"Algumas luzes só existem para serem vistas de longe".
Os olhos cor de amêndoa fitavam o céu noturno, enquanto uma leve brisa beijava-lhe a face e balançava graciosamente seus cabelos ruivos. O campo florido era banhado pela luz prateada da lua, enquanto inúmeros vagalumes voavam livremente pelo local. Era como se pequenas estrelas cintilantes dançassem ao seu redor.
Os olhos sonhadores observavam aqueles pequenos astros com profunda admiração. Seu tolo coração se preenchia de uma doce paz diante daquela magnífica visão. Era como voltar a ser criança outra vez.
Suspirando profundamente, a jovem levou a mão até o cordão que envolvia seu pescoço, apertando-o delicadamente entre os dedos magros. Por um instante, sentiu-se novamente como a menina que um dia fora.
O suave som de passos esmagando as flores pôde ser ouvido ao longe, misturando-se ao canto dos grilos em sua cantiga noturna.
— Elas estão magníficas esta noite, não acha? — perguntou uma voz suave atrás de si. Aquela voz calma e familiar.
Então, ela abriu os olhos. Por um instante, seu coração pareceu esquecer como bater e todo o sangue de seu corpo parecia ter gelado.
— Estão, sim — murmurou a jovem em um fio de voz, sem tirar os olhos do céu.
O vento trouxe consigo o perfume das flores e o eco de uma memória antiga. Ela sentiu o peso de uma presença conhecida se aproximar, mas não virou o rosto. Não precisava. Ela conhecia aquela voz melhor do que a sua própria. A voz que se fazia presente em todos os seus sonhos.
— Você sempre as amou — continuou a voz, agora mais próxima. — Lembro-me de quando você tentava alcançá-las com as mãos, como se pudesse colher estrelas.
Passos se cessaram sobre a relva. Ela esperou ouvir o som das flores sendo esmagadas sob o peso de alguém, mas nada veio. Seus dedos ainda brincavam com o cordão, traçando o contorno de um pequeno pingente que escondia sob o vestido.
— Eu achava que, se tocasse uma, ela se apagaria... Mas mesmo assim, queria tentar.
— E agora? — perguntou ele, sentando-se ao seu lado na relva molhada de orvalho. — Agora você sabe que elas não se apagam?
Ela finalmente baixou o olhar, encontrando os olhos dele por um breve instante. Na luz da lua, pareciam brilhar como os vagalumes. Assim como havia naquele rosto algo que o tempo jamais conseguira tocar. Seu coração se acelerou e ela sentiu-se atordoada.
— Agora sei que algumas luzes só existem para serem vistas de longe — respondeu, com a voz quase apagada. — E que está tudo bem assim.
Ele não disse nada. Apenas estendeu a mão e, com cuidado, tocou o pingente escondido — uma pequena estrela de prata, desgastada pelo tempo.
— Você ainda usa isso.
— É a única coisa que me lembra que um dia acreditei em milagres — sussurrou ela.
Os grilos continuavam seu concerto. A brisa, agora mais fria, fez os cabelos ruivos dançarem como fogo vivo contra o escuro da noite. E por um longo momento, os dois ficaram em silêncio, assistindo ao balé dos vagalumes, cada um guardando suas próprias estrelas no peito.
Então ele falou, com a voz mais baixa que o sussurro do vento:
— E você ainda acredita?
Ela sentiu o peso da pergunta. Não sobre os vagalumes. Não sobre as estrelas. Sobre ele.
— Quero dizer que sim — respondeu, os dedos apertando o pingente com mais força e sentindo o nó lhe sufocar a garganta. — Mas tem sido difícil.
Ele inclinou a cabeça, como sempre fazia quando queria ouvir mais.
— Por quê?
Ela riu sem graça, enxugando uma lágrima que teimava em escapar.
— Porque milagres não trazem as pessoas de volta. Pelo menos não no mundo real.
O silêncio se alongou. Os vagalumes pareciam dançar mais devagar, como se também escutassem.
Ele virou-se para encará-la. Seus olhos — aqueles olhos cor de mel que ela guardava na memória — encontraram os dela com uma ternura que doía e com uma saudade quase palpável.
— E se eu dissesse que estou aqui?
Ela prendeu a respiração e sentiu os olhos marejarem com a possibilidade, seus lábios tremeram para tentar encontrar uma resposta para a pergunta, mas nenhum som saiu.
— Não agora — continuou ele, com um sorriso suave. — Mas naquela noite. Quando te dei isso. — Ele tocou o pingente novamente, e ela sentiu um arrepio percorrer a espinha e deu um sorriso fraco. — Eu estava aqui. Eu te olhei nos olhos e disse que enquanto você carregasse aquela estrela, eu nunca estaria longe. Lembra?
As lágrimas finalmente caíram. Ela se lembrava. Por Deus! Como ela se lembrava, de cada palavra, de cada gesto. A forma como a lua iluminava o rosto dele enquanto ele amarrava o cordão em seu pescoço, e acariciava seus cabelos. De como ele sorriu para ela uma última vez, antes de montar em seu cavalo e deixá-la para trás.
— Você disse — murmurou ela, com a voz trêmula . — Disse que enquanto eu acreditasse, você voltaria.
— E voltei — ele sorriu, mas havia algo de melancólico naquele sorriso. — Não do jeito que você queria. Mas voltei. Toda noite em que você olha para o céu e sente que não está sozinha... eu estou aqui.
Ela fechou os olhos com força. Sabia que se os abrisse, ele poderia não estar mais ali. Sabia que aquela conversa, aquele toque, aquela presença — tudo era a saudade se vestindo de esperança.
— Eu sei que você não é real — confessou, finalmente. A voz saiu num fio. — Eu sei…
Ele não negou. Apenas continuou olhando para ela com aquele mesmo amor que nunca envelheceu. Aqueles olhos gentis e cansados. Olhos que ela nunca se esqueceu.
— Então por que ainda usa o pingente?
Ela abriu os olhos. As lágrimas embaçavam sua visão, mas ela conseguiu enxergá-lo ainda ali — quase transparente, como fumaça prestes a se dissipar. Não… aquilo era doloroso demais.
— Porque é tudo o que me resta de você — respondeu. — E porque... porque se eu tirar, vou ter que aceitar que você nunca vai voltar de verdade. Você nunca mais voltará pra mim.
Ele estendeu a mão e tocou sua testa. Ela sentiu um frio leve, como o vento que passa antes da chuva.
— Mas você sabe que já aceitou, não sabe?
Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos mais uma vez, sentindo as lágrimas escorrerem.
— Eu passei tanto tempo esperando — sussurrou. — Tanto tempo rezando por um sinal. Por um milagre. E agora, quando finalmente te vejo... você é só uma memória. Estou delirando, não estou? Então foi isso... finalmente cedi à loucura?
— Não sou só uma memória — ele disse, e a voz gentil e que ela tanto amava, como um eco. — Sou a prova de que você amou. De que foi amada. E isso nunca vai ser uma memória. Isso é real.
O vento soprou forte. Os vagalumes se espalharam como estrelas fugitivas. E quando ela abriu os olhos, o lugar ao lado dela estava vazio.
— Eu sinto a sua falta, eu sinto tanto a sua falta, papai…
O silêncio do campo pareceu congelar o tempo por alguns segundos. Ela permaneceu imóvel, o peito subindo e descendo em arfadas curtas, enquanto a sensação daquele toque ainda parecia aquecer sua testa. O vazio na relva ao seu lado era absoluto, mas já não pesava como antes.
A jovem respirou fundo, deixando que o ar frio da noite preenchesse seus pulmões, e baixou o olhar para a palma da mão. O pingente de estrela repousava ali, brilhando sob o luar. Ela sorriu ao lembrar da menina que jurava poder colher estrelas.
Não, os milagres não eram como nos contos de fadas — eles não desfazem a saudade e nem traziam quem já se foi. Mas ela percebeu, ali no meio daquela imensidão, que o verdadeiro milagre já tinha acontecido: era a capacidade de amar com tanta força, de carregar um pedaço da luz dele dentro de si e ainda ser capaz de recomeçar.
Ela ajustou o cordão no pescoço, ele já não era mais um peso que a prendia ao passado, mas como um precioso talismã para o futuro.
Olhou para cima. Os vagalumes continuavam seu balé silencioso, subindo em direção ao céu até que suas luzes se misturassem às estrelas verdadeiras. Ela sorriu — um sorriso pequeno, cansado, mas inteiramente verdadeiro.
— Obrigada, papai — murmurou para a noite, com a voz serena e o olhar brilhando de esperança. — Eu prometo que vou aprender a seguir meus próprios passos a partir de hoje.
Ela se levantou devagar, limpando a grama úmida do vestido. Deu um último olhar para o campo iluminado, ergueu a cabeça e deu o primeiro passo de volta para casa. O futuro ainda estava totalmente em aberto, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela estava pronta para vivê-lo.

