Marine ( O Conto da Sereia )
Angel
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 01/10/21 22:39
Editado: 18/03/26 12:16
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 24min a 32min
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Notas de Cabeçalho

Esse conto foi ganhador do concurso Escritores FKB. Espero que gostem :)

Perdoem-me devido aos possíveis erros gramaticais encontrados ao longo do texto.

Boa leitura :)

Capítulo Único Marine ( O Conto da Sereia )

Ela vagava pelas escuras e profundas águas do mar. As águas ao seu redor eram densas, antigas, carregadas de um silêncio que não era vazio, mas sim cheio de tudo aquilo que já foi perdido. O mar não era apenas água; era um cemitério de promessas, um sussurro eterno de coisas que um dia tiveram nome… e depois deixaram de ter.

E ali, entre correntes frias e escuras, Marine existia.

Acima, muito acima, a superfície tremulava como um véu frágil separando dois mundos que jamais deveriam se tocar. E além desse véu… havia luz.

A Lua.

Prateada, intocável e injustamente bela.

Marine emergiu lentamente, como se o próprio mar relutasse em deixá-la partir, como se suas águas quisessem mantê-la ali — onde tudo era escuro, onde nada doía de forma clara, apenas constante. Quando rompeu a superfície, o ar noturno a envolveu como algo estranho, quase proibido. E então… ela a viu.

Observou àquela que iluminava a noite: A Lua pairava no céu como uma divindade silenciosa, derramando sua luz sobre o mundo sem jamais pedir nada em troca.

Lentamente ergueu as suas pálidas mãos escamosas, mão essas marcadas pelo tempo e pela água… Mãos que já haviam segurado coisas que não podia mais lembrar.

Tentou apanhar a Lua, tentou alcançá-la, esticou-se, mais um pouco–

Mas não obteve sucesso, a distância era cruel. Com um suspiro amargo, também sabia que a lua poderia ser tocada, nunca poderia. Contudo, Marine desejou tomá-la para si, pois assim como a grande esfera iluminava o céu noturno, a pequena sereia queria que iluminasse dentro do seu tolo coração também. Era ambiciosa, ela sabia. Ainda assim… Marine tentou novamente.

Como alguém que sabe que vai falhar, mas não sabe como parar. Como poderia?

Seus dedos cortaram o ar, inúteis, trêmulos… e então cessaram.

Caíram derrotados.

A muito tempo o seu pobre coração e mente vem sendo assolado pela escuridão. A jovem sereia acreditava que, assim como a Lua iluminava o firmamento, iluminaria sua longa vida também. Marine desejava a Lua.

Não como se deseja algo belo, algo trivial.

Mas como se deseja salvação.

Se ao menos pudesse arrancá-la do céu, esmagá-la contra o peito, deixar que sua luz invadisse cada espaço escuro dentro de si… talvez… só talvez o vazio cessasse.

Talvez aquela escuridão antiga, que rastejava por sua mente como uma sombra sem forma, finalmente recuasse.

Mas a luz sempre estava distante demais, sempre longe. Ela somente poderia contemplá-la e não tê-la.

Segurando-se nos corais. Eles eram ásperos, firmes — reais. Diferente de tudo aquilo que desejava e nunca poderia ter. Então, observou a eterna e lenta dança do mar e da Lua — um balé antigo, eterno… O mar subia e a lua respondia. Seus movimentos eternos, era preciso, íntimo.

Eles se tocavam sem se tocar, com uma intimidade na qual se entendiam sem palavras.

Pertenciam um ao outro… mesmo separados. O mar a tinha, ele sempre tinha tudo.

Marine desviou o olhar.

Havia algo de cruel naquela harmonia.

Algo que ela não conseguia suportar por muito tempo. Era cruel. Porque tudo ali se tocava, exceto ela.

Seu suspiro lento, derrota e com ele veio cansaço. Não o cansaço do corpo — mas da existência, da sua longa existência.

Marine se preparou para descer novamente, para se perder outra vez nas profundezas onde nada mudava e tudo permanecia igual.

Porém, algo a fez parar: O mar tremeu.

Não foi uma onda.

Foi… um chamado.

Fitando a superfície calma do mar, sentiu leves vibrações da água sendo agitada. O mar estava perturbado com algo. As águas vibraram ao seu redor, tensas, inquietas, como um coração que bate rápido demais antes de algo irreversível acontecer. Então, ela sentiu: O mar estava… faminto.

Sem pensar, mergulhando rapidamente, Marine tentou procurar o que nem mesmo ela sabia do que se tratava. As profundezas a engoliram novamente, mas agora não havia paz nelas — havia urgência.

Algo estava errado, muito, muito errado.

Seus olhos cortaram a escuridão até encontrarem… até que ela o viu…

Uma criança, um pequeno garoto humano. Ele se debatia dentro da água salgada, para assim poder voltar de volta para a superfície. Seu corpo lutava contra a água, braços descoordenados tentando empurrar o impossível, tentando alcançar uma superfície que parecia se afastar a cada segundo. Bolhas escapavam de seus lábios, como se a vida o deixasse lentamente.

Seu peito se contraía.

Seus movimentos… enfraqueciam.

Marine parou, flutuando entre as correntes frias do oceano, e seus olhos se fixaram naquilo que, por um instante, parecia impossível de compreender: o garoto. E então ela entendeu. O mar o havia escolhido. Era assim que funcionava. Sempre. O oceano tomava, sem piedade, sem hesitação, sem retorno, e ela… ela sempre assistia, impotente, como uma espectadora de algo que jamais poderia mudar. Porque humanos não importavam. Não depois do que fizeram. Não depois do que haviam arrancado dela, deixando cicatrizes invisíveis que o tempo jamais curaria. Mas então… por que aquilo doía? Por que havia algo se apertando dentro de seu peito vazio, como se um órgão morto tentasse, desesperadamente, lembrar como era bater?

Com cuidado, aproximando-se lentamente, enquanto o pequeno corpo já não se debatia mais e começava a afundar dentro da água salgada, dentro do escuro e vazio mar, assim como o coração da sereia. Então, a criatura mitológica entendeu o porquê do mar estar agitado, ele levaria uma alma. Marine sempre teve uma aversão pelos humanos, desde que eles arrancaram-lhe algo preciso. Mas, naquele momento, ela não se sentiu satisfeita ao ver aquela criança sofrer em agonia, ao contrário, sentiu o seu coração doer. Tocou o rosto do menino com suavidade, Marine viu a vida do garoto sendo ceifada diante dos seus olhos.

O garoto não lutava mais. Seu corpo, pequeno e frágil, cedia ao peso do mar, afundando lentamente, rendendo-se à força invisível que o puxava para o abismo. Cada movimento que ele deixava de fazer era uma punhalada no coração de Marine. Cada respiração ausente se tornava um lamento silencioso no ritmo do oceano. Tudo ali parecia engolir-se sozinho, como se a vida fosse apenas uma lembrança efêmera destinada a desaparecer.

Marine se moveu. Primeiro devagar, quase em câmera lenta, como se cada gesto exigisse dela toda a energia restante em seu corpo. Depois, mais rápido, impulsionada por algo que não reconhecia — urgência, desespero, um lampejo de humanidade esquecida. Seus dedos, frios e escamosos, tocaram o rosto do menino. Frio, mas vivo. Suave, mas impossível de soltar. E então, de repente, ela viu. Seus olhos. Azuis. De um azul que não pertencia a aquele mundo pesado e escuro, um azul tão puro que parecia feito de céu e amanhecer, de luz que não poderia ser capturada. E naquele instante, tudo que Marine pensava que havia perdido ressurgiu: a consciência de sua própria humanidade, a capacidade de sentir, o peso do cuidado e da empatia que ela havia escondido de si mesma por séculos.

Ela sentiu seu peito arder, embora já estivesse acostumada à ausência de calor. O ar, mesmo submersa, parecia pulsar ao redor dela, trazendo a lembrança de algo antigo e impossível de ser alcançado. A água ao redor se agitava, não por correnteza, mas pela força daquilo que ela sentia: uma mistura de medo, desejo, proteção e desespero que se misturava em seu corpo inteiro. A fragilidade do garoto, sua confiança silenciosa, a vida que escapava — tudo isso se tornou uma corrente invisível que a puxava, quase consumindo-a.

Marine não podia deixar que ele partisse. Não assim. Não tão jovem, tão inocente, tão humano. E, naquele instante, ao tocar sua pele, ela soube que o que o mar havia escolhido não era apenas ele… mas também o que ainda existia dentro dela, aquilo que ela julgava perdido para sempre. Ele era jovem demais para morrer e ela se culparia por toda a sua vida por deixá-lo ali.

Marine segurou o pequeno corpo contra si com uma força desesperada, como se pudesse protegê-lo de tudo — do peso do mar, da solidão infinita, de tudo que ela própria havia perdido. A água ao redor parecia se prender ao seu movimento, tornando cada braçada mais lenta, mais densa, como se o oceano soubesse o que ela estava prestes a fazer e tentasse detê-la.

Desejando salvar aquele garoto, não se importou com as consequências que viriam, pois sabia que salvar tinha um preço — ela riu amarga — Sempre teve. Ela sabia. Sentia em cada fibra de seu ser, em cada escama que refletia a luz da lua, em cada batida irregular do coração que não mais reconhecia como seu. O mar não esquece. O mar não perdoa. Mas o que restava nela que ainda pudesse ser tomado? Se já vivia na ausência de tudo, se já era, por si só, um vazio que o próprio oceano julgava insuficiente? Então a resposta era óbvia: ela não tinha mais nada a perder.

Marine sentiu a hesitação queimando dentro dela. Seus dedos, tremendo, pousaram sobre o peito do garoto. Hesitação. Medo. E algo mais — um lampejo de esperança, tão fugaz que quase se confundia com a própria água ao redor.

Ela fechou os olhos. Respirou, mesmo sabendo que estava submersa, como se o simples ato de inspirar pudesse lhe dar forças para o impossível. E então escolheu perder. Escolheu se entregar ao que jamais poderia controlar. Em um gesto lento e receoso, a sereia espalmou com uma mão o peito da criança, enquanto ela o puxava carinhosamente para os seus braços. Se inclinou lentamente, com a delicadeza de uma folha levada pela correnteza, e seus lábios tocaram a testa fria da criança.

E então, aconteceu.

A luz nasceu. Verde. Suave. Antiga. Como se o próprio mar tivesse guardado aquele brilho há séculos, esperando pelo instante exato. Era uma luz que explodiu, na qual não brilhou com violência. Ela… fluiu. Como algo sendo entregue com reverência. Como algo sendo arrancado sem dor, mas deixando um vazio que reverberava em cada escama, em cada batida do que restava de seu coração. Era um adeus sem palavras, uma doação que não poderia ser compreendida nem sentida, senão pela profundidade do gesto.

Marine sentiu cada fragmento de energia deixou seu corpo, escorrendo, fluindo, esvaindo-se como areia fina entre os dedos, como a própria vida sendo trocada por vida. E ainda assim, ela não parou. Apertou o garoto mais contra si, como se aquele contato pudesse manter unido o que a luz e a magia do mar começavam a separar. Nadou para cima, com urgência, desespero, e uma precisão quase irracional — como se cada braçada fosse uma luta contra algo que ela mesma desafiara, como se o oceano estivesse a testando, exigindo-lhe a entrega completa.

E então, finalmente, a superfície. Chegou a tempo da criança tossir toda a água salgada que havia engolido e inspirando com desespero o oxigênio. Ele tossiu, engasgou, arfou — e, por um instante que pareceu durar uma eternidade, Marine sentiu seu próprio corpo vibrar com aquela vida retornando. Um calor estranho percorreu seus braços, como se ela pudesse sentir a essência dele misturada à própria água ao redor, como se aquela respiração, aquele pequeno fio de existência, fosse a única âncora que ainda ligava algo de real dentro de si.

Marine apoiou o pequeno corpo sobre os corais, com um cuidado quase reverente, como se temesse que até o toque pudesse desfazer aquilo que acabara de salvar. Seus olhos permaneceram fixos nele, atentos a cada movimento, a cada suspiro irregular, enquanto o ar finalmente invadia os pulmões do garoto com urgência, com fome, com vida.

Ela observou o tremor que percorria seu corpo frágil, o leve bater de dentes, os dedos se contraindo contra a pedra úmida. Não sabia dizer se era o frio do vento noturno ou o eco do medo ainda preso em seu peito. Talvez fosse ambos. Talvez fosse algo maior — o choque de ter estado tão perto do fim.

Mas então… ele a olhou.

E naquele olhar, Marine sentiu algo que não reconhecia mais.

O garoto a fitava com devoção. Não havia medo. Não havia horror, ele sabia o que ela era, havia visto dezenas de pinturas e gravuras de seres como ela pelos livros empoeirados do castelo. Então, era apenas admiração — pura, inteira, quase sagrada. Mesmo sendo tão jovem, havia reconhecimento em seus olhos. Como se ele soubesse. Como se já tivesse sonhado com aquilo antes. Como se ela não fosse um monstro… mas um milagre.

— Você salvou a minha vida… — disse ele, com dificuldade, a voz falhando entre respirações ainda descompassadas.

Lentamente, com um esforço visível, ergueu a mão trêmula em direção a ela. Marine não recuou. Não conseguiu. Seus olhos acompanharam cada centímetro daquele gesto até que, finalmente, os dedos dele tocaram sua bochecha escamosa e fria. Mas ela era real.

— Diga-me, você… é uma sereia de verdade?

O toque foi como um choque silencioso. Algo dentro dela se contraiu, se despertou — um coração que há muito tempo não sabia mais como reagir. Marine não esperava por aquele toque e muito menos que ele soubesse o que ela realmente era, não esperava ser vista.

— Sou… — respondeu ela, e sua voz saiu suave, quase como um canto levado pelo vento.

Não era a primeira vez que falava com um humano. Mas era a primeira vez… que não doía.

Os olhos do garoto se arregalaram, brilhando com uma surpresa quase luminosa. Marine se viu presa naquele azul — tão limpo, tão puro, tão distante da escuridão que ela conhecia. Não havia malícia. Não havia ganância. Apenas inocência… e algo mais. Algo que ela não ousava nomear.

Ele era diferente.

Contudo, Marine também sabia… que o tempo muda tudo. Que até o mais puro dos corações pode ser corrompido. Os humanos eram assim por natureza, afinal.

— Você me salvou — disse ele, agora com mais firmeza, embora ainda ofegante. — Peça-me o que quiser… e eu lhe darei.

Ela se aproximou um pouco mais, apoiando a mão nos corais, inclinando-se levemente, como se tentasse compreender aquela promessa impossível. Um humano oferecendo algo a ela…

Marine soltou um suspiro leve e disse:

— Não conte a ninguém sobre mim.

Era um pedido simples e direto. Mas era tudo o que ela precisava.

O garoto a olhou… e então sorriu. Um sorriso pequeno, um sorriso simples que revelava suas covinhas, mas cheio de certeza. Ele levou a mão ao peito, em um gesto que parecia aprendido — nobre, respeitoso — e fez uma leve reverência.

— Tem a minha palavra — disse ele. — Eu não contarei.

E, de alguma forma… ela acreditou.

Virou-se então, de maneira abrupta, como se temesse permanecer ali por mais um segundo, pronta para voltar para a casa, pois o seu serviço fora concluído, ela salvou a criança e agora poderia voltar para a escuridão. Já havia feito demais e sentido demais. Aquilo era perigoso.

Precisava ir.

Precisava voltar para o silêncio, para a escuridão, para o vazio onde nada doía.

— Por favor! — a voz dele a alcançou antes que pudesse partir. — Diga-me como se chama!

Marine parou.

Por um instante, apenas o som do mar existia.

— Marine… — respondeu ela, ainda de costas. — E o seu, pequena criança?

Para Dominic, aquela voz não era apenas som. Era música. Era algo que ele desejaria guardar para sempre, como um segredo precioso.

— Dominic Macchel.

O nome pareceu ecoar na água.

Ele observava seus cabelos, longos, ondulantes, como fios de mel derretido dissolvidos no oceano. Havia encanto em seu olhar. Havia algo que ele ainda não entendia… mas sentia

— Eu… vou te ver de novo, Marine? — perguntou, hesitante, como se temesse a resposta.

Ela se virou lentamente.

Seus olhos encontraram os dele mais uma vez — e ali estava novamente aquela expectativa, aquele brilho… aquela fé inexplicável..

— É o que deseja? — perguntou ela, em voz baixa.

Assentindo com a cabeça, ele sorriu com empolgação.

— Sim!

Marine aproximo-se lentamente. Delicadamente. Como se cada gesto fosse uma escolha.

Segurou a mão do garoto entre as suas, tão maior, tão fria — e ainda assim, cuidadosa. Então, inclinou-se e depositou um beijo suave em sua palma.

A luz nasceu novamente: verde, suave e quente.

A luz esverdeada esverdeada cobriu aquela pequena mão. Dominic sentiu o calor se espalhar por sua mão, subindo lentamente, como se algo vivo tivesse sido deixado ali.

Sentindo-se ligada a aquela pequena criança, Marine acariciou seus cabelos cor de areia, passando os dedos com uma ternura que ela não lembrava possuir. Seus olhos permaneceram nos dele, absorvendo cada detalhe, como se tentasse gravá-lo em sua própria existência.

E, pela primeira vez em muito tempo, seu coração pareceu aquecer.

— Farei como deseja… — sussurrou ela. — Não se esqueça de mim, pequeno Dominic.

E beijou sua mão mais uma vez..

— Não me esquecerei! — respondeu ele, com uma convicção que não pertencia à sua idade.

Marine sorriu.

A muito tempo não sorria, nem ao menos se lembrava qual era a sensação. Quase estranho em seus próprios lábios.

Mas agora ela estava ali, permitindo-se deixar um sorriso desenhar em seus lábios cheios. E era real.

E por um instante… ela não era apenas uma criatura do mar.

Então, vozes.

Distantes. Aproximando-se.

O mundo humano a chamava de volta à sombra.

Sem hesitar, temendo ser vista, em um gesto rápido, Marine mergulhou de volta para o fundo do mar. Desaparecendo como se nunca tivesse estado ali.

Enquanto nadava de volta à escuridão, levou a mão ao peito — naquele espaço onde o coração deveria estar — e sentiu algo novo. Era algo inquieto e vivo

E o rosto do garoto… permaneceu, perfeitamente desenhado em sua memória.

Na superfície, Domic gritou por ajuda, clamando por socorro. Os guardas que estavam ali perto correram até ele, retirando-o dos corais, envolvendo-o em mantos, fazendo perguntas apressadas:

“— Como chegou aqui?“

Ele hesitou em responder.

Olhou para o mar.

E então mentiu.

“— Eu… eu nadei.”

Mas todos sabiam que era mentira, pois o príncipe Dominic… não sabia nadar.

[...]

Marine voltou na noite seguinte, movida por algo que não compreendia completamente, mas que a puxava com uma insistência silenciosa para a superfície. Não era apenas curiosidade, tampouco um simples capricho passageiro. Era como se, no instante em que havia salvado aquela pequena vida, tivesse deixado escapar algo de si mesma, algo que agora a chamava de volta, como um eco distante que se recusava a desaparecer. E assim, noite após noite, ela retornava, atravessando as águas densas e antigas, emergindo sob a luz fria da lua, sempre com o mesmo olhar voltado à margem, sempre esperando encontrá-lo ali.

E, nas primeiras noites, ele estava.

Dominic a esperava entre os corais, frágil e pequeno diante da vastidão do mundo, mas ainda assim cheio de uma vida que parecia impossível de existir naquelas águas. Ele falava, e suas palavras fluíam como algo leve, quase etéreo, descrevendo um mundo que Marine jamais conhecera — céus que mudavam de cor, ventos que carregavam calor, dias iluminados por um sol que ela só podia imaginar. E ela ouvia. Em silêncio, sempre em silêncio, absorvendo cada detalhe como se estivesse tentando guardar dentro de si algo que sabia, no fundo, que não poderia manter.

Com o passar dos dias, aquela ligação invisível se tornava mais densa, mais presente, como uma corrente que os unia sem que nenhum dos dois percebesse completamente sua profundidade. Marine, que por tanto tempo existira apenas na ausência, começou a reconhecer algo novo crescendo dentro de si — um apego silencioso, um cuidado que não pedia permissão para existir. E, pela primeira vez em muito tempo, a escuridão dentro dela pareceu recuar, ainda que de forma breve, ainda que de forma frágil.

Mas o mar observa.

O mar espera.

E o mar nunca esquece.

Na noite em que ele não veio, algo já estava errado antes mesmo que Marine pudesse compreender. Havia um peso diferente na água, uma densidade quase sufocante que tornava cada movimento mais lento, como se o próprio oceano a alertasse, ou talvez a preparasse. Ainda assim, ela esperou. Seus olhos permaneceram fixos na linha onde o mundo se dividia entre o ar e o mar, como se, a qualquer instante, ele fosse surgir novamente, sorrindo, trazendo consigo mais histórias, mais fragmentos de um mundo que não lhe pertencia.

Mas ele não veio.

E então ela voltou na noite seguinte.

E na outra e na outra.

O tempo, para ela, não tinha pressa, mas ainda assim cada ausência se acumulava como um peso crescente, como uma certeza que se formava lentamente, cruel em sua inevitabilidade. A promessa dele — “estarei aqui amanhã” — começou a ecoar em sua mente, não mais como algo doce, mas como um sussurro vazio, desprovido de significado, frágil demais para sobreviver à realidade.

Dominic Macchel não voltou.

E, aos poucos, Marine compreendeu.

Não houve despedida. Não houve explicação. Não houve sequer a gentileza de um último olhar. Ele simplesmente seguiu, como humanos sempre fazem, levado pelo fluxo de suas próprias vidas, deixando para trás aquilo que não conseguem carregar. E ela… ela permaneceu.

Porque diferente dele, Marine não tinha para onde ir. Não havia outro mundo. Não havia outro tempo. Não havia esquecimento. Apenas testava-lhe memória… E a memória, para alguém como ela, não era um refúgio.

Era uma condenação.

Ela se lembrava de tudo. Do som da voz dele, leve e desajeitada, das palavras que se atropelavam quando ele se empolgava, do brilho impossível em seus olhos — um azul que parecia pertencer ao céu que ele tanto descrevia. Lembrava, acima de tudo, da sensação.

Do calor..

Aquele calor estranho, quase doloroso, que havia surgido dentro dela sem aviso, como uma chama frágil que ousou existir em um lugar onde nada deveria arder. Por um instante, um único e pequeno instante, Marine havia sentido algo que se aproximava da vida, algo que rompia com o vazio constante que sempre a definira.

E então… aquilo lhe foi arrancado.

Não de forma abrupta, mas de maneira silenciosa, inevitável, como tudo que o mar decide tomar para si.

O vazio retornou. Contudo, não era o mesmo vazio de antes. Esse era maior, mais profundo e cruel. Porque agora havia comparação.

Um peso se formou em seu peito, um lugar que por tanto tempo fora apenas ausência, mas que agora doía como se algo tivesse sido rasgado dali, como se algo tivesse existido… e sido perdido.

Marine levou a mão ao próprio corpo, como se pudesse encontrar ali o que lhe faltava, como se pudesse recuperar aquilo que nem sabia que ainda possuía até o momento em que deixou de existir.

E então, finalmente, ela entendeu: Não era apenas o garoto que havia desaparecido. Era aquilo que ele havia despertado nela. Era a parte de si que ousou sentir.

Sentiu algo escorrer por sua face, algo diferente da água que sempre a envolvera, algo mais pesado, mais denso, carregado de um significado que ela não conhecia completamente, mas que reconhecia, de alguma forma, como dor. E, naquele instante silencioso, perdido entre a superfície e as profundezas, Marine chorou.. Mas, até mesmo aquilo não lhe pertencia.

O mar tomou.

Lentamente, como alguém que não tem mais forças para resistir, Marine deixou seu corpo afundar outra vez, permitindo que as águas escuras a envolvessem completamente, que o silêncio antigo a recebesse de volta como sempre fizera. Ali, nas profundezas onde a luz não alcança e onde o tempo não toca, não havia espaço para aquilo que ela havia sentido. Não havia espaço para calor. Não havia espaço para memória que machuca.

Apenas escuridão.

E no fim, a verdade permaneceu, simples e imutável como as correntes do oceano:

Ela havia roubado do mar.

E o mar, em sua paciência infinita, cobrou com precisão cruel.

Levou aquilo que ousou nascer dentro dela.

Aquilo que ousou existir, ainda que por um instante breve demais para ser salvo… Seu coração.

❖❖❖
Apreciadores (6)
Comentários (2)
Postado 09/10/21 19:33

Srta. Angel, que conto mais lindo!

Sua forma de escrever é extremamente cativante e doce!

Adorei o modo como a sereia salvou o menino e como eles sentiram essa ligação!

Porém no final, eu realmente fiquei com a impressão de que o menino morreu. Ele não teria esquecido ela... Não poderia...

Vou acreditar na morte dele, em vez de acreditar que ele a magoou de propósito...

Seja muito bem-vinda a Academia de Contos! Espero muito que goste daqui <3

Postado 19/10/22 18:33

Final de uma pressuposta tragédia? ou teria ele cedido a um amor terreno? Lindo texto

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