Minha eterna expectativa
Monise
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 04/06/21 10:55
Editado: 04/06/21 12:02
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 10
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Palavras: 715
Este texto foi escrito para o concurso "Amor à Moda Antiga" Escreva uma carta que fale sobre amor, seja romântica ou não. Ela deve ser endereçada a alguém (real ou imaginário) e você pode falar sobre que quiser nesta carta desde que seja sobre amor! Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Olá pessoal, para quem se interessar sobre as cartas de amor citadas no texto, seguem os links:

https://rainhastragicas.com/2020/06/12/nao-passa-um-dia-em-que-nao-te-ame-as-ardorosas-cartas-de-napoleao-para-josephine/

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-cartas-sedutoras-dom-pedro-i-marquesa-santos-brasil.phtml

A leitura vale a pena, vocês vão se surpreender...

Capítulo Único Minha eterna expectativa

27 de Março de 1957.

À minha eterna expectativa...

Ah, meu querido...

Das várias cartas que lhe escrevi, esta me parece a mais pesada, talvez, em parte, seja o reflexo das exigências deste novo trabalho...

Ao me deparar com essa imagem me lembrei de ti! Por isso fiz questão de conseguir uma cópia, ela expressa tão bem o que me vai no coração...

É incrível pensar que tantas imagens, sonhos e devaneios podem simplesmente ser reduzidos a uma pequena maleta!

Ah, nosso quarto... Quanto sonhei com ele...

Os lençóis macios e alvos, a fofura dos travesseiros e nós dois nus, aconchegados sobre o peso dos cobertores...

Vem a minha mente, nitidamente o prazer de acordar com o seu cheiro e meu corpo arde e clama pelo calor do seu e pelo toque de seus dedos.

Ah, esses dedos a percorrer todo meu corpo, num toque suave e viril ao mesmo tempo...

Eu mordiscaria seu pescoço, e também percorreria teu corpo e degustaria sua pele e masculinidade, oh saudade...

Adoraria ouvir sua voz languida, ou quem sabe rouca, talvez um sussurro ao pé do ouvido, talvez algumas palavras sem sentido, mas o corpo compreendendo cada uma delas, a umidade me consome... seu nome, nossa história...

Ah, História! Queria ser sua Josephine e estar na expectativa de suprir todos os seus desejos, expressos naquelas cartas que resistiram ao tempo e a nós...

Deixar você explorar meu negro jardim, ter-te todo em mim e nosso amor registrado para a posteridade, ah saudade de viver algo assim...

Ou quem sabe, apesar de considerar piegas e até um tanto quanto ridículo, tal qual Domitila, me tornar sua marquesa e com certeza ser mais importante que um império inteiro! E nossas cartas, ah, essas cartas serem consideradas indignas de sua posição, mas um histórico documento de uma paixão avassaladora...

Esse trabalho está me afetando, eu sei, pois tudo nele me remete a ti e é difícil me concentrar sobre os documentos...

Não sei mais o que dizer, olho a foto, vejo a mala e ela me mostra nosso guarda-roupas, me vejo compartilhando as mínimas coisas da vida contigo...

Acordar com os cabelos desgrenhados, o rosto amassado e seu cheiro em mim.

Talvez iniciasse nossas noites calientes em uma poltrona e corresse seminua pelo quarto, te matando de desejo...

Tórridos beijos, nossas noites cada vez mais deliciosas, saboreando um ao outro, apenas mais uma vez, antes do sono nos arrebatar...

Pela manhã tomaríamos um lauto café e coversaríamos sobre as pequenas coisinhas do dia a dia, cada tristeza ou alegria, nosso amor tornando tudo mais ameno...

Logo viriam os pequenos, posso ver cada um deles pulando em nossa cama e nós ralhando com eles para não destruírem as molas do colchão.

A família crescendo, e cada filho conquistando a independência e a própria vida e nós envelhecendo juntinhos, vendo a casa ficar vazia e silenciosa...

Num domingo eu vestiria aquele vestido rosa, o seu preferido, e você com aquela gravata borboleta ridícula, mas que é sua marca registrada, cada detalhe em ti me fascinando como se fosse a primeira vez...

Sairíamos de braços dados, cabelos prateados ao vento, iríamos tomar um café na confeitaria da esquina e depois caminhar até o nosso restaurante preferido...

Entretanto a mala me lembra que você não veio e vejo meus sonhos e expectativas a se desfazerem como castelos de areia pouco a pouco levados pelo vento! Ah tormento...

Tantas alegrias, tantos prazeres, tantas venturas que queria compartilhar contigo, mas você não veio e infelizmente não foi a um derradeiro encontro ou a um momento decisivo entre nós...

Você simplesmente não veio a minha vida e nunca fez parte de minha história, pelo fato de nunca ter me deparado com você!

Será que morrerei nessa eterna expectativa?

Será que tudo que terei de nós serão somente sonhos e ilusões?

Ardendo no peito a saudade e a vontade daquilo que nunca foi...

Espero sinceramente não findar meus dias em eterna expectativa e quero, sinceramente, poder desfrutá-los dividindo a vida com você...

E agora meu amado, necessito finalizar nossa carta por hoje, amo escrever para ti, mas o dever me chama.

Novos documentos chegaram a Biblioteca Nacional e preciso organizar uma nova exposição...

Não demore muito a vir, quero um dia rir contigo dessas tolas cartas.

Eternamente tua...

Madalena

❖❖❖
Notas de Rodapé

Créditos da imagem de capa:

@olgamokriskaya

https://www.instagram.com/p/CPr0yr5jC5q/?utm_medium=copy_link

Edição em preto e branco por mim.

Amo as miniaturas de época da Olga, são uma verdadeira viagem no tempo...

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Comentários (6)
Comentário Favorito
Postado 05/07/21 21:09

Querida Monise,

Você sempre me leva para universos que nunca pensei visitar, este aqui, é ardente ao extremo, um tipo de ardor que todos amamos e tememos sentir, as conexões históricas que faz em sua obra são formidáveis, a inspiração certa, combinada com talento e técnica, não poderia resultar em nada mais nada menos que esta obra de arte gigantesca!

É incrível como os sentimentos e desejos da personagem parecem tomar posse do corpo do leitor que também deseja, suplica, anseia com toda a carne e toda a alma, uma migalha de prazer, uma migalha de realidade, uma fagulha de vida e que - por Deus - isto venha a ser real!

Madalena é uma mulher cheia de sonhos, com um trabalho que dá muuuuito escopo para imaginação, no lugar dela, eu faria exatamente o mesmo!

Que belíssima carta, fico muito feliz por ter participado do concurso! Boa sorte!

Com carinho,

Uma moça que foi arrebatada pelo amor,

Seis.

Postado 04/06/21 18:35

Com um toque de romance, erotismo, mulheres históricas e o doce amor, Madelena olhou para mim e gritou: eu sou assim, e você também.

Sonhar em encontrar o amor não é novo, porém nunca será velho. Amar e ser amado, tocar e ser tocado, sentir e ser sentido. Essas sensações só serão vividas por completo pelo que o destino lhe reservou. E ela o aguarda, aguarda o homem que foi designado a preenchê-la por inteiro. Não será fácil, porém estamos falando de amor. Algo que nunca foi e de maneira alguma será fácil.

Sua escrita me deixou animada e encantada, me manteve como uma prisioneira lúbrica e no fim, uma detenta triste por me identificar com nossa protagonista. Mas é vida, ela está em busca e do amor e eu também.

Resumindo, gostei bastante.

Beijos, NíngYì

Postado 04/06/21 20:10 Editado 04/06/21 20:11

Ah, Madalena... Quão bela, tórrida, empolgante e desejável é tua (e por um tempo e de certa forma, igualmente minha) expectativa! Certamente uma leitura extremamente deleitável e maravilhosa, até o seu tétrico final pautado na realidade... Ah, esta ponta de adaga na alma foi um soturno golpe de mestre, Srta Monise... Mas, de modo algum diminuí a grandiosidade e beleza deste texto, muito pelo contrário!

Sua narrativa e descrições tornam a carga emocional desta obra um verdadeiro aprendizado em N aspectos, foi uma agradabilíssima surpresa ler esta verdadeira obra de arte! Meus mais sinceros parabéns e muito obrigado por compartilhar algo tão enriquecedor para conosco!

Muitíssima boa sorte no concurso, Srta Monise!

Atenciosamente,

um ser sem mais quaisquer expectativas como as da protagonista.

Postado 10/06/21 07:28

Minha queridíssima Monise,

Apesar do título denunciar (ao menos pra mim) o desfecho da carta, cada um dos parágrafos - é completamente arrebatador e perfeitamente imersivo, de modo que do início ao fim somos Madalena e desejamos, assim como ela, toda a sensualidade e ternura evocada de maneira tão viva por essas suas palavras que, ainda que estejam em prova, carregam a beleza que normalmente é exclusiva à poesia, mesmo sabendo que o fim é inevitável - ou no cruel despertar dos últimos parágrafos, que é cruel também porque encerra a carta (que poderia continuar para sempre), ou na morte, pois uma vida não seria o suficiente para todo esse amor esperado.

Que um dia a eterna expectativa seja realizada, e que sua duração seja também eterna. Parabéns, e boa sorte no concurso (apesar de que, com uma carta dessas, talvez ter sorte seria exagero.)

Postado 12/06/21 10:05

Como sempre suas obras possui um tom marcante, há o romance, leveza e erotismo leve muito bem enroscados, doçura.

Há um pouco de Madalena em todos nós, resumidamente.

Parabéns pela obra!!

Postado 08/07/21 23:37 Editado 08/07/21 23:40

Meu escorreu umas lágrimas aqui~~

Apesar de todo esse calorosos desejo nas linhas finais a triste realidade do momento se abre e destroi o coração do leitor por não serem lembranças e sim devaneios que não sairam do papel, das cartas do peito de nossa adorável protagonista Madalena.

Como você pode fazer isso comigo Monise?! Ai meu coração, Madalena não fique só, mulher~~~~

Eu adorei sua obra que conseguiu me passar tal sentimento de distância e carência do toque, risos, conversa com um alguém tão espécial.

É uma grande honra ter seu texto participando do concurso e que sentimento vivido compartilha com nosco! Muito obrigado, eu amei~~

Assinado uma pequena vampira,

P.S.: eu tive a impressão de que o amado de nossa protagonista teria ido para alguma guerra e nunca volto, é veridico?

Postado 10/07/21 06:33

Oi Shizu!

Não, a Madalena não foi para a guerra não. Só era solitária mesmo...

Estou com a ideia de continuar e enviar uma resposta a carta dela. A ideia está fervilhando desde que postei a obra, quem sabe sai do papel?

Abraços e obrigada pelo carinho!

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