uma pequena gota já é suficiente para esquecer toda a sua vida, inclusive, existe um pequeno ritual para as almas que estão prestes a desencarnar: elas se ajoelham no Lete, experimentam das águas e estão prontas para seu novo percurso. Ele simboliza a purificação e o início de um novo ciclo. Eu precisava disso. Uma gota bastava. Caminhei mais um pouco, afastando todos os pensamentos que lutavam contra mim, implorando para não serem abandonados. Eu já não mais me importava com nenhum deles.
Quando cheguei no rio, ele era branco, como leite. Mas ao mesmo tempo, se transformava em translúcido se o encarasse por muito tempo. Uma gota. Uma gota bastava. Quando comecei a me ajoelhar, percebi que Caronte me observava do outro lado da margem, não sei quando ele chegou até ali. Posso jurar que vi lágrimas se formando no canto de seus olhos e, por um breve instante, ele sussurrou “sinto muito”. E então, me desequilibrei e caí de cabeça no rio Lete.
Pude sentir todas as memórias vazando, saindo dos meus poros, rastejando pela minha pele. O sorriso do meu pai. O abraço da minha mãe. Os dias e dias estudando para a faculdade. O beijo do amor da minha vida. Mas também todas as lágrimas, as dores, o desespero e o sentimento de insuficiência. Um a um… eles se juntavam ao Lete. E eu? Afundava como pedra, cada vez mais fundo, até alcançar as pedras do fundo do rio e…
E…
Perdão? Do que falávamos? Não importa. Não me recordo mais do meu nome. Só tenho um único sentimento claro: permitir que a água adentre meu nariz e, então, chegue até o pulmão. Assim, descansarei no esquecimento eterno. Adeus.

