Quem dera fosse o Hércules
Renan Magalhães
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 26/02/16 15:56
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 7min a 10min
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Palavras: 1269
[Texto Divulgado] "A sociedade mata por " Torturando três garotas, Lobo Negro faz elas sentirem na pele as agonias da alma e mostrando os monstros da sociedade em que se vive.
Não recomendado para menores de dezoito anos
Notas de Cabeçalho

Obrigado pela presença, espero que gostem e boa leitura!

Capítulo Único Quem dera fosse o Hércules

Dez lances de escada inteiros até chegar ao maldito andar do meu apartamento. O elevador estava com defeito, então não havia alternativa a não ser malhar as panturrilhas. Esbaforido e acima do peso, abri a porta de casa como um detento que passa dez anos na solitária. Ele, provavelmente, estaria louco para sair, matar, foder e ver pessoas; eu, para entrar e evitá-las. Talvez foder algumas e matar outras, mas, principalmente, evitá-las.

Joguei a pasta com os documentos do trabalho numa mesa qualquer, dei play na secretária eletrônica — não que realmente esperasse algum recado de alguém — e me afundei no sofá. Dois minutos de completo silêncio e ausência, curtindo meu macio, belo, delicado e confortável sofá. Nada para dizer, nada para pensar. Só estar lá, quieto, sentado, a nada, no nada, por nada, pelo nada. Meu passatempo preferido. Que não durou muito:

Hey, Mike! — o típico cumprimento de Iraque, a me roubar o sossego. — How are you, man?!

Apesar do nome contraditório e de toda ironia do destino presente nisso, Iraque era metido a falar inglês. Só sabia duas ou três expressões da língua, mas contava histórias inteiras sobre como levou americanas gostosas para a cama e fê-las ensinar-lhe tudo o que era possível quanto à fluência e repertório de vocabulários. Fingíamos que acreditávamos, porque era mais fácil concordar.

— Seguinte — ele continuou. — Sexta-feira, já. Bora encher a cara?! Às 20h, Bar do Hércules. Chamar a galera pra se reunir e a gente se encontra lá. Falou, brother!

Por "galera", entenda nós dois e mais Vidigal, um cego barbudo, quase mendigo, que dizia falar com espíritos. Éramos um trio incomum, como dá para presumir. De qualquer maneira, por mais tentador que fosse encher a cara até morrer, eu não estava afim de sair. Queria me trancar em casa com minha preguiça e falta de saco pela humanidade. Talvez rabiscar alguma coisa, assistir algum filme, fazer artesanato. Chupar minha bolas. Nojento, eu sei. No entanto, depois de mais quatro mensagens iguais, acabei pondo um casaco e saindo.

Fazia uma noite fria pra danar. Muita gente na rua, andando pra lá e pra cá. No bar do Hércules, a mesmice de sempre. Não fiz muito esforço para enxergar a bandeira dos Estados Unidos porcamente pichada na camisa de Iraque. Ele sempre usava aquele troço. E bebia com ele. E comia com ele. E dormia com ele. E transava com ele. Transava. Você pode imaginar o cheiro? Pois é.

Ele me avistou e fez sinal para que eu me aproximasse. Quando cheguei perto, Vidigal começou a se estrebuchar na cadeira e a emitir mantras estranhos. Todo mundo — meia dúzia de caras — olhou pra gente procurando entender que porra era aquela. Iraque deu uns tapas em Vidigal e o maluco voltou ao normal. Eu só me sentei e cumprimentei:

— E aí, Vidigal. Você continua… Bem — ironizei.

— Você também, Miguel — ele nem com ele.

O garçom se aproximou e eu pedi uma bebida.

— Legal que veio, Mike — esqueci de dizer que Iraque americanizava também meu maldito nome. Se é que podia chamar aquilo de americanização, já que as palavras sequer se correspondiam. Mas só balancei a cabeça e fiquei quieto. O garçom trouxe minha bebida. Dei um gole.

— E então? — perguntei.

— E então? — disse Vidigal.

— E então? — disse Iraque.

E bebemos e comemos e ficamos em silêncio. Um pouco depois, uma linda morena entrou no bar, acompanhada por um cara vestindo uma daquelas jaquetas de couro legais de motoqueiro. Sentaram-se numa mesa qualquer e fizeram algum pedido.

Iraque, Vidigal e eu bebíamos e falávamos, bebíamos e falávamos, bebíamos e falávamos. Falávamos sobre a semana, bebíamos sobre o trabalho, falávamos sobre as míticas fodas mentirosas que nunca tivemos durante o tempo em que não nos vimos, bebíamos nossas mentiras todas como se bebe um uísque catalão-sumérico-romano benzido pelo papa. As horas passaram, as bebidas e as mentiras se acabaram, e não sei o que diabos aconteceu que um falatório danado começou na mesa da morena.

— Você é um babaca! Nunca mais apareça na minha frente — a vi pegar o casaco no encosto da cadeira e ir embora.

— O caralho, sua cadela! — o cara da jaqueta de motoqueiro a puxou braço e a esbofeteou. — Tá pensando que sou o quê?!

— Vai se foder, cara! — me meti na discussão.

Todo mundo me encarou. O nome do lugar era bar do Hércules. Bem que Hércules poderia ter me emprestado sua força para suportar o soco que aquele cara me deu. Derrubei umas três mesas e fui parar embaixo de uma quarta. Meu queixo doía pra diabos.

What a hell! Are you crazy, man!? — Iraque se meteu, e antes que pudesse terminar de pronunciar o sotaque fajuto, voou quase tão longe quanto eu, lá pra outra extremidade.

Os garçons entraram em desespero, Vidigal culpou os maus espíritos pela desavença e teve um ataque epilético, e, por fim, dois gigantões seguraram o cara, deram-lhe uma surra e o expulsaram do bar. Aos poucos as coisas normalizaram e a morena estendeu a mão pra me ajudar a levantar.

— Obrigada por me defender do Leão, "Hércules" — sorriu de um jeito irônico.

— Na mitologia, acho que era Tigre — esfreguei o calombo no meu queixo.

— Podia ser um urso, por que não? — pensamos uns três segundos na possibilidade e logo desistimos. Definitivamente não era um urso. — Ah, que se foda. Venha. Vamos cuidar desse machucado.

Ela me puxou pelo braço e me guiou até seu carro, de onde tirou uma maleta de primeiros socorros. Não me pergunte o que diabos uma maleta daquela estaria fazendo ali. Até porque, se houvesse alguma batida mais séria, as pessoas morreriam prensadas nos destroços e não haveria tempo para usá-la. Mas até que o curativo me serviu bem.

Conversamos um pouco. Ela me disse que seu nome era Carla, que fazia direito, que sua família morava na Alemanha e que ia pra Europa no fim do ano. Também não me pergunte o que ela estaria fazendo numa espelunca feito o Bar do Hércules, andando com um zé mané de jaqueta de motoqueiro e dando assunto para um gordo, feio e mal-humorado que era eu. Talvez o volume nas minhas calças a tivesse impressionado. Talvez. Não custa sonhar.

Todo aquele papo, a maneira como ela me olhava, sorria e movimentava aqueles lábios me deixou louco. Agarrei-a pela nuca e invadi sua boca num beijo molhado e suplicante por uma boa foda. Ela cedeu ao primeiro impulso e, sendo correspondido, apalpei seu corpo inteiro da melhor forma que sabia. Carla tinha umas tetas maravilhosas e lembro de ter perdido um bom tempo mamando cada uma.

Quando coloquei o cacete pra fora e ela me chupou, meu deus, aquilo foi dos deuses. Ela sabia fazer um bom boquete, sempre estimulando a base e as bolas para só depois tocar na cabeça. Tinha habilidade, técnica, dom. Era quase divino. Calhou que levantei sua saia e a comi ali mesmo, em cima do carro. O alarme disparou, mas ninguém apareceu.

Depois da foda, nos deitamos sobre o capô e ficamos ali, curtindo toda a noite que se expunha para nós. A lua cheia, o céu estrelado, a estação mudando, um frio danado. E ficamos ali. Nada de névoa, nuvem, garoa. Só gente pra lá e gente pra cá, feito formiga, barata ou sei lá o quê. Nossos dedos entrelaçados, telefones trocados, som dos carros, de gente fodendo, e as luzes da cidade ao fundo. Então cansei, voltei pro meu apartamento, morrendo outra vez para subir os dez lances de escada — eu realmente precisava emagrecer —, e dormi pra esquecer aquele soco. Com alguma sorte, não haveria hematomas para me sacanearem no trabalho, no dia seguinte.

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Notas de Rodapé

http://www.contosdearaque.com.br/

Apreciadores (4)
Comentários (2)
Postado 26/02/16 16:08

Lembro quando li esse conto a primeira vez xD

E ri tanto quanto agora. Excelente conto, Renan!

Postado 27/06/16 23:49

É semelhante a Bukowski, concordo. Só não achei assim tão sujo quanto. heh.