Memória Viva (Em Andamento)
Maria Clara Bruno
Usuários Acompanhando
Tipo: Romance ou Novela
Postado: 05/11/21 18:02
Editado: 25/01/22 09:05
Qtd. de Capítulos: 3
Cap. Postado: 05/11/21 18:02
Cap. Editado: 05/11/21 18:06
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 16min a 21min
Apreciadores: 2
Comentários: 1
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Palavras: 2624
[Texto Divulgado] "Luna Nostra" Um trilionário terráqueo visita velhos amigos de outro mundo em busca de socorro.
Não recomendado para menores de doze anos
Memória Viva

Esta obra participou do Evento Academia de Ouro 2021, indicada na categoria Romântico.
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Notas de Cabeçalho

Olá a todos! Tudo bem?Aos que não me conhecem, muito prazer! Sejam bem vindos à essa estória. Confesso que esse romance é resultado de um antigo desejo de escrever uma estória que se passa no Brasil, entre uma mulher e um homem tão opostos que seriam primeiro grandes amigos. Pensei em inúmeras formas e cenários, desde romances de época (1500 para trás ou para frente, no descobrimento do Brasil mesmo) ou em um cenário de amor platônico, durante a revolução industrial. No fim, acabei me dedicindo em algo mais contemporâneo, que me fizesse levar com mais suavidade todo o enredo. Enfim, acho que esse é meu primeiro romance feito a sério. Espero que aproveitem <3

Capítulo 1 No teatro

Se tivesse só um jeito de fazer, por milagre, que guardasse suas memórias em um canto qualquer, pequeno o suficiente para levar para todos os cantos, ele estaria realizado, com certeza.

Era o que pensava, as costas curvadas para a frente, tortas, enquanto estava sentado em uma das inúmeras fileiras do teatro, todas de cadeiras vermelhas cujo assento se dobrava quando não estavam sendo utilizadas. Encarando uma delas, receava perder o bloco de notas ou a caneta sem querer naqueles vãos; esses tipos de pensamentos paranoicos apareciam as vezes em sua cabeça, cutucando a imaginação, insistentes, irritantes. Segurou mais apertado a caneta, uma força meio desnecessária, mas que acalmava o pobre coração ansioso. Os olhos, enfim menos tensos, focaram no palco. Algumas bailarinas alongavam-se por um curto tempo, os olhos fixos nos próprios passos e na madeira castanha, cor de chocolate estendida ali. O som oco dos passos logo desaparecia quando as sapatilhas eram colocadas. A cabeça de poeta do homem parecia adentrar um portal florido pois, tão logo vestiam as sapatilhas, sua mente viajava para os mais distintos mundos ficcionais, onde via heroínas e vilãs, princesas e sapos, castelos e prados, campinas longínquas e verdejantes. Tudo ali era possível, romântico, belo e ideal, um repouso para seus olhos cansados.

Era o diretor daquele teatro. Sob sua tutela, via-se naquele espaço uma glória e fama, fortuna maior do que a de qualquer outra época; o antigo teatro que antes era mal frequentado agora explodia com o vigor da juventude, e o ar sábio, calmo dos mais antigos que vinham apreciar as obras, quando estavam em cartaz. O diretor, um homem esguio, de cabelos bem pretos até o pescoço, escorridos e mal lavados; olhos fundos e entristecidos, pretos como a noite; e uma coluna torta, sempre voltada para a frente, parecia sempre estar escondendo um segredo. O aspecto cansado exalava preguiça, mas ele era na verdade o homem mais dedicado daquele lugar. Em seu comando, o teatro antigo parecia reviver os dias de glória das décadas passadas. Passar por aquela porta dupla, antes das fileiras de cadeiras, fazia qualquer espectador se encontrar boquiaberto, imerso nos entalhes de madeira que decoravam os cantos, nos pilares altos, o local sem janelas aparentes parecia mais arejado que o exterior, a cidade grande com seus prédios e concreto. Fora um pedido de patrocínio daqui outro dali, e então observou o teatro ganhar forma, ao pagar os favores de seus amigos ricos. Frequentemente eles pediam como favor ao insalubre diretor que admitisse em seu balé suas filhas pequenas, ou moças indicadas sem nenhuma experiência, como forma de ir dando a elas status e algum divertimento no tempo livre. O teatro municipal, sustentado além dos patrocínios pela prefeitura da cidade, apresentava dois ou três espetáculos por ano, apenas, utilizando dos próprios habitantes daquele lugar. Poucas mulheres tinham experiência na dança, e o número de homens naquele recinto se resumia ao diretor durante boa parte do tempo. Entretanto, os rumores diziam que o processo de seleção para o balé era severo e, de fato, era. Não a toa, muitas pessoas interessadas desistiam ao ver o cronograma dos ensaios, especialmente quando observavam a supervisão rígida do diretor.

Ainda assim, esses pequenos espetáculos, sob a tutela daquele homem, faziam mais que o suficiente para agradar à população. Na verdade, logo habitantes das cidades vizinhas começaram a frequentar o teatro, com o pretexto de apreciar o mais belo show da região. Vendo o sucesso, a prefeitura começou um festival de artes e música durante um fim de semana de setembro, logo após o início da primavera. O diretor fora logo chamado para fazer uma apresentação, com músicas e bailarinas vestidas de acordo com as cores das quatro estações: Deveriam estar presentes flores, amores, paixões e todas as cores; mas também o branco, a neve europeia e os tons amenos que apareciam ao longo do ano. Após uma certa insistência e burocracia da secretaria de turismo, os dançarinos e o diretor concordaram com o festival, que se tornou assim a quarta apresentação do balé municipal no ano. Com afinco, os ensaios começaram. E, dessa forma, chegamos ao nosso protagonista, novamente, sentado naqueles bancos vinho.

Observava, os olhos bem estreitos pela miopia, o ensaio das crianças que já havia começado. Como planejado, o espetáculo do festival seria repleto de danças com músicas conhecidas do universo do teatro, com os cenários e figurinos originais, apenas sem continuidade. A ideia era, principalmente, apresentar o corpo de baile, as danças que se tornavam já uma cultura da cidade para os turistas. Quatro meninas pequenas, loiras e morenas, conduziam em harmonia uma dança simples, mas singela. Sendo já um número ensaiado muitas vezes, desde o anúncio do evento, o severo diretor sentia-se com pouco trabalho a fazer. As meninas dançavam bem e, quando cometiam erros, sabiam arrumá-los com rapidez ou eram tão pequenos que não compensavam a bronca, especialmente para crianças. Se levantou então, e caminhou para mais perto do palco, quando elas finalizaram. Em poucos minutos estava ali, olhando para as garotas. Parabenizou-as pelo desempenho e mandou que fossem fazer um intervalo. Uma das meninas saltitou e correu até sua lancheira, de onde tirou um pedaço de bolo e começou a comer, meio escondida atrás de uma das cortinas do palco. As outras três pequenas sorriram e foram se sentar ao seu lado, os sorrisos infantis estampados no rosto inocente. Em contraste com a alegria juvenil das jovens, o diretor parecia uma estátua carrancuda, com os olhos fundos, sem expressão, e a boca fina e nem tensa, nem relaxada, mas sem nem uma amostra de felicidade. Sem empolgação, chamou pelo próximo número.

Ela passou e sorriu, um sorriso calmo. Riu-se das meninas, e cumprimentou cada uma pelo nome, da mais velha para a mais nova, com um aceno de mão. As meninas responderam ao entusiasmo com um sorriso brilhante, mas repleto de migalhas de pão e bolo, que foram ofertados à solista. Ela negou, mas prometeu que na próxima se sentaria junto delas para comer, pois o diretor devia estar esperando. Porém, ao contrário da feição esperada, o diretor tinha olhos voltados para um bloco de notas, vazio.

- Desculpem. – Ele suspirou, os ombros por menos de um segundo relaxando. – Me esqueci de anotar, quem foi agora?

Tinha esse problema, conhecido pela metade pelos voluntários do teatro. Não importa o quanto se esforçasse, o diretor esquecia o que estava fazendo em uma velocidade quase que inumana, e logo precisava de algum auxílio para retornar à memória a atividade realizada, como e com quem. Alguns voluntários, sem paciência, por vezes fingiam que não era sua vez em ordem de descansar um pouco mais. Outros, se sentindo igualmente perdidos, passaram a anotar junto com o diretor quem já havia feito e o quê, pois não confiavam na própria memória também. Enfim, era costume que o diretor tomasse notas em seu bloco de papel surrado, mas dessa vez ele parecia ter se esquecido de tudo.

- Brito, agora sou eu. Quem terminou foram as meninas, viu? Lucimara, Joana, Clarinda e Michele. – Disse a bailarina, terminando de arrumar o cabelo cinza platinado com um coque. – Pode anotar.

Ela era a única que o chamava por aquele nome.

Brito.

A maioria naquele teatro o chamava de “diretor”, por puro hábito. Quem se dirigia a ele por outro nome recebia um olhar tão confuso, e encarava os próprios reflexos naquelas pupilas sem brilho, se intimidando pouco depois. O teatro parecia perder todo o som, e o chão parecia tão leve que flutuaria, causando náuseas. Logo, o indivíduo se corrigia e o chamava de diretor, recebendo apenas um aceno de cabeça, como um “Positivo”. Entretanto, aquela bailarina em especial o chamava pelo nome com tamanha naturalidade, que pareciam conhecidos de longa data ou, como diziam, “de outros carnavais”. Ela não se amedrontava com o olhar vazio que o rapaz lhe dava, e ele não parecia se importar que a mulher mantivesse seu hábito. Prevalecia entre ambos esse singular equilíbrio, essa troca de olhares profissionais de um lado, e brincalhões, leves do outro. Algumas línguas maliciosas do teatro sugeriam levianamente que entre eles existia um caso, ou que a moça era favorecida por alguém da prefeitura, um vereador ou até mesmo que era parente do prefeito. Esses assuntos nunca chegavam aos ouvidos do diretor Brito, que somente acenou positivamente com a cabeça, como sempre, e anotou.

- Você faz a música?... – Disse, sem empolgação, mas sem tristeza. Sua voz soava tão neutra quanto poderia.

- Dance of the sugar plum fairy, Brito. Vou fazer o solo dela. – Ela se dirigiu para o centro do palco. O contraste entre ambos era tão amplo, que se tornava desconfortável observar por muito tempo, a voz alegre e esperançosa se cruzar com um tom desanimado, sem nenhuma alegria.

- Certo... – Anotou no bloco de notas a música, e um referencial para se lembrar da garota. Fez um sinal com as mãos para o técnico de som, que compreendeu a mensagem e, com certo receio, colocou a música dita pela mulher. – Pode começar... – Não terminou a frase, a voz se prolongando com o pretexto de anexar o nome da moça depois de uma breve pausa. Não conseguiu. Não se lembrava de quem era.

- Akemi. Lembra de mim, Brito? Por favor! – Ela disse, quase suplicante, mas seu riso tímido depois da fala mostrou que era uma brincadeira. Reassumiu a pose séria e comprometida do início da dança ao ouvir o suspiro do diretor, que anotou alguma coisa em seu famigerado bloco.

A música se iniciou, depois de um momento de silêncio ensurdecedor. Começava misteriosa, apenas marcando o tempo; a bailarina movia-se sem expressão, focada. Seu corpo expressava o que era necessário, a música correndo por toda veia e todo nervo, movendo cada músculo de acordo com o som do piano que, lento, parecia torturar o próprio relógio, forçando-o a se encaixar em seus desejos e vontades. As pernas de Akemi moviam-se, delicadas e rígidas, seguindo o compasso lento; de um lado a outro do palco, em silêncio. A sapatilha de ponta, como se tivesse vida própria, a deixava com a leveza de uma borboleta, quase como se a elevasse do piso de madeira.

A melodia foi incrementada com acordes mais acelerados e curtos, agudos, pequenos pontos de som no ar, ao quais a bailarina expressava com a ponta de seus pés; como se os marcasse no chão. Logo, um conjunto de violinos se juntou à confusão ordenada da famosa música, colocando mais ritmo e novos passos na dança, tão misteriosa e tão bela. O som reverberava pelo teatro, e os olhares se colocavam sobre a mulher, que dançava de olhos fechados, se guiando por puro instinto, um ritmo natural de seu corpo. Rodopiava e caminhava pelo palco, a dança era seu passo, seu veículo para onde quer que quisesse ir. Constante, a música seguiu por um tempo recheada de instrumentos, com um ritmo novo, mas tão misterioso quanto o inicial, que parecia guiar a dançarina para uma fantasia distante, onde quem reinava eram os acordes, onde o palco nada mais era que uma folha de partitura; e onde os passos da bailarina colocavam pingos pretos entre linhas, formando assim a melodia escrita, fixada para sempre no branco papel das memórias dos homens. Perto do fim da música, ela retomava sua calmaria e o silêncio entre acordes, somente o piano em suas teclas mais agudas marcando os locais onde antes estavam os violinos. A bailarina seguia seu caminho, atrás do piano, entre a realidade e a imaginação, entre o som e o silêncio, rodopiando e castigando a ponta das sapatilhas com os delicados gestos. As mãos, que nunca pararam em um só lugar pelo ar, pareciam mais alheias ao resto do corpo, quase como asas. No palco, ela realmente parecia uma fada.

Logo, depois de percorrer o palco com rodopios suaves, sem nunca perder o equilíbrio, a música inseria sons mais estendidos, com gestos lentos, a fada desafiava o ar e a brisa que a cercava suas asas, sua magia. Uma aceleração melódica repentina fazia com que os pulmões dos espectadores segurassem o ar; só mais um instante, só mais um momento! E a bailarina, agora fada, voava em pequenos círculos, viajando o palco como quem voa sobre as nuvens, segue um sonho primaveril, belo; sua delicadeza simplesmente tomava o ar, e a música subitamente parava, e a fantasia era subitamente decepada da imaginação. Com uma pose, o olhar fitava o céu, a cabeça para a direção oposta do corpo, os braços estendidos com as pontas dos dedos unidas em um círculo; uma perna pouco dobrada para frente, e outra estendida para trás. O som predominou por segundos que pareciam séculos, enquanto Akemi abria os olhos, parecendo confiante. Alguns aplausos foram ouvidos: As meninas pequenas, que comiam atrás das cortinas, puxaram uma salva de aplausos singelos, que tão logo quanto começaram, cessaram. Elas riram-se, e a bailarina riu de volta.

- Bem... – O temido bloco de notas tremia nas mãos de Brito, sob a caneta preta de sempre. – Está certo. Mas...

O temido “mas” ecoou por minutos absurdamente maiores naquele teatro apertado, que de repente pareceu mais abafado, sufocante.

- ...Tome cuidado quando a música acelerar. Seus pés se cruzaram muito quando seus passos se tornaram mais rápidos, e você não pode arriscar cair em palco. – Os sermões eram sempre dessa forma: Curtos, breves, e técnicos, raramente com algum aviso. Quando o tinham, era sempre sobre feridas possíveis e correções nos mínimos detalhes. A mente do diretor, para o balé, era perfeita; ele conhecia todas as técnicas e cada passo que era necessário para uma música, os figurinos eram também todos decididos por ele, e até a cor das sapatilhas era submetida a uma avaliação minuciosa. Nesses aspectos, ele não suportava desleixos, e talvez por isso os participantes do balé popular mantivessem uma relação de respeito com ele. Afinal, sua franqueza e atenção aos detalhes levou-os até aquele ponto. Entretanto, nunca de sua boca algum integrante tinha ouvido algo além de “está certo” e derivados, sem proximidade com o ouvinte. Soava frio. – Se importa de repetir...hã...

- Akemi. – Respondeu, apenas, retomando a pose inicial.

- Certo. Do início!

O técnico de som colocou a música novamente, e o início dela se seguiu como antes. Misteriosa, silenciosa, a fada levantava voo, esperando seu tempo perfeito para dançar pelo ar, pisar nas correntes de vento e criar um universo todo seu na partitura. Na lentidão projetada por sua mente; a música parecia desacelerar enquanto o pensamento de Akemi vagava, focava na posição de seus pés. Preocupada com as poses e os perigos, focava o olhar neles, pouco a pouco a música parecia desaparecer de seus ouvidos, deixando apenas a marcação do metrônomo em sua mente, ecoando distante. Era como se estivesse dançando em um lago, um espelho d’água, plano e sem nada, refletindo o escuro ao seu redor. Focava em seus pés, nas sapatilhas de ponta que tanto lutara para usar, torcendo para que sua estreia com elas, com essa música, fosse mais que especial; que marcasse o coração de alguém. Uma gota de suor descia por sua bochecha, e as pálpebras pareciam trêmulas. Seu olhar, apreensivo, não saía dos passos que fazia. Quando, enfim, a música introduziu os violinos, ela já se sentia em outra realidade, onde o que importava era não cair. Suspensa no ar por uma brisa trêmula, a fada ansiava por um pouso seguro, no fim da partitura.

Perto do grand finale, enfim veio a aceleração. O ritmo novo parecia fazer par com seu coração ansioso, que parecia mais notável e batia mais rápido, forte. Seus pés se cruzaram, e o pensamento de não cair ocupou como uma massa todo o cérebro da garota. Um som imperceptível se deu do encontro dos tornozelos, e logo após um baque foi ouvido pelo teatro.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Primeiramente, fiquem a vontade para comentar e me dizer onde posso melhorar. Sério, meu dia se torna mais alegre quando vejo seus comentários! Mas fiquem a vontade.Segundamente, obrigada por ter lido, de coração. Espero que nossos caminhos se cruzem mais vezes nesse site!Um grande abraço de coração. Fique com Deus e...Até o próximo capítulo!

Apreciadores (2)
Comentários (1)
Postado 06/11/21 00:52

O título da obra chamou muito a minha atenção. Então, ao lê-la, percebi que tanto os cenários, quanto os personagens e a própria narrativa, eram surpreendentes e muito cativantes.

Obrigada por compartilhar conosco!​

​Parabéns, Maria Clara ♥

Postado 06/11/21 07:51

Muitíssimo obrogada, Mrs Black! Espero te ver nos próximos capítulos <3

Postado 06/11/21 07:51

Muitíssimo obrogada, Mrs Black! Espero te ver nos próximos capítulos <3

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