Maeve dedilhava o alaúde com leveza, os dedos correndo pelas cordas como se as próprias notas lhe guiassem o corpo. A música que nascia ali era mais suave, quase uma confissão em voz cantada:
“Por mares e desertos sigo,
sem mapa, nem céu, nem lar.
Buscando flor, buscando abrigo,
e encontro um trono, e um olhar.
Oh, jornada, cruel e bela,
fiz de ti minha prisão,
e nas pedras do castelo,
gravei minha canção.”
A cada verso, Maeve olhava em volta — os vitrais altos, os corredores de pedra azulada, as flâmulas da Casa Aetheryn pendendo como fantasmas em seda.
Em cada estandarte, o mesmo símbolo: um sol de prata envolto por ramos retorcidos, lembrando uma coroa viva — como se a própria realeza tivesse raízes.
Ela descrevia as tapeçarias em sua mente, maravilhada, sentindo o coração bater em ritmo de música.
Mas o encanto se quebrou quando a voz de Aldric cortou o ar:
— Guarde o alaúde, barda. O rei está passando.
Maeve arqueou a sobrancelha, curiosa. — O rei?
— Sim. — respondeu Elric, endireitando-se. — Mostre reverência.
Ela virou-se — e viu apenas um garoto.
Cabelos loiros quase brancos, olhos verdes que pareciam refletir o céu de inverno, e sobre a cabeça, a coroa dos Aetheryn — uma peça antiga, feita de prata e ouro trançados, pesada demais para alguém tão pequeno. O menino caminhava entre guardas e monges, o passo calmo demais para a idade.
E mesmo assim, o salão inteiro se curvou.
Maeve sentiu um arrepio na nuca e, por instinto, ajoelhou-se ao lado de Elric e Aldric.
O pequeno rei parou diante deles. Sua voz, embora suave, carregava uma autoridade que nenhum adulto ousaria desafiar.
— Levantem-se.
Eles obedeceram.
— Sou o rei Caelum Aetheryn, herdeiro do Sol Noturno. Mytrell deseja vê-los. Mas… — seus olhos pousaram em Maeve — a nascida do fogo deve ficar.
Um leve sorriso cruzou o rosto infantil. — Cante mais para mim.
Elric hesitou, mas Aldric o tocou no ombro.
— Ordem real.
E ambos seguiram deixando a companheira aos cuidados do jovem rei e toda sua comitiva que a olhava curiosa.
Maeve ficou, o alaúde em mãos, tentando esconder o nervosismo.
Sentou-se de novo, e cantou — desta vez com mais solenidade:
“Nas mãos do rei repousa o dia,
no seu olhar dorme a lei.
Se ele fala, o mundo guia,
se ele cala, o mundo é rei.
Que viva o nome sagrado,
que o trono brilhe em seu véu.
Pois onde pisa o coroado,
até os anjos caem do céu.”
O menino ouviu em silêncio. Quando o último acorde morreu, ele não aplaudiu — apenas baixou o olhar.
— Sua voz é linda, Maeve Darran.
— Não gostou da música, Vossa Graça?
Ele suspirou, e a idade desapareceu de sua voz.
— Gostei. Mas o poder que canta não é meu. Sou pequeno demais para reinar. O trono… ainda está vazio.
Maeve o olhou, confusa, mas antes que pudesse perguntar, ele se virou, o som das botas ecoando pelo salão. Do outro lado das portas douradas, Elric e Aldric entraram na câmara real.
O ar ali tinha cheiro de incenso e ferro antigo.
O patriarca dos Fenraed esperava — um homem alto, de barba grisalha e olhar como uma lâmina gasta.
— Ser Aldric. — disse ele, sem se mover. — Não acreditei quando ouvi os rumores. Meu filho… andando com um noviço e uma nascida do fogo? — indagou Lorde Edwyn.
Sua voz soava entre desprezo e tristeza.
Aldric manteve o olhar fixo no pai, e o silêncio que se seguiu pareceu durar um século. Mas antes que uma palavra de reconciliação pudesse nascer, as portas se abriram — e o perfume inundou o ar.
Mytrell entrou.
A Sacerdotisa Mytrell.
Seu andar era lento, hipnótico, e cada movimento parecia medir o espaço como se o próprio chão lhe pertencesse.
Os cabelos negros brilhavam como veludo sob a luz do vitral, e a coroa de galhos — entrelaçados com espinhos dourados — repousava sobre sua cabeça como uma ironia viva.
A seda escura de seu vestido fluía como sombra líquida.
E o perfume… doce e venenoso, uma iguaria rara que fazia o sangue pulsar em lugares que deviam permanecer quietos.
Elric sentiu a mente nublar por um instante, como se a fé se tornasse frágil diante da beleza. A presença de Mytrell era como um eclipse — atraía e obscurecia ao mesmo tempo.
Havia no perfume dela algo que não era apenas fragrância, mas lembrança — de um jardim que nunca vira, de uma promessa que jamais ouvira.
Por um breve momento, sentiu a alma vacilar.
Mas em pensamento, lutou contra isso:
Deus criou tudo o que é belo — até mesmo o que nos testa.
Repetiu a frase em silêncio, como quem empunha um escudo invisível.
E ao fazê-lo, percebeu que talvez a fé verdadeira não estivesse em resistir à tentação, mas em reconhecê-la sem se perder dentro dela.
Mytrell sorriu ao vê-lo resistir. — Andar com uma nascida do fogo, noviço… não é bom para sua fé. Nem para sua reputação.
Elric ergueu o rosto. — Deus criou o mundo inteiro. Não creio que Ele distinga o valor das almas pelo nascimento.
O sorriso da sacerdotisa perdeu a doçura.
Um lampejo — quase irritação — cruzou seu olhar.
— Talvez esteja certo. — disse, por fim. — Um noviço, uma nascida do fogo e um cavaleiro em busca de redenção… soa como uma fábula. — Voltou-se para Aldric. — Fizeste tua escolha, cavaleiro. Que ela te honre como espera ser honrado.
Depois, seus lábios desenharam um sorriso afiado, quase encantado.
— Mas ouça-me, Aldric Fenraed. Se a nascida do fogo mostrar qualquer sinal de bruxaria… mate-a. Seu julgamento terá o poder real.
A frase saiu mansa, como se ordenasse que acendessem uma vela.
Aldric baixou o olhar — e em silêncio, pensou que nem precisava de ordens para aquilo.
Não por obediência, mas por algo mais profundo e indefinido.
Mytrell estava ali, e o ar ao redor dela parecia diferente — denso, vivo, quase sagrado.
Os olhos verdes dela o fitavam com uma calma que queimava.
Por um instante, Aldric pensou ver neles o reflexo de todas as juras que um homem poderia quebrar.
Tentou desviar o olhar, mas a presença dela o mantinha preso.
Não era apenas beleza. Era domínio, era adestramento, poderia tomá-la ali, mesmo que estivessem diante do noviço, mas não o fez.
O contorno do rosto dela, a inclinação suave do pescoço, a maneira como a luz parecia se curvar em torno da coroa de galhos — tudo nela falava de um poder que não precisava de espada.
E Aldric, que um dia juraria a própria vida por uma princesa, sentiu-se pela primeira vez sem juramento algum.
Naquele instante, compreendeu que o desejo também podia arder — e que o fogo de Mytrell não precisava de chama para consumir.
O salão parecia respirar junto dela — um espaço vasto, abobadado, onde o som de cada passo ecoava como uma lembrança.
A luz atravessava os vitrais altos e derramava-se sobre o chão de mármore, tingindo de ouro e carmim as pedras antigas.
O trono em si era uma relíquia do primeiro reinado dos Aetheryn — esculpido em madeira escura, quase negra, entrelaçada por finos veios de prata que desenhavam ramos e espinhos, como se a própria natureza houvesse tentado tomar posse do poder.
O encosto, alto e curvado, lembrava o contorno de uma chama. Sobre o assento, repousava apenas o manto real dobrado, guardando a forma ausente de quem um dia se sentara ali.
Mytrell deteve-se diante dele — e o silêncio pareceu se curvar.
Ela pousou a mão sobre o braço do trono, como quem toca algo sagrado, e o leve tilintar dos anéis em seus dedos soou como uma oração distorcida.
Por um instante, seus olhos verdes refletiram as chamas das tochas — não como fogo, mas como algo vivo, consciente.
Inclinou-se então, quase num gesto de reverência, e deixou escapar um sorriso enigmático.
Havia algo de teatral naquilo — como se o trono, vazio, fosse apenas uma peça no palco de uma encenação que ela dominava.
E no entanto, por trás do deboche, havia uma aura quase divina: a sensação de que, se quisesse, bastaria um gesto para que o trono deixasse de estar vazio.
Seu perfume dominou o ar, misturado ao brilho pálido das velas.
Ela os olhou por sobre o ombro e disse, quase em um sussurro:
— Que a sorte dos elfos os acompanhe. — o movimento foi pequeno, mas bastou para que o salão parecesse prender o ar.
Seus cabelos negros, brilhantes como vidro molhado, deslizaram sobre o ombro e refletiram o lume das tochas em fios dourados e cobre.
A coroa de galhos — uma homenagem à antiga realeza élfica — faiscou com pontas de espinhos dourados, e por um instante, mais parecia um halo profano.
A luz acariciava-lhe o rosto de forma desigual: um lado mergulhado em sombra, o outro iluminado com doçura quase divina. Os olhos verdes, vivos e insondáveis, traziam a calma de um lago e a ameaça de seu fundo oculto.
O contorno da boca, suave e firme, sugeria tanto clemência quanto condenação — e nem ela parecia saber qual das duas oferecia.
A cada palavra, o perfume raro que exalava — notas quentes de mirra e pétalas queimadas — se espalhava lentamente pelo ar, confundindo fé e desejo de todos os homens.
Era impossível não olhá-la.
Não como se olha uma mulher, mas como se encara um presságio.
— O poder... — murmurou ela, a voz baixa, como se o som lhe pertencesse mais do que o ar — ...é uma chama que consome quem tenta segurá-la.
Quando se voltou completamente, o manto do trono esvoaçou levemente atrás dela, como se obedecesse a um vento invisível.
E então, por um instante breve e impossível de medir, Mytrell pareceu ser parte do trono — não sentada nele, mas feita dele: a coroa, os espinhos, a sombra e o ouro.
Elric sentiu um arrepio — não de medo, mas de pressentimento.
Sabia, no fundo, que o destino começara ali. E que, diante do trono vazio, talvez nenhum deles voltasse a ser o mesmo.

