Meu mau gosto musical
Julih
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 18/05/18 23:43
Editado: 18/05/18 23:47
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 7min a 10min
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[Texto Divulgado] "cinzas" E sobre o monte mais alto fiz a promessa de atirar tuas cinzas ao vento. para o destino infinito que é a sua eternidade.
Não recomendado para menores de catorze anos
Notas de Cabeçalho

Então, tentei escrever um conto sendo que nunca consegui muito bem, então...

Cá estamos!

Boa leitura <3

Capítulo Único Meu mau gosto musical

Oi, tudo bem?

O alarme, hoje de novo, tocou qualquer uma daquelas músicas que dizem coisas como "agora que você se foi para sempre" ou "o que foi, não volta". Basicamente, eu continuo com aquele gosto horrível que te fazia apontar pra minha cara e falar "que tétrico".

Não que eu esteja desanimado, é apenas que me sinto um pouco vazio quando não posso olhar o seu rosto ao acordar, ainda mais nestes dias de final de semana, onde você me acordava com um café maravilhoso, com aquelas famosas latte-art, ou algo do gênero.

Sinceramente, eu não entendo. É engraçado. Não éramos para termos nos conhecido: colegas no médio a vida toda, nunca ligamos um para o outro, então, por quê?

Foi em um vestibular que fizemos na mesma sala. Na hora do nervosismo, conversamos e aliviamos. Resolvi conversar contigo em alguma rede social qualquer e mantivemos contato. Se tornaste a melhor amiga que eu poderia ter em qualquer mundo e brincávamos "nunca que vamos nos apaixonar": você, o coração de gelo da escola, eu, o que nunca funciona bem.

Foi em uma das vezes que fui no seu apartamento pequeno jogar até tarde da noite que percebi as cicatrizes que seus braços guardavam, junto a um olhar distante quando perguntava sobre futuro.

"É apenas para eu saber que não morri, ainda. Não é como se eu precisasse me preocupar, meus pais vão me sustentar mesmo, só não querem ter que lidar com o meu jeito. Particularmente, não há nada que me incomode agora e eu estou mais calma, mas, eu ainda nunca sei quando estou vivendo e quando não estou."

Suas palavras pesavam no meu coração e eu queria entender, entretanto, quando brincávamos o sentimento desapareceria: você estaria sempre ali, afinal.

Será?

Durante a faculdade namorei uma garota, que terminou comigo quando, embora eu prometesse amá-la para sempre (como todas as outras anteriormente), não suportava o meu carinho por ti e o apoio que eu lhe dava em todas as tuas crises. Porém, eu nunca iria poder te deixar para trás, poderia? De modo algum, não como seus pais, não como qualquer outra pessoa. Eu me importava contigo, era simples.

Foi no terceiro ano da faculdade que meu coração bateu diferente.

"Que música melosa e tétrica, que mal gosto", você riu, como sempre.

"Eu te amo", soltei, sem querer. Você me olhou perplexa, levantou-se e esmurrou a mesa, tirou a blusa e jogou-a em um canto, expondo os braços à minha frente: "eu que não amo nem a vida, e tu quer me amar?". O corpo coberto por cicatrizes, finas, recentes, velhas, grandes, profundas a ponto de eu sentir a dor na alma. "Sim. Você, que não ama nem a própria vida. Vamos lá, me dê uma chance, eu estou aqui a tanto tempo e de repente meu coração bate diferente por ti."

Você suspirou.

Anos depois, metade de seu salário era usado para cobrir as cicatrizes com grandiosas e lindas tatuagens. As plantas que você regava na nossa casa me davam esperança de uma vida prospera e longa e eu brincava contigo "Logo eu, que não amo isso, que não amo aquilo" (e corria para longe das panelas que você jogava). Uma vez, depois que eu voltei de uma viagem de trabalho, você estava na porta de casa, esperando ansiosamente: o cabelo curtinho, um vestido fofo e um sorriso largo "Coloquei dois piercings", as orelhas e boca estavam sem nada, então...?

Não tivemos filhos, não tinhamos o interesse e eu queria apenas cuidar de ti, de todas suas cicatrizes, que ainda pesavam meu coração. Eu te amava tanto que não era possível pensar em um jeito melhor de viver.

Foi aí que eu não entendi: chegaste do trabalho esbufante, segurou a bainha da própria roupa com força "Eu te trai!". Te olhei sem entender, confuso. "Acho que não te amo mais, então pensei, por que não testar? Acontece que não tem graça nenhuma viver contigo mais". Seus olhos encontraram os meus e refletiram um sentimento que eu nunca poderia descrever, então você gritou "Por que não me bate?! Não me expulsa? Me mande pro inferno!".

Olhei para ti e para minhas mãos, meu coração apertava tanto que eu não poderia sequer respirar. "Eu te amo, acho que tem algum jeito de resolver isso."

Você bufou e dormiu no sofá. Eu, que nunca resisti ao teu rosto dormindo, não consegui trocar mais nenhuma palavra contigo. No dia seguinte foi tão solitário acordar que sai às pressas procurando por ti, mas, onde estava? Eu não sabia.

Foi horas mais tarde que veio a notícia. Li por partes, conforme meus olhos deixavam as lágrimas cair e minha visão desfocasse: suicídio. arma. tiro. na. cabeça.

Nunca na minha vida eu consegui ler completamente, pois a dor que eu sentia me lembrava um infarto, embora eu nunca tivesse tido um. Fiquei mais confuso ao ler a carta que deixaste na geladeira.

Dizia muitas coisas: se não havia me traído, por que disse isso? Se sabia que eu era a pessoa certa por eu não ter te batido, por que pediu para eu fazê-lo? Se ao meu lado a vida tinha sentido, por que correu da nossa casa? Se, no final da carta, com sua mais linda letra, escreveu um "Eu te amo", largo, acompanhado de um beijo de batom, por que não continuou me amando aqui?

Eu nunca soube o que se passava na sua cabeça.

No enterro, seus pais e parentes diziam palavras horríveis para mim, mas não havia nada, nada, absolutamente nada para se sentir: vazio. Completamente vazio, como eu nunca havia sentido.

Lembro de um de nossos diálogos, em que tu me disse "se eu soubesse que há vida depois da morte, com certeza não me mataria". Eu, que era mais cético que tu, talvez por não ter tanta poesia no olhar quanto, escrevo cartas endereçadas à ti e as queimo com um isqueiro, no pátio da nossa (ainda) casa. Não que eu ache que assim o vento irá levar minhas palavras a tua pessoa, entretanto, o que mais eu poderia fazer? Não há mais nada.

Em nenhum momento eu disse que te amaria para sempre, porque o grande e duradouro te causava uma expressão de dor que eu não tenho palavras para descrever, mas, mesmo agora, eu ainda te amo. Eu guardo suas cartas e as leio, inclusive a última, e tento procurar todas as peças que eu não vi, encontrar tudo que eu não decifrei, para tentar entender, para encaixar tudo... jamais funcionou.

Sua família nunca mais falou comigo. Meus amigos tentaram me fazer gostar de outra pessoa "você é tão jovem", diziam, mas eu não vou mentir pra ti, não vou mentir para mim, não vou mentir para ninguém: se a única coisa que eu estaria procurando é uma essência de você, para que tentar?

Eu, que nunca tive relacionamentos duradouros e sempre disse que amaria para sempre às quatro paredes, tive meu coração pego carinhosamente por ti, que embalou ele todos os dias enquanto dormia comigo e cuidou dele como nunca cuidou da própria saúde, porém...

você levou meu coração embora, junto com tua vida.

E cá estou eu, escrevendo outra carta a próprio punho, que será queimada após eu conferir uma ou duas vezes.

Ainda te amo.

❖❖❖
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Comentários (1)
Postado 13/02/19 01:12

MANA, QUE CONTO INCRÍVEL! ESCREVE MAIS QUE TALENTO VOCÊ TEM DE SOBRE!

Meus parabénsssssssssssss ♥

Postado 24/07/19 21:12

AAAH <3 Obrigadaaaaa

Sinceramente eu nunca acho eles muito bons, esse eu até curti mais, mas é difícil UHAUHHAU

(ressucitei aqui)

<3