Hora de dormir
Yvi
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/10/21 00:34
Editado: 30/10/21 02:16
Avaliação: 9.13
Tempo de Leitura: 9min a 12min
Apreciadores: 3
Comentários: 3
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Palavras: 1543
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween – Sob o olhar das Lendas" É nas sombras onde as lendas se escondem, observando a todos, e agora em desafio propõem um concurso. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de catorze anos
Capítulo Único Hora de dormir

Quando a sobrinha mais velha de Diablair decidiu que pegaria alguns jackes “emprestados” do cofre do tio, ninguém imaginaria que seria para transformar uma ala inteira da mansão em um enorme cinema particular, com direito a camas king, iluminação que mudava de cor para acompanhar a cena, lençóis de seda egípcia e até mesmo pantufas de marca.

Os quase duzentos empregados da mansão, levaram três dias e três noites para deixar tudo de acordo com as expectativas da jovem Imperatriz. Eles trabalharam o mais rápido que conseguiam, tendo em mente que o dono da mansão estaria fora por quatro dias, devido a uma reunião urgente.

— Não quero nem ver quando o tio Diab voltar e descobrir que o cofre está vazio de novo. — Começou Tristeza, entrando na sala de cinema.

— Não é como se ele fosse ficar pobre. Todo mundo sabe que o tio só coloca os jackes que ele quer que eu pegue. — Argumentou a Imperatriz.

— Ele só faz isso por ainda não ter conseguido inventar um cofre a prova de você! — Tortura rebateu.

O trio estava ali para se certificar que tudo estava em seu devido lugar. Faltava apenas uma noite para a volta de Diablair e elas pretendiam inaugurar o cinema antes, considerando que depois poderia não ser uma boa ideia.

— Eu acho que o tio vai fechar a ala por uns duzentos anos. — Comentou Tortura, se jogando em uma das camas.

— Não se formos espertas, minha querida.

— Como assim, Flávia?

— Simples! É só dizermos para a Ternura que ela pode assistir os desenhos dela bem aqui. O tio Diab vai liberar a sala antes mesmo de proibir ela.

— Você é péssima.

— Sério que você acha isso mesmo, Tristeza? Muito obrigada!

Naquela noite sombria de outono, apenas uma ala da mansão Infernal estava iluminada. Imperatriz, no papel de responsável pela mansão, ordenou que todos os empregados tirassem a noite de folga. A jovem não queria perturbações durante a inauguração do cinema.

Abóboras flutuantes decoravam o teto, caveiras brilhantes ornavam as paredes, todas as seis camas king ostentavam a escuridão dos lençóis pretos e o piso de madeira rangia como nos filmes mais assustadores.

— Bem-vindos a noite do terror, meninos! — Começou Imperatriz, assim que avistou Blake e Damon saindo por um portal.

— Pela primeira vez nós estamos invadindo a mansão, e não fugindo dela. —Blake comentou, sorrindo com os olhos.

— E qual vai ser o filme? — Damon questionou, abraçando sua namorada.

— A hora do pesadelo. — Tortura respondeu, animada.

— Mas e a Ternura? — Damon realmente parecia preocupado com a criança.

— Ela que escolheu o filme, amor. Relaxa. Ternura é a pior dentre todos aqui. — Imperatriz ria enquanto falava.

Antes que os casais pudessem continuar a conversa, Tristeza apareceu, sendo seguida de perto por Ternura. Os jovens imediatamente se derreteram. A pequena estava com seu pijama rosa com estampa de gatinhos. Na verdade, todos ali estava muito bem vestidos. O pijama de Tristeza, que consistia em uma calça larga e uma blusa de manga curta de botões, ostentava pequenas nuvens brancas, que combinavam perfeitamente com os tons esverdeados de seu traje. Tortura, por sua vez, usava uma linda camisola cinza, de alcinha. O baby doll da Imperatriz era todo preto, com estampa de facas ensanguentadas. Blake e Damon trajavam pijamas iguais, divergindo apenas nas cores. Enquanto Blake usava calças de moletom cinzas e camiseta branca, Damon usava tons de preto.

Os seis se acomodaram nas camas de forma que Tortura e Blake ocupavam a do lado esquerdo da sala, Ternura e Tristeza a do meio e Imperatriz e Damon a cama do lado direito. Todos já estavam devidamente cobertos, segurando seus baldinhos de pipoca e prontos para começar.

— Aqui vamos nós. — Disse a Imperatriz, apertando o play.

O que eles não sabiam era que, enquanto o filme rolava, um homem encapuzado andava por cima da casa, carregando um enorme saco.

1... 2... Freddy's coming for you

Quando enfim o filme chegou ao seu fim, todas as luzes da sala de cinema se apagaram, fazendo o cômodo sucumbir ao escuro.

— Já está na hora de dormir? — Questionou Ternura, com voz de choro.

— Eu avisei que ela teria medo! — A voz de Damon ecoou.

Exatamente naquele instante, as janelas da mansão Infernal começaram a tremer, anunciando que o vento estrava furioso. Uma das delas até mesmo abriu, obrigando Blake a sair dos braços de sua namorada para poder trancar novamente. O ato do Hunter fez pequenas luzes se acenderem no piso.

— Tristeza, precisa mesmo criar uma tempestade só por conta desse filme bobo? — Tortura questionou, impaciente.

— Eu não fiz nada! Até achei o filme chato.

Todos estavam tão agitados, que nem sequer notaram que algo havia invadido a sala no momento em que as janelas se abriram.

— O que acham de assistir algo leve, só para limpar a mente? — Sugeriu Damon, ainda preocupado com Ternura.

— Blake, jaque... — Imperatriz falou.

— Jaque? — Tortura quase se exaltou.

— Já que ainda não voltou para cama, escolhe algo do Tim Burton aí. É o mais leve que tem para hoje.

— A noiva cadáver! — Ternura gritou.

— Ela tem medo do Fred, mas não tem medo da noiva. Vai entender. — Comentou Blake, dando play no filme.

A criatura permanecia oculta nas sombras, confortavelmente acomodada atrás das portas do armário que abrigava os lençóis e as fronhas das camas, apenas analisando os seis jovens.

O monstro aguardou até que todos estivessem quase dormindo, para assim poder dar início ao seu trabalho. Sua primeira vítima foi a pequena Ternura. A criatura desfigurada esticou suas garras deformadas até o pé da menina, que estava para fora da cama.

— Aí! Tristeza, não puxa meu pé! — Falou a criança, com voz de sono.

— Mas eu não fiz nada, Ternura.

As janelas se abriram novamente, permitindo que o vento gélido da madrugada invadisse a mansão, acompanhado por várias outras criaturas iguais a que puxou o pé da pequena Ternura. Ainda sem perceber o que estava acontecendo, Damon suspirou irritado, levantou da cama e fechou a janela.

Já era tarde! Naquele instante, passos pesados foram ouvidos. Parecia que o telhado inteiro iria desmoronar sobre eles. Ternura e Tristeza foram as primeiras a despertar. Blake e Tortura estavam atordoados e a Imperatriz nem ao menos conseguia se mover.

Figuras monstruosas, com variadas faces e formas, começaram a aparecer e desaparecer diante dos meninos. Damon, que ainda estava de pé próximo a janela, tentou se proteger, mas teve seu pé puxado com tanta força, que quase bateu a cabeça na quina da mesinha que servia como suporte para os controles da sala.

— Faz alguma coisa, Blake! Você é o Hunter aqui. — Tristeza gritou, tentando impedir que um gigantesco bicho-papão colocasse Ternura dentro de um saco.

— Com trinta demônios! Por que tem tantos aqui? — Damon questionou, tentando esquivar do papão que lhe perseguia.

— Acho que estão cobrando nossas malcriações acumuladas. — Tortura respondeu, desviando de um saco.

— BLAKE! — Gritou a Imperatriz, tentando acertar sua faca em um bicho-papão.

— Deveríamos pedir desculpa, mas não sei bem pelo quê ou para quem. — Blake gritou, correndo para ajudar Damon.

Toda a confusão durou por mais alguns longos e cansativos minutos, antes que a porta da sala fosse aberta e uma figura encapuzada invadisse o ambiente caótico.

— Peçam desculpas por agirem pelas minhas costas. Vamos, se desculpem!

Aquela voz pertencia a ninguém menos que Diablair, o líder das Hordas Infernais, dono da mansão e, não por acaso, tio das quatro meninas desobedientes.

— Tio, desculpa. Eu prometo não ficar mais acordada até tarde. — Ternura foi a primeira.

O bicho-papão, que segurava a menina pelo pé e tentava colocar em um saco de estopa, evaporou no mesmo instante, fazendo a menina cair de bunda no chão.

— Sério, tio, desculpa! Nós só queríamos nos divertir, mas foi errado. — Tristeza foi a segunda. A jovem já estava com metade do corpo dentro para dentro do saco de um bicho-papão.

— Desculpa, tio. Não vou mais deixar a Imperatriz sozinha para roubar o cofre. — Tortura foi sincera. O bicho-papão que lhe atormentava também sumiu.

— Desculpa por invadir a casa, Diablair. — Blake gritou, cansado de lutar contra três papões.

— É, desculpa. Só vamos aparecer quando formos convidados. — Damon completou.

— Tio, sério, desculpa. Eu nunca mais vou planejar essas coisas sozinha. De coração, DESCULPA!! — Imperatriz gritou, vendo o bicho-papão que segurava seus pés desaparecer.

Com a situação controlada, Diablair tratou de expulsar Damon e Blake da mansão e de colocar suas sobrinhas em seus devidos quartos. O homem havia inventado a reunião apenas para testar suas sobrinhas, afinal, ele não seria louco o suficiente para deixar qualquer uma delas no comando de sua preciosa mansão.

O líder Infernal acreditava que a lição do bicho-papão seria mais do que suficiente para que suas sobrinhas aprendessem a obedecer, ao menos um pouco, as suas ordens. Mas, no final das contas, o bicho-papão serve apenas para assustar crianças, e não importa o quanto o homem gastou para contratar os monstros, suas sobrinhas sempre dariam um jeito de burlar as regras.

Bom, pelo menos Tortura nunca mais deixou a Imperatriz arrombar o cofre sozinha, ela ou uma das meninas estavam sempre junto. A Imperatriz nunca mais planejou algo sem antes consultar seus amigos. Blake e Damon só entravam na casa quando eram convidados pelas meninas. E, o mais importante, Ternura nunca mais passou da hora de dormir.

❖❖❖
Notas de Rodapé

— Meu bicho-papão veio da descrição da cartinha e também daqui.

— A obra faz parte da realidade semi-alternativa do universo de Garraduende.

Apenas separam as partes.

Apreciadores (3)
Comentários (3)
Postado 30/10/21 01:11

Com todas as maluquices fervorosas do inferno, o que foi essa obra? KKKKKKKKKKKK a cada dia que passa, a realidade semi-alternativa se torna um grande surto coletivo, pqp.

Que você é uma mestra da bagaceira, isso ninguém precisa discutir. Contudo, fazer a junção de terror + comédia com uma maestria tão grande, é um feito muito característico seu que sempre me surpreende. Soltei boas risadas enquanto lia, mas o tempo todo ficava olhando para trás para conferir se estava tudo bem kkkkkk (e olha que atrás de mim só tem a parede). Adorei como você inseriu as características do Bicho-Papão e como tudo isso estava envolto em uma narrativa cômica com um plot excelente!

Tenho certeza que, depois de colocar as sobrinhas na cama, o Diablair foi assistir Jujutsu Kaisen na ala de cinema KKKKKKKKKKK.

Obrigada por compartilhar conosco essa obra incrível e muito engraçada kkkkkk. Muita boa sorte no concurso, miga!

Parabéns, Flavinha ♥

Postado 30/10/21 01:16

Socorro! Eu estou rindo muito do teu comentário. Muito obrigada, Brinis! <3

Ah, certeza que o tio Diab vai fechar a sala para aproveitar ela sozinho. Confia! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

<3

Postado 06/11/21 20:53 Editado 06/11/21 20:54

Caralho, o Diablair, literalmente, não tem UM DIA, UM FUCKING DIA SEQUER de paz. Se um dia ele sair surtado batendo em todo mundo, eu vou passar pano pra ele. Tem que ter nervos de aço para aguentar essas crianças encapetadas.

Muito divertido sua obra kkkkkkk eu ri muito enquanto lia. Muito criativo como você abordou o monstro na narrativa

Congrats, Flávia!

Postado 07/11/21 00:27

Preparar um pano de seda egípcia pra tu passar! kkkkkkkkkk

Muito obrigada! <3

Postado 23/11/21 21:56

Uma vez desobediente, sempre desobedienre hahah

Adorei sua obra, a forma como desenvolveu a trama que passa de uma travessura a um tremendo caos cheio de monstros. Amei as referencias a filmes da halloween, ótimas pedidas hahha

Vou ter que ler mais sobre esse mundo que vocês criaram, ficou muito legal~~

Agradeço por compartilhar sua obra e me dar a honra de ter uma obra sua paraticipando do concurso deste ano, adorei seu texto.

Assinado, uma pequena vampira, <3

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