A Flor de Santharis. (Em Andamento)
Alenz07
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 13/11/25 00:43
Editado: 21/11/25 01:17
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 17/11/25 20:08
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 6min
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Palavras: 783
Não recomendado para menores de dezoito anos
A Flor de Santharis.
Notas de Cabeçalho

Brinwald e os Reinos do Norte formam uma terra onde fé antiga e poder mortal se entrelaçam. As cidades erguidas em pedra ennegrecida convivem com florestas que ainda murmuram o idioma dos Primevos — seres élficos cuja presença moldou rios, montanhas e linhagens. As casas nobres carregam em seus brasões ecos dessa herança, e a mais sagrada delas, a Casa Aetheryn, descende da união entre humanos e o “sol noturno”, uma bênção perdida que ainda influencia o destino dos reis. Mercados fervilhantes, ordens religiosas e cavaleiros marcados pela honra ou culpa caminham lado a lado com superstição, milagres raros e um céu que parece observar. É um mundo onde lendas não morreram — apenas aguardam quem as desperte.

Capítulo 2 Herói

O sol de Brinwald filtrava-se entre as nuvens como um ferro em brasa, sem força para aquecer. A praça do mercado fervilhava de vozes, carroças e cheiros de peixe, pão e ferrugem.

No centro, sobre um barril virado, Maeve Darran cantava.

Seu alaúde reluzia à luz cinzenta, e sua voz se espalhava como vinho derramado, carregando as palavras da aventura recém-prometida:

“Pelos rios de areia e o céu sem cor,

Caminham tolos buscando flor.

Mas tolo é o homem que teme partir,

Pois nada colhe quem não se faz ferir.”

Homens e mulheres paravam. Alguns riam, outros jogavam moedas.

Elric, à sombra de uma carroça, observava-a — metade envergonhado, metade orgulhoso. Não esperava que ela fizesse da viagem um festival antes mesmo de começarem.

Do outro lado da praça, dois cavaleiros assistiam.

Tinham o porte ereto e as capas azuis marcadas com o símbolo de um lobo prateado mordendo uma estrela — o emblema da Casa Fenraed, a mais leal à coroa.

Diziam que o sangue da família real fora misturado, há séculos, com o dos Primevos — elfos de olhos pálidos que um dia governaram o norte sob a bênção do sol noturno.

Da união entre carne mortal e graça antiga nasceu a linhagem dos Aetheryn, a Casa do Trono, cujos reis eram ditos meio homens, meio eco dos deuses esquecidos.

Seu olhar trazia o brilho da aurora, e sua voz, quando falava, parecia fazer o mundo recordar algo que havia perdido.

O mais jovem, Ser Darion Fenraed, soltou uma risada curta:

— Aquela nascida do fogo é mais engraçada do que é bruxa. — Cuspiu no chão. — Canta como se o mundo fosse feito de sonhos.

O homem ao lado dele não respondeu.

Seu olhar, frio e cansado, permanecia fixo na barda.

O nome dele ainda era temido nas muralhas — Ser Aldric Fenraed, outrora o mais fiel dos cavaleiros da princesa perdida.

Um dia antes da cerimônia de juramento, a herdeira de oito invernos desaparecera sem deixar rastro.

Desde então, Aldric não era mais cavaleiro, nem homem inteiro — apenas uma sombra vestida de ferro gasto.

Quando a canção terminou, ele se ergueu.

Darion tentou detê-lo com um toque no ombro.

— Irmão, não vá se misturar com plebeus e sonhadores. Não há honra em seguir um noviço e uma nascida do fogo.

Mas Aldric já caminhava.

A multidão se abriu à sua passagem — o som das botas sobre a pedra ecoava como tambores de um funeral.

Elric o viu aproximar-se — o elmo debaixo do braço, a barba por fazer e os olhos claros como lâminas molhadas.

Ele parou diante do jovem noviço e, para espanto de todos, ajoelhou-se na poeira da praça.

Sua voz ressoou firme, como se falasse diante do próprio altar:

— Noviço Elric de Brinwald, em nome da honra da princesa desaparecida, do sangue real que ainda corre entre os Aetheryn, e do poder que vem de Deus…

— Eu, Ser Aldric Fenraed, juro ser teu guardião.

— Enquanto houver respiro em meus pulmões e aço em minha mão, que nenhum mal te toque sem antes me ceifar. Que meu juramento te proteja, e que, se eu falhar, o lobo consuma a própria alma.

O silêncio caiu como um manto sobre o mercado.

As moedas pararam de tilintar, os ferreiros baixaram os martelos.

Uma criança chorou, e alguém fez o sinal da cruz.

O taberneiro, à porta da estalagem, murmurou:

— Que os santos o preservem… ou que o devorem.

Darion recuou um passo, atônito.

Maeve abaixou o alaúde, o olhar entre fascínio e medo; seus dedos pararam de dedilhar sem que ela os ordenasse.

O vento soprou entre as bandeirolas do mercado, erguendo a poeira como se o próprio ar tremesse diante do juramento.

E Elric… Elric sentiu o peso da fé e do destino se entrelaçando de um modo que jamais aprendera no mosteiro.

Fitou o cavaleiro ajoelhado diante de si — e, por um instante, não viu um homem, mas um presságio.

— Por que eu? — murmurou.

Aldric levantou o rosto, a poeira manchando o joelho da armadura.

— Porque Deus se cala, mas os homens ainda precisam de heróis.

— E às vezes… — ele olhou para o céu cinzento — …um herói começa ajoelhado.

Por um momento, ninguém ousou respirar.

Então, o sino da cidade tocou ao longe — três vezes — e os pombos levantaram voo.

Maeve olhou para Elric com um meio sorriso, e o jovem noviço compreendeu o que jamais ousara dizer em oração:

Que a fé não nasce nos templos, mas nas escolhas que o medo tenta impedir.

E assim, sob o olhar de um lobo prateado e de um céu que não prometia misericórdia, começou a lenda de uma jornada — não de santos, mas de homens que ainda acreditavam ser possível tocar Deus pelas próprias feridas.

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Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 19/11/25 01:29

Fantástico! Esse novo personagem foi totalmente inesperado... Sua escrita foi tão viva que vi a cena e ouvi os sons...

Aguardando os próximos capítulos...

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