O sol de Brinwald filtrava-se entre as nuvens como um ferro em brasa, sem força para aquecer. A praça do mercado fervilhava de vozes, carroças e cheiros de peixe, pão e ferrugem.
No centro, sobre um barril virado, Maeve Darran cantava.
Seu alaúde reluzia à luz cinzenta, e sua voz se espalhava como vinho derramado, carregando as palavras da aventura recém-prometida:
“Pelos rios de areia e o céu sem cor,
Caminham tolos buscando flor.
Mas tolo é o homem que teme partir,
Pois nada colhe quem não se faz ferir.”
Homens e mulheres paravam. Alguns riam, outros jogavam moedas.
Elric, à sombra de uma carroça, observava-a — metade envergonhado, metade orgulhoso. Não esperava que ela fizesse da viagem um festival antes mesmo de começarem.
Do outro lado da praça, dois cavaleiros assistiam.
Tinham o porte ereto e as capas azuis marcadas com o símbolo de um lobo prateado mordendo uma estrela — o emblema da Casa Fenraed, a mais leal à coroa.
Diziam que o sangue da família real fora misturado, há séculos, com o dos Primevos — elfos de olhos pálidos que um dia governaram o norte sob a bênção do sol noturno.
Da união entre carne mortal e graça antiga nasceu a linhagem dos Aetheryn, a Casa do Trono, cujos reis eram ditos meio homens, meio eco dos deuses esquecidos.
Seu olhar trazia o brilho da aurora, e sua voz, quando falava, parecia fazer o mundo recordar algo que havia perdido.
O mais jovem, Ser Darion Fenraed, soltou uma risada curta:
— Aquela nascida do fogo é mais engraçada do que é bruxa. — Cuspiu no chão. — Canta como se o mundo fosse feito de sonhos.
O homem ao lado dele não respondeu.
Seu olhar, frio e cansado, permanecia fixo na barda.
O nome dele ainda era temido nas muralhas — Ser Aldric Fenraed, outrora o mais fiel dos cavaleiros da princesa perdida.
Um dia antes da cerimônia de juramento, a herdeira de oito invernos desaparecera sem deixar rastro.
Desde então, Aldric não era mais cavaleiro, nem homem inteiro — apenas uma sombra vestida de ferro gasto.
Quando a canção terminou, ele se ergueu.
Darion tentou detê-lo com um toque no ombro.
— Irmão, não vá se misturar com plebeus e sonhadores. Não há honra em seguir um noviço e uma nascida do fogo.
Mas Aldric já caminhava.
A multidão se abriu à sua passagem — o som das botas sobre a pedra ecoava como tambores de um funeral.
Elric o viu aproximar-se — o elmo debaixo do braço, a barba por fazer e os olhos claros como lâminas molhadas.
Ele parou diante do jovem noviço e, para espanto de todos, ajoelhou-se na poeira da praça.
Sua voz ressoou firme, como se falasse diante do próprio altar:
— Noviço Elric de Brinwald, em nome da honra da princesa desaparecida, do sangue real que ainda corre entre os Aetheryn, e do poder que vem de Deus…
— Eu, Ser Aldric Fenraed, juro ser teu guardião.
— Enquanto houver respiro em meus pulmões e aço em minha mão, que nenhum mal te toque sem antes me ceifar. Que meu juramento te proteja, e que, se eu falhar, o lobo consuma a própria alma.
O silêncio caiu como um manto sobre o mercado.
As moedas pararam de tilintar, os ferreiros baixaram os martelos.
Uma criança chorou, e alguém fez o sinal da cruz.
O taberneiro, à porta da estalagem, murmurou:
— Que os santos o preservem… ou que o devorem.
Darion recuou um passo, atônito.
Maeve abaixou o alaúde, o olhar entre fascínio e medo; seus dedos pararam de dedilhar sem que ela os ordenasse.
O vento soprou entre as bandeirolas do mercado, erguendo a poeira como se o próprio ar tremesse diante do juramento.
E Elric… Elric sentiu o peso da fé e do destino se entrelaçando de um modo que jamais aprendera no mosteiro.
Fitou o cavaleiro ajoelhado diante de si — e, por um instante, não viu um homem, mas um presságio.
— Por que eu? — murmurou.
Aldric levantou o rosto, a poeira manchando o joelho da armadura.
— Porque Deus se cala, mas os homens ainda precisam de heróis.
— E às vezes… — ele olhou para o céu cinzento — …um herói começa ajoelhado.
Por um momento, ninguém ousou respirar.
Então, o sino da cidade tocou ao longe — três vezes — e os pombos levantaram voo.
Maeve olhou para Elric com um meio sorriso, e o jovem noviço compreendeu o que jamais ousara dizer em oração:
Que a fé não nasce nos templos, mas nas escolhas que o medo tenta impedir.
E assim, sob o olhar de um lobo prateado e de um céu que não prometia misericórdia, começou a lenda de uma jornada — não de santos, mas de homens que ainda acreditavam ser possível tocar Deus pelas próprias feridas.

