O Primeiro Enigma
Silva
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 04/02/21 23:15
Gênero(s): Ação Aventura Fantasia
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 12min a 16min
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Palavras: 2017
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Não recomendado para menores de dez anos
Capítulo Único O Primeiro Enigma

“Que se ouça em todo Reino o brandir da minha lâmina. Esta é minha benção e minha maldição: Quando a coragem desfalecer e a morte aterrorizar os homens, quando os bravos caírem e os covardes temerem, meu escudo será o guardião da esperança e minha espada trará o alvorecer. Sou o protetor do Reino para glória de Athon, o cavaleiro de Ilíos, o escudo de Fengári. Eu sou um guerreiro de Cennet na vida e na morte. “

Juramento da Ordem Pendragon

No primeiro milênio, muito antes dos mapas serem descritos, de muros serem erguidos e das guerras inflamarem os reinos dos homens, um novo mundo aguardava os que ousassem se aventurar nele. Sob os fortes ventos do Leste e com o fulgente sol tocando a face das águas, o jovem Magnus contemplava do convés aquele vasto horizonte azul rumo ao desconhecido. Cabelos negros e velas brancas a favor do vento que levava a engenhosa embarcação. Suas mãos seguravam o Primeiro Enigma dado por Ewoud, o Sábio, o druida ancestral que escreveu as crônicas. Um pergaminho com runas antigas de uma linguagem que a muito se perdera.

"Sob o alvorecer, ele aguarda os que buscam. Navegue pelas águas do desconhecido, suba pelas montanhas da dúvida, procure o impossível e acharás o maior dos tesouros. "

Diferente da maioria de seus contemporâneos, Magnus sempre fora curioso quanto aos segredos daquele mundo vasto. Uma de suas primeiras memórias na infância, quando sequer sabia andar direito. Pequenino e risonho, engatinhava pela areia da praia na ilhota onde nascera, e então mirou o imenso e cintilante além azul a perder de vista. Quando cresceu, visitou a terra dos anões e estes o ensinaram a arte da madeira e do machado. Em agradecimento, o engenhoso garoto criou com tal conhecimento os revolucionários barcos, e assim poderiam cruzar maiores distâncias. Desde então, concentrou seus esforços em ir até onde ninguém foi. Em pergaminhos ele desenhou os primeiros mapas que se têm registro, escrevendo sobre todas as suas descobertas. Ewoud compilou aquelas páginas que mais tarde tornaram-se o livro NAVEGAÇÕES, um detalhado estudo cartográfico sobre Cennet.

Determinado a resolver o tal enigma, seguiu em frente com as mãos no leme, guiado tão somente pelo vento e pelos astros. O mar revolto não impediu o sólido casco do navio de cruzar seus domínios azuis. Respirando desafio e aventura, seu inabalável espírito de navegador o levou até a terra firme. Com um sorriso largo de convicção, Magnus fincou as âncoras e aportou na costa de um novo mundo. Florestas verdejantes com toda a sorte de vida brotando ao redor, e além da bela vegetação, cumes montanhosos se elevavam na recém descoberta paisagem. Passando pela mata densa deparou-se com uma clareira e lá, numa grande rocha, uma espada montante fora fincada. Seu pomo cristalino era a cabeça de um dragão. Entrelaçando as mãos ao redor dele, o jovem puxou sem muita dificuldade. No entanto, para sua decepção, a lâmina estava quebrada, faltava-lhe a outra metade. Pensou em jogá-la fora, mas algo em sua intuição dizia para que a levasse consigo.

Não podia desistir, pois em algum lugar, um grande tesouro o aguardava. Seguiu caminhando pela mata até que, por um descuido, pisou na cauda de uma serpente esverdeada que lhe mordeu o calcanhar em resposta. Prosseguiu, ainda que a dor lhe fosse latejante. Entretanto, não demorou muito para que sua visão ficasse turva ele viesse a desmaiar. Antes de tudo escurecer, lamentou-se por não conhecer aquele mundo, mesmo estando tão perto.

O crepitar das chamas da fogueira, a sinfonia dos grilos e o coaxar dos sapos, o vento balançando a copa das árvores, o belo céu estrelado... Magnus sobreviveu. Diante de si, uma elfa de cabelos dourados e escarlates o observava curiosa, embora acanhada. Um colorido vestido de pétalas lhe cobria o corpo. A elfa da floresta se chamava Alässea, com sua magia, ela o curou do veneno mortal e pouco depois, lhe mostrou um riacho cristalino. Das águas emergiu um escudo, e com o encantamento de Alässea, a madeira de carvalho tornou-se mais forte que o aço. O escudo redondo tinha uma loba prateada como símbolo. Magnus agradeceu, embora ela parecesse não entender sua língua. Após um sorriso gentil e recompensador, a elfa apontou para as montanhas e foi-se andando pela floresta até sumir por entre as árvores. Magnus ficou tentado a ir atrás dela, mas sabia que o motivo pelo qual viera de tão longe era o enigma de Ewoud. O jovem voltou-se para o riacho. Improvisou uma vara com alguns gravetos, coletou algumas minhocas e insistiu até pescar um peixe dos bons. Assou um salmão nas brasas e passou a noite na clareira sob as cintilantes estrelas. Viu-se pequeno diante daquela imensidão, assim como o mar o fazia sentir sempre que subia na embarcação.

Ao romper da aurora, o aventureiro seguiu seu rumo até as montanhas. Um caminho frio e pedregoso. Cavernas aqui e ali, subidas íngremes e ao longe os cumes. Até que um barulho se arrastou até seus ouvidos.

Sobre o topo de uma das pedras, ele erguia-se imponente e majestoso. Dentre todas as suas viagens, Magnus jamais vira uma criatura daquele tamanho. O rapaz viu-se diante de um gigantesco leão. Sua pelugem era alva como a neve do Norte e seus olhos mais profundos que o azul dos mares do Sul. Todavia, um par de asas maiores que a da águia também lhe cobriam as costas. Para seu espanto, a criatura alada lhe falou com uma voz poderosa, embora passasse um ar de tranquilidade.

― O que procuras... pequeno aventureiro?

― O maior... ― Magnus estremeceu. Ainda um pouco temeroso, prosseguiu: ― O maior dos tesouros. Assim como diz o Primeiro Enigma.

― Creio que você o já encontrou. ― Replicou-lhe, para surpresa do rapaz.

― Mas como? Onde estão o ouro e as joias?

― O brilho de meros metais não se compara ao maior dos tesouros. Diga-me, o que carrega consigo?

― Não tenho menos do que uma espada quebrada e um escudo de madeira. Como isto pode ser o maior dos tesouros? ― O leão se debruçou sobre a pedra, observando-o as queixas de Magnus.

― Pequeno, eu lhe digo que não há tesouro maior que a vida, e nem a melhor das jóias é mais valiosa que a sabedoria. ― Ergueu-se e afirmou: ― Venha comigo, quero mostrar-lhe algo. ― Ainda encucado com aquilo, Magnus fez como o leão pediu. Subiu até a pedra com um pouco de medo da criatura, mas sua curiosidade sempre fora maior do que seus receios. Esgueirando-se pelas rochas, ele alcançou o místico felino, chegando-lhe ao lado. Subitamente, a espada em suas mãos reconstruiu-se. Até mesmo uma bainha surgiu em sua cintura. Uma armadura branca e reluzente cobriu suas roupas simples. Perplexo, Magnus não compreendia como tudo aquilo era possível.

― Apesar das suas dúvidas você veio até mim. ― Os olhos azulados voltaram-se para ele. ― Eu tenho muitos nomes, pequeno Magnus. Mas aqui, pode me chamar de Ilíos. ― Revelou-lhe. Curioso como era, Magnus não hesitou.

― Como sabe meu nome?

― Os ventos me contam tudo. Desde os peixinhos dourados que vivem nos riachos até as harpias que correm nos céus. Eu estava aqui quando tudo isso era um enorme vazio. Este mundo vasto que você tanto almeja desvendar se chama Cennet.

― Cennet... ― Magnus repetiu, diante daquele horizonte desconhecido, uma terra muito além do que os olhos podem ver.

― Suba em minhas costas.

― O quê?

― Não tenha medo, suba.

O jovem obedeceu, escalando com certa dificuldade aquela densa pelagem branca. Quando finalmente montou, seus olhos contemplavam toda a imensidão do paraíso adiante. Sem aviso, Ilíos saltou. Magnus assustou-se, segurando-se desajeitadamente sobre as costas do leão que alçava voo por entre as nuvens. “Um mergulho nos céus...” foi como o jovem conseguiu descrever aquela maravilhosa sensação. Nem em sua melhor embarcação, nem nos mais ousados ventos, ele viajara tão depressa. Corriam pelo azul celeste, deixando até mesmo as implacáveis harpias para trás. Quando tomou coragem de olhar para o longínquo solo abaixo de si, notou as planícies verdejantes e o lendário rio Aquarius que serpenteava naquelas terras ensolaradas. Águas límpidas e cristalinas que garantiam a fertilidade do solo. Ao centro, erguia-se a impenetrável fortaleza de cristal que nomeava o reino dos elfos, Ehlün. Magnus a viu rapidamente, uma edificação com uma muralha e quatro torres, dotada duma beleza indescritível. Ao longe, seu navio repousava acima do mar, ainda atracado na costa. Numa olhada mais demorada, o jovem percebeu que alguma coisa se movia nas águas marinhas. Ilíos parou, voltando-se para o mar. Uma criatura das profundezas criava estranhas ondulações, enquanto emergia. Mesmo distante, Magnus temeu. Embora estivesse mais preocupado com os pergaminhos que deixara na embarcação. Estes continham detalhados relatos e mapas sobre suas viagens. A besta aquática tinha tentáculos maiores que as lulas gigantes.

No entanto, um urro terrível ecoou no ar. Além daquelas terras, havia uma grande névoa que separava Cennet de um outro reino, um lugar cheio de escuridão. Diante de Ílios e Magnus, um grande dragão negro rasgou os céus com suas asas. Dois chifres coroavam sua cabeça, sua boca e narinas expiravam brasas ardentes. Esta besta por sua vez, ia na direção da floresta. Magnus lembrou-se de Alässea, de como gentilmente o salvara da morte certa.

― Você deve escolher agora. Vida para um e morte para outro. ― Sentenciou Ílios. ― A floresta ou seu navio? ― Magnus suspirou e então decidiu. Rumou para a floresta enquanto a embarcação era despedaçada pelo monstro do mar. O dragão percebeu que seria atacado, e logo investiu contra eles. Uma imensa labareda de fogo saiu de sua boca. Ílios rugiu. Um poderoso som mais forte que o trovão ecoou, enquanto chamas azuladas emergiram de sua garganta. Fogo compeliu contra fogo. O dragão cedeu em desvantagem. Magnus ergueu o escudo e desembainhou a espada. O jovem saltou, empunhando o escudo que repeliu outra inflamada investida do monstro. A espada cintilou no ar e o dragão berrou. Um dos chifres lhe fora cortado. Magnus pousou abaixo do pescoço escamoso do monstro, com as duas mãos ao redor do pomo da lâmina para finalizar a besta. No entanto, foi atingido pela longa cauda, que o chicoteou para baixo. Antes que caísse no chão, foi pego por Ílios, enquanto o dragão fugia, retornando para as terras sombrias, desaparecendo na densa névoa. Com os pés sobre as gramíneas verdejantes, o jovem bradou determinado:

― Vamos atrás dele!

― Não! ― Ílios rosnou com veemência e o rapaz tremeu na mesma hora. O leão sentou-se ao seu lado e suspirou. ― Jamais deve ir até lá, pequeno Magnus... Não posso protegê-lo em Dorcräbhan. Além da névoa, as terras sombrias emergem, aquele é o reino de Arghon, onde a escuridão governa e o tormento espreita.

― Farei como diz, Ílios. Não entrarei naquelas terras.

― Se assim o fizer, protegendo e cuidando desta terra, poderá viver em Cennet. ― O jovem dobrou um joelho, ficando a espada no chão ao afirmar:

― Eu prometo.

― Então, já não o chamo de pequeno. Eu lhe dou a honra de ser um Guardião de Cennet. Portanto... levante-se agora, Rei Magnus. ― Com um sorriso, o jovem ergueu-se. Sob ambos o sol resplandeceu. Levantando a cabeça para os céus, o leão rugiu poderosamente. A pelugem de Ílios tornou-se dourada como se os raios do corpo celeste o tingissem. E então, ele abriu as asas e como um relâmpago subiu aos céus, sumindo por entre as nuvens.

Ao lutar contra o dragão negro ao lado de Ílios, Magnus ganhou o respeito dos elfos. Com ajuda deles, o castelo Pendragon foi construído pouco depois da Grande Colina, que separa Elfheim do reino dos homens. Uma estrutura tão magnífica quanto Ehlün. Cintilante como a mais pura prata e forte como a maior rochedo, Pendragon erguia-se com pontes suspensas, duas torres, uma larga amurada e um fosso. Pensado com inteligência e levantado com magia, tornou-se um símbolo da harmonia entre os dois povos. Carregando consigo o chifre da fera, o entregou à Alässea como presente. Do osso, ela fez uma poderosa adaga. O corajoso aventureiro casou-se com a elfa, que lhe ensinou sobre a magia antiga e o conhecimento arcano. Este foi o início da Dinastia Magnus, os senhores de Pendragon, os guardiões de Cennet.

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Postado 25/03/21 18:51

Meu querido Silva,

Essa é a primeira obra de fantasia que eu leio NA VIDA.

Fui extremamente seduzido pelo seu texto; as descrições vivas me imergiram de tal forma que não fui capaz de deixar de ver, em minha mente, cada ato e cada personagem; de Magnus tirando a espada quebrada da pedra à Ílios, a Esfinge, voando pelo céu. Apesar de breves, as descrições sobre a geografia da pequena ilha - e do pedaço de céu - em que a estória se passam foram extremamente eficazes; a cada momento, era facílimo saber onde Magnus estava.

Por fim, tematicamente, foi perfeito. A decisão de Magnus de deixar o navio ser destruído para salvar a floresta foi um clímax emocional magnífico e inspirador. A esfinge, com uma voz poderosa embora tranquila, foi/é uma personagem apaixonante e interessante.

Espero que este seja o primeiro de muitos. Obrigado por compartilhar e por fazer brotar em mim essa curiosidade por fantasia (acrescentando O Senhor dos Anéis à minha lista de leitura imediatamente, hihi.)

Postado 27/03/21 00:00

Olá Sena! Ainda estou pensando em como responder dignamente seus comentários porque realmente não esperava :v

Fico feliz que esse conto de fantasia tenha sido uma boa experiência e uma motivação pra iniciar outras leituras. Tive bastante inspiração de Nárnia e O Senhor dos Anéis inclusive, no mais muito obrigado pela leitura e por dar uma bela opinião :')