Fiquei amiga do monstro que mora embaixo de minha cama, após enfim compreender que ele apenas queria me capturar por não ter nada a perder, afinal estou em cima, e ele, cada vez mais embaixo, cada vez mais deixando de existir. Eu possuo roupas, comida, coberta e família - ele mora com as aranhas, foge das baratas, passa frio no inverno... Ficamos amigos, quando percebi que éramos tão parecidos... Eu também me escondo e assusto as pessoas às vezes, também sou tão feia, que me mataria por pena.
E se a vida do monstro fosse diferente? E se houvesse luz, música e tantas mais descobertas?
Decidi arrumar o quarto, passar pano embaixo da cama e tudo perfumar, uma mudança radical no estilo de vida monstruoso, quem sabe dessa forma, a fera pare de lamentar... Apresentei-lhe seu novo esconderijo. Ele enrijeceu, mal agradecido.
O que há de errado, velho amigo? Venha para a luz, comigo.
Atordoado, ele disparou, gritando em meu ouvido, após abalar meus pensamentos, ele sumiu, sem deixar vestígios.
Então tornei-me tempestade. Rabisquei as paredes, encendiei o colchão, rasguei minha face inteira, desabei em lágrimas, um bilhão de tormentos.
Fitei a janela entreaberta... Admirei minha confusão.
Doce tola que sou, mais monstruosa que qualquer um.
É... Monstrinho, somos mesmo parecidos.