O Bunker (Em Andamento)
Aaron Nicholas
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Tipo: Romance ou Novela
Postado: 09/07/24 19:05
Editado: 10/07/24 13:05
Qtd. de Capítulos: 1
Cap. Postado: 09/07/24 19:05
Cap. Editado: 10/07/24 13:05
Avaliação: Não avaliado
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Não recomendado para menores de dezoito anos
O Bunker
Notas de Cabeçalho

Quando achar esse texto, leia-o inteiro e então queime. Você entenderá o porquê.

Manuscrito 1 Tédio

Será que algum dia ainda sentirei algum cheiro bom? Na verdade, qualquer cheiro que não seja mofo e suor? Mofo e suor. A mistura satura meu nariz há mais de duas semanas e não parece que estou me acostumando. Talvez o maior contribuinte para esse fedor seja o seu Tabosa, o cinquentão barrigudo que costumava ser o guardinha desse edifício. Ele não sai do sofá velho que tem na sala maior por absolutamente nada. Estou certo que desistiu de viver. Mas posso culpar o homem? Seja lá quem foi o imbecil que construiu esse lugar o fez de tal forma que possibilitou apenas nossa sobrevivência. Faz um calor infernal aqui. E coloco enfâse em "sobreviver", porque é impossível viver aqui. Estamos encarcerados aqui. Todos nós. Negamos a morte sem saber que nunca mais viveríamos de um jeito ou de outro.

Enquanto escrevia, observava pelo canto do olho o tal do Fábio - um rapaz magricela e de cabelos encaracolados que entrou por último- tentar abrir uma lata de cenoura em conserva enferrujada com uma faca de cozinha. Quando estava quase conseguindo alargar o buraco da tampa, a faca escorregou e acertou a mão que segurava a lata. Ele soltou os dois objetos e contorceu o rosto com dor, mas não gritou. Depois, ficou olhando momentaneamente a ferida para logo depois chupa-la. Mas ele não estava fazendo aquilo para aliviar a dor e percebi logo que estava sugando o próprio sangue. Após alguns segundos, ele percebeu que eu o observava e me encarou. Seria de se esperar que ele demonstrasse embaraço, surpresa ou até raiva, mas seu rosto não tinha expressão. Ele apenas olhou através de mim. Naquele momento, senti como se as outras pessoas não estivessem realmente aqui e que estava sozinho com ele. Depois de um periodo de tempo que não sei precisar, ele se levantou e foi para um dos quartos sem eletricidade, sem demonstrar mais ineresse pela lata.

Esse cara me preocupa; falei mais de uma vez que não deviamos ter deixado ele entrar e que deviamos achar uma forma de nos livrar dele. Mas ninguém me escuta. Aparentemente, não sou solidário e empata o suficiente.

-Tem que ter um jeito... - disse Raquel.

-Por favor. - Interrompeu Álvaro. - Chega de tocar nesse assunto.

-Mas precisa ter! Não podemos ficar aqui para sempre.

-E quem disse que eu quero ficar aqui, caralho?! Todo mundo quer dar no pé, mas só o exército pode nos tirar daqui.

-Mas deve haver outra saída, não é possível que foram tão negligentes ao ponto de construírem uma única.

-Será? - Perguntei com ironia enquanto me virava para ela. Ela não respondeu, mas se limitou a me fuzilar com os olhos. Ela não gosta de mim. Eu não gosto dela.

Larissa foi para junto de Raquel e pôs uma mão no seu ombro; disse:

-Já procuramos em todo canto, não tem outra saida. Você sabe disso...

-Temos que procurar de novo! Temos que reagir! Temos...

Raquel desabou e começou a chorar. Larissa a abraçou.

-Rafael, alguma noticia do exército? - indagou Álvaro.

-Não. Nenhuma. O telefone ainda funciona, mas ninguém responde. Precisamos ser pacientes, eles devem estar muito ocupados. Afinal, não somos os únicos sobreviventes.

Enfim, esse bunker não foi bem projetado e nem sequer terminaram de construí-lo. Não há nada para recreação aqui, salvo dois baralhos de cartas que Álvaro por acaso tinha consigo quando veio para cá. Tudo é tedioso e estamos muito sedentários. Algumas paredes são de concreto puro e erodido e a decoração é mal acabada. Alguns pontos não tem energia e me parece um milagre que esse telefone de emergência - nossa única esperança de sobreviver, diga-se de passagem - foi devidamente instalado e ainda funciona. Comida não é uma preocupação, porque temos bastante. Mas há um detalhe: toda a comida comestível são de latas em conserva da década de 60. Possuímos muita água guardada, mas ela não vai durar mais do que um mês e não confiamos no sistema de filtro de esgoto do abrigo. Como já constatado, só havia uma saída, mas a escada que levava ao edifício acima de nós desabou quando uma bomba explodiu nas proximidades e chacoalhou tudo. Nenhum de nós parece doente, mas a essa altura estou começando a duvidar que a blindagem de radiação realmente funcione.

Os dias foram todos iguais, e apenas os relógios e rostos cansados marcavam a passagem do tempo. O que penso eu de tudo isso? Não penso em nada, do contrário teria enlouquecido. Quero sobreviver, mas também não sou um sonhador. Talvez seja por isso que ninguém aqui goste muito de mim, porque, nessas situações, as pessoas se dividem em dois grupos: os desesperados e os otimistas; um quer desistir de tudo e o outro quer fazer tudo. Uns são Tabosas, outros são Raqueis. Mas aqui estou eu. E eu não sou nada disso. Rafael esfrega suas olheiras e discute possibilidades com Álvaro, e este enxuga o suor de sua cabeça careca com um lenço encharcado. E enquanto isso eu escrevo em folhas imundas e amareladas de um caderno-agenda de 1964 sobre essas coisas, porque algum dia, talvez, arqueólogos do futuro achem esse relato. Caramba! Não estou sendo eu otimista agora? Estou supondo que a humanidade ainda vai existir no futuro!

-Existe outra saída.

Todos nos sobressaltamos e olhamos para seu Tabosa.

-E-existe? - Gaguejou Raquel.

"É isso." Pensei comigo, "ele vai sugerir que usemos as cordas em nossos pescoços."

-Há sim uma saída, mas fica nos níveis inferiores.

-Níveis inferiores?! - Álvaro levantou com um salto.

-Sim. Esse abrigo foi projetado para acomodar perto de duzentas pessoas. Há uma passagem aqui em algum lugar.

Eu estava prestes a perguntar para aquele imbecil porque ele esperou esse tempo todo para contar aquilo, mas não tive a oportunidade porque todos estavam agitados. Eles praticamente cercaram o homem e o bombardearam de perguntas. Tabosa finalmente se levantou do sofá e disse com um entusiasmo de quem acorda cedo nas segundas-feiras:

-Vamos.

Todo mundo o seguiu, inclusive eu. A procura deve ter demorado uns vinte minutos e ninguém sabia exatamente o que ele estava tentando achar. Até que, finalmente, num dos quartos no fundo do corredor baixo, enterrada debaixo de uma montanha de tubos plásticos podres, encontramos a porta de concreto de um alçapão. Foi difícil abrir porque as dobradiças estavam terrivelmente enferrujadas e a porta não era lá muito leve, de tal forma que eu, Álvaro e Rafael tivemos que puxá-la juntos. Era um breu completo lá em baixo, a luz das lanternas não chegava a iluminar o fundo direito. Mas foi possível divisar alguns objetos avulsos aqui e ali.

-Como é essa saída, seu Tabosa? - perguntou Rafael.

-Eu não sei. Mas ela existe e leva direto para a superfície.

-E como tem tanta certeza que ela existe? - perguntei eu.

-O homem que construiu esse edifício era um empresario que vivia viajando para o exterior. Naquela época da crise dos mísseis ele ficou paranoico que o Brasil pudesse ser atingido por bombas atômicas, ainda mais depois que os militares chegaram ao poder e se alinharam com os Estados Unidos. - Ele falava tudo isso com uma voz mecanica. - Ele nunca terminou porque os investidores achavam que fosse um elefante branco. Então as obras pararam. Mas ele queria garantir que tudo ocorresse bem e levou em consideração o cenário da saída principal ser bloqueada, então é certo que há uma saída.

-Espere aí - disse eu - então quer dizer que você não tem certeza se essa saída foi terminada?

-Ian! - Larissa me cutucou.

-Há uma saída - Tabosa disse enquanto se virava e voltava a passos lentos para a sala maior.

-Há uma saída - Raquel disse enquanto olhava para mim com aquela cara cinica dela. Fiquei com vontade de empurrá-la para dentro daquele buraco, mas me contive.

-Ian tem razão - disse Álvaro - não há garantias que realmente tenham feito essa segunda saída.

-Mas podemos descer lá e ver por nós mesmos, não custa tentar. - Objetou Raquel

-Sim, mas não sabemos o que tem lá embaixo. Pode ser perigoso.

-Por que seria perigoso? Só nós estamos aqui e temos lanternas.

Não sei explicar bem porque, mas essa constatação: "Só nos estamos aqui" me gelou o sangue.

Discutimos a respeito e, no final, todos concordamos que desceremos lá embaixo amanhã. Não há nenhum jeito de descer, então teremos que usar as cordas para isso.

Agora, enquanto escrevo isso antes de ir dormir, percebo que Fábio não estava lá quando abrimos o buraco. Só espero que esse merdinha e o Tabosa não estejam planejando nos prender lá embaixo para ficaram com toda a comida e água só para eles.

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