O Quarto da Morte
Rutinaldo Miranda
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 11/07/22 20:39
Editado: 11/07/22 21:24
Gênero(s): Terror ou Horror
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 3min a 4min
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Palavras: 507
[Texto Divulgado] "Renascentismo" "And it's good to be alive Crying into cereal at midnight If they ever let me out, I'm gonna really let it out"
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Um último desejo se dssipa no ar.

Capítulo Único O Quarto da Morte

José Carlos, sessenta anos, paciente terminal, enfermaria oncológica, câncer de pulmão. Há seis dias, colocado na enfermaria sete. Conhecida informalmente como o Quarto da Morte, onde ficam alojados os que não têm família. E estão no fim da última etapa doe seu ciclo biológico. Porque todo ser humano, se não der azar, é igualzinho às demais criaturas. Nasce, cresce, se reproduz, se entedia e MORRE.

O paciente está sozinho. Quase teve uma companhia. Pouco antes de chegar, a jovem Cleoneci foi para a eternidade. Pagar por todos os seus pecados. José olha fixamente para o teto. Dois enfermeiros aparecem na entrada.

- E aí, já partiu?

- Quê! O velho é forte. Tá dando o maior trabalho. Vai fazer uma semana que “morre e não morre”.

- Veio alguém?

- Ninguém.

- Que bosta, irmão! Eu não quero morrer assim, abandonado.

- Pois é, fazer o quê?

- Olha só! – apontou um deles.

O paciente virou a cabeça e olhava para os dois. Fez um gesto, com a mão descarnada, pedindo que se aproximassem. Os enfermeiros se entreolharam, surpresos. Foram em sua direção. José tinha um olhar profundo. E falou algo baixinho. Um enfermeiro franziu a testa.

- Que ele disse?

O outro deu de ombros: – Também não escutei.

E aproximou o ouvido da boca de José. Mas, dessa vez, ele falou com a voz determinada e os dois ouviram.

- Um último pedido.

Os enfermeiros ficaram em silêncio, curiosos. Um deles balançou a cabeça afirmativamente e falou:

- Pode pedir.

- Eu quero um.. um.. um... um cigarro.

- Deus do céu, isso a gente não pode dar!

O outro emendou:

- Não pode. Aqui é um hospital.

José voltou a olhar para o teto, fechou os olhos. Os enfermeiros ficaram ali, desconcertados, sem saber o que fazer. Então, viram uma lágrima escorrer daquele rosto pálido.

- Que se foda tudo! – escutaram o Jose dizer baixinho.

Houve um longo silêncio. Os enfermeiros, impressionados, não percebiam o tempo se arrastar. Aquele era o último desejo de um homem, que passava por um sofrimento brutal. Um tomou a palavra:

- Quer saber, vamos levar até o banheiro.

- Pra quê?

Apalpou ostensivamente o bolso da calça. E o outro compreendeu. Puseram José, que parecia indiferente a tudo, numa cadeira de rodas e se trancaram no banheiro. Do bolso, foi tirada uma carteira de cigarros. José despertou, com o cheiro de tabaco. Um foi colocado em sua boca impaciente. Acenderam um fósforo. Queriam que fosse o mais rápido possível e iriam pedir. Mas desistiram, afinal, era o último desejo daquele velho moribundo

Um apenas falou:

- Vai em frente.

José fumou pausadamente. Saboreando a fumaça venenosa que, durante décadas arrasou a sua saúde. Depois da última tragada, olhou ternamente para os enfermeiros e agradeceu:

- Obrigado!

Eles corresponderam, com um aceno de cabeça. Depois, botaram José no seu leito. Ele repousou a nuca sobre o travesseiro, como só há muito tempo tinha feito. E sorriu. Os enfermeiros sentiram um estranho alívio. A alma leve. Saíram respeitosamente do Quarto da Morte. Tinham certeza do que realmente iria acontecer. Finalmente José deu seu último suspiro. E morreu em paz.

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