08:08
Victoria C
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 03/08/20 20:32
Editado: 14/10/20 20:24
Avaliação: 9.53
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 5
Comentários: 4
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Palavras: 847
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único 08:08

"As coisas invisíveis são as únicas realidades."

- Edgar Allan Poe

Acordo ofegante, o alarme ao lado da minha cama sinaliza 08:08 do dia 24/09. Uma chuva torrencial cai lá fora, desde ontem não para de cair água, além do som estridente dos trovões que me deixam com pavor até mesmo de abrir as janelas. Não sei o motivo, mas sinto que há algo errado, comigo e com a casa. Ligo as luzes, mas a cor que emana é alaranjada, eu pensei que tinha trocado essas luzes na semana passada, mas não será estranho caso eu tenha apenas esquecido de ter feito isso. Quero dizer, tem dias que me esqueço de pequenas coisas que já fiz.

Desço a escada e sinto um gostoso aroma de café. Sinto o meu cérebro e corpo em sinal de alerta. Eu não me lembro de ter saído ontem e ter vindo com alguém para casa. Eu até mesmo não consigo lembrar o que fiz ontem, tentando buscar algo em minha mente através das lembranças, sinto uma dor aguada na minha cabeça, a minha visão começa a ficar turva e acredito que irei cair, mas sinto dois braços fortes me segurando antes da minha inevitável queda.

09:08

Sinto uma mão acariciando os meus cabelos, uma dor dilacerante toma conta da minha cabeça, abro os olhos e vejo a imagem de alguém que eu jamais pensaria que olharia novamente, cabelos grandes e olhos verdes. Pisco mais uma vez para ter certeza do que estou vendo. Mas os meus olhos não estão me enganando. Ele diz algo, mas pouco entendo a fala que parece arrastada aos meus ouvidos, talvez ele tenha dito que estava indo pegar um copo com água, comida ou remédio. Mas eu não quero nada disso, preciso que ele saia da minha casa. Na mesinha ao lado da cama, agora repousa um celular de modelo bem antigo, pego o aparelho e tento liga-lo, mas está sem bateria. Droga! E sem carregador por perto.

Não faz sentido eu sair correndo. Eu sei que não iria longe e a chuva não favorece a minha situação. Eu preciso pensar de forma clara e tentar escapar. Ele entra novamente e traz uma bandeja contendo um copo com água e uma tigela com um caldo amarelado. Sem dizer nada, coloca a bandeja em cima da cama e se dirige a porta, mas antes de sair ele vira para trás e olha para mim de forma intensa, levando a sua mão ao bolso da calça de tecido e retirando de lá um molho de chaves, exibindo-a como um troféu. A porta se fecha e ouço o som da fechadura sendo trancada. Sem escapatória.

09:38

A chuva açoita a árvore lá fora, cada vez mais forte. Caminho em direção à cama e olho um álbum de fotos aberto que encontrei em uma das gavetas do guarda-roupa. As fotos remotam de cinco anos atrás, como viagens internacionais, jantares em restaurantes caros, festa com amigos e pessoas desconhecidas. Mas em todas as fotos ele está ao meu lado. Com seu braço forte sempre circulando a minha cintura e eu esboçando um sorriso genuíno, não como uma farsa.

Corro até o banheiro e fico em frente ao espelho, eu sei que é bobagem o que eu irei fazer, mas talvez isso ajude. Sorrio de todas as formas possíveis. Um sorriso falso, fingido, alegre e então aquele sorriso das fotos, um sorriso genuíno, de algo mais forte que felicidade. Talvez um sorriso de amor.

A porta se abre e vejo-o entrar de forma furtiva e rápida. Na mão, duas caixas pequenas parecem remédios. Ele me dá a caixa e pede para que eu engula duas pílulas de cada ao mesmo tempo. Eu quero negar, mas vendo a figura dele grande e muito mais forte do que eu, cedo ao pedido. Engulo as duas pequenas pílulas. Ele não sai do quarto como na última vez. Tento manter os meus olhos abertos enquanto olho para ele, ali na minha frente, parado com os braços cruzados, parece ser até cômico, não sei o porquê, mas começo a rir, uma risada que logo se converte em choro e as minhas pálpebras não suportam mais até fecharem por completo e uma última voz ao fundo falando “Até amanhã!”.

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Os meus olhos se abrem e se deparam com a luz do sol entrando pela janela. Estico o meu corpo, ainda na cama. Hoje faz um belo dia. O som dos pássaros cantados me traz alegria. Em cima da pequena mesa ao lado da cama, o relógio exibe o horário e data: 08:08 do dia 25/09. Há também o nosso álbum de fotografia, estico o meu braço até alcançar e revejo as fotos. Isso me faz sorrir.

Caminho até a janela e vejo a rua, com folhas molhadas pelo chão. Eu não me lembro sobre ontem, que engraçado. Mas tenho certeza que choveu, mas hoje o dia é favorável para uma caminhada ou piquenique. Antes de me virar em direção à porta, duas mãos grandes fecham sob meus olhos. Eu não preciso olhar oro para saber quem é. É ele.

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Notas de Rodapé

Olá. Tudo bem? Fico feliz que você tenha chegado até no final do conto. Que tal deixar nos comentários o que você achou?

Apreciadores (5)
Comentários (4)
Postado 03/08/20 20:55

Muito interessante... acho que essa sensação é a de quem muitas vezes pensam sonhar muito.

Postado 30/09/20 09:15

Será que era apenas um sonho? Obrigada pelo comentário!

Postado 03/08/20 21:53

Esse texto é perfeito de uma maneira que somente você poderia fazê-lo! Estou impressionada!!!! Foi uma leitura maravilhosa.

Obrigada por compartilhar conosco!

Parabéns, Victoria ♥

Postado 30/09/20 09:15

Muitíssimo obrigada! Fico grata pelo seu comentário e muito mais feliz por ter gostado da leitura!

Postado 18/08/20 19:14

Uma leitura assustadoramente maravilhosa!!

Uma leitura perturbadoramente encantadora!!

Eu amei <3 <3 <3

Parabéns e um abraço!!

Postado 30/09/20 09:16

Obrigada!!! Fico feliz que tenha amado a história. <3<3<3

Postado 25/08/20 18:04

Meu Deus! Que texto interessante!!! Me senti em um episódio de Black Mirror, fiquei triste que o texto acabou! Um mistério intenso e MUITO BEM DETALHADO, me deixou implorando por mais! É o primeiro texto seu que leio! Você é magnífica! Que obra de arte! Menina de Deus, diz que você vai fazer uma continuação!!! Me senti tão tonta e prisioneira quanto a personagem, e esse "ele"... Nos abre um leque de possibilidades!

Parabéns por escrever uma obra de qualidade IMPECÁVEL!

Postado 30/09/20 09:18

Obrigadaaa! Nossa! Fico realmente feliz por você ter gostado e pelo comentário. Continuação? Prefiro que você imagine o seu próprio final rsrsrs! Obrigada pelo comentário! <3