Sonho de Criança
Kusadewareta
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 31/10/21 23:01
Editado: 01/11/21 15:25
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 5min a 7min
Apreciadores: 2
Comentários: 2
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Palavras: 908
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso de Halloween – Sob o olhar das Lendas" É nas sombras onde as lendas se escondem, observando a todos, e agora em desafio propõem um concurso. Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de doze anos
Notas de Cabeçalho

Prosa não é meu forte, mas como um entusiasta de mitologias e do Halloween em geral, não pude deixar de participar com este breve relato pessoal.

Texto por Hayden Kajsk. Capa por Kusa D. War. (E sou eu que ela fez ali, HAAAAHH)!

Capítulo Único Sonho de Criança

– Sabe, não ter memória alguma dos meus vinte e poucos anos me faz ter várias perguntas. Há tempos queria saber... Que estou curioso... – Hemmet mexeu-se inquieto, desviando o olhar para além da claridade, mirando ressabiado o escuro ao redor do acampamento. Inseguro como sempre ficava antes de perguntar algo pessoal. – Como era... Vocês já tiveram... Algum sonho de infância?

Wendel virou o rosto. Liam murmurou um monossílabo. Ambos claramente não queriam responder. O moreno amnésico então olhou para mim.

– Bem... – Curvei os lábios em um sorriso torto, castando sombras ao erguer-me sobre a fogueira.

A Sol nasce todos os dias, caminhando até o ocaso, galopando no céu azul e deixando brancas de claridade as nuvens macias, coloridas lá adiante. Sua luz ofusca mesmo a noite, quando outro astro brilha pleno, o Lua refletindo a claridade infinda da estrela enquanto avança noite afora, correndo até sua trilha mergulhar também no horizonte longínquo.

E todo novo dia, ascende a Sol, novamente no céu. E desce, e vem o luar aceso, ambos raiando... Infernais como sempre.

Faça chuva, neve, ou vento... Não importa o que se passa, nossa dupla luminosa sempre subirá, certo? Esses dois globos, em maratona intermitente, correm eternos assim como o tempo nunca para, e todos vivem suas vidas piamente crendo que assim será para sempre. Mas... Com base em quê?

Nada garante a presença da Sol. O Lua não confirma compromisso. Ademais, ambas as majestosas presenças vero estão constantemente em desespero. E não seria para menos: já andam exauridos por serem perseguidos, séculos a fio, sem cessar. Os gigantes lobos divinos, Skoll e Hati, seguem sempre em seu encalço, jamais permitindo um momento de descanso, exceto, talvez, se a escolha for o leito da morte certa entre seus dentes.

Não há meios para salvá-los ou forma alguma de acalmar seus corações. A agonia incomensurável crescerá junto da urgência pela vida, o instinto de sobrevivência tão natural às entidades quanto é para nós, até chegada ser a hora do previsto destino. O instante vindouro, inevitável, terminal, nas quais as últimas energias serão derenadas pelos dentes em seus pescoços, Skoll partindo a carne quente da estrela deusa, Hati brindando sangue prateado.

O sucesso da caçada derrubará cortinas negras sobre o mundo, como uma peça de teatro macabra terminando... Mas suas patas não cessarão.

Esse átimo eterno, do qual só nos será permitida a escuridão, é apenas o início do fim.

Pensem. Nao é a Sol senão nossa luz e o Lua aquele responsável por puxar nossas marés? Naturalmente, pois, os lobos descerão dos céus, e sob as patas de Skoll fogo rugirá, brilhante como o astro, rasgando em brasas feridas colossais nos continentes, e quando as patas de Hati tocarem o chão, trarão consigo frias ondas dos mares, e em seu interior, toda a escuridão desconhecida emergirá com elas.

Nuvens de fumaça lesiva subirão do choque térmico recorrente enquanto os irmãos lobos correrem lado a lado, rondando a terra em júbilo, iniciando o fim dos tempos. Fenrir, seu pai, os responderá, orgulhoso, finalmente arrebentando Gleipnir, e logo não mais estarão sozinhos.

Com a súbita elevação dos oceanos, verdadeiros monstros que fazem do sangue gelado de Ymir seu lar engolirão vivas as pessoas e suas casas, Vaetts e elfos enfrentando o mesmo destino que os deuses e os homens. A serpente que envolve o mundo cravará suas presas em Thor; épicas batalhas serão desenroladas a cada segundo, mas a humanidade não as verão, engasgando-se em petróleo, perfurados pelos próprios escombros, ruínas provenientes da destruição de tudo aquilo que um dia já tolamente se orgulharam. Cegas afundarão nas profundezas das águas sob o céu negro, cegas fecharão os olhos contra o clarão de imensas colunas de chamas alimentadas por Surt, cegas cairão com os olhos ardendo, envoltas por verdadeiras jaulas de espessa fumaça ácida. Crianças chorarão suas lágrimas sobre o sangue de seus pais enquanto estes recebem o fim que merecem.

Descerto aqueles que não morrerem esquartejados pelo mar de Hati serão tragados vivos pelas chamas de Surt ou asfixiados pela pressão nefasta de Skoll. O horror perturbará eternamente os últimos minutos de vida dos que ainda não pereceram.

Creio que breve será, no Ragnarok, para que todos estejam mortos. Não tardará para tornarem-se apenas matéria, a alma do navio de Hel e do Pai do Caos. Assim terminaria o ciclo.

– ...

– ...

– ...Admito que não 'tava esperando uma resposta agonizante dessas. – Do outro lado da fogueira, vi o corpo largo de Hemmet estremer enquanto baixava meus braços, o silêncio seguindo minha narração enquanto os três piscavam, me encarando. Ele riu com seu sorriso vazio, aprochegando-se do calor.

– De fato, traria um leque no mínimo exacerbado de formas excruciantes para morrer. – Wendel exibia um semblante austero, quase pétreo entre a luz do fogo e a negritude da noite, mas, eu sabia, escondia uma vontade soturna de sorrir. Vi quando deixou de se conter, o canto da boca erguendo levemente ao ouvir o ponderar baixinho de Liam: – Seria merecido mesmo.

Tentando conter seu próprio riso moralmente condenável, Hemmet coçou a barba, abismado. – Porra, gente, isso tudo... Soa horrível.

– Horrível, Hemmet? Horrível? – Sem controle, gargalhei sentindo um lodo negro de emoções misturadas na garganta. Tomei-lhe a garrafa de cerveja das mãos, ignorando seus insultos e protestos imediatos conforme virava o restante do conteúdo. Ainda sorria sem alegria nos olhos quando o respondi, sincero, do fundo da minha alma, certamente com o que eram os olhos de um maníaco.

– Era minha maior esperança, desde os sete.

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Notas de Rodapé

Escrever no celular é um horror.

Apreciadores (2)
Comentários (2)
Postado 05/11/21 18:31 Editado 05/11/21 18:43

Escrever pelo celular é mesmo um horror, e você contornou esse pequeno contratempo com bastante habilidade.

Não tô querendo colocar os outros participantes do concurso pra baixo, mas confesso que já escolhi meu texto preferido! Isso tá muito bom, meus parabéns <3

Faz um tempo desde que li um livro sobre mitologia nórdica... Foi engraçado sentir uma leve nostalgia ao mesmo tempo em que me permiti ser surpreendida pela tua interpretação do fim do mundo (bem cataclísmica, aliás). Particularmente, não tenho medo de cachorros, mas a descrição dos simpáticos irmãos tornou bem vivo aquele temor ancestral que todos temos de presas afiadas. Vou tomar cuidado com os calcanhares depois desse conto.

Meus parabéns pelo texto e boa sorte no concurso!

Postado 12/11/21 16:58

Muitíssimo obrigado! Fico verdadeiramente feliz que tenha se sentido dessa forma. Talvez minha visão seja meio trágica mesmo, mas ah, não consigo não pensar que seria incrível, hehe.

Me deixa ainda mais contente saber que os irmãos passaram respeito apesar de não aparecerem muito diretamente. Agradeço mais uma vez, foi um prazer participar!

a. Hayden K.

Postado 23/11/21 23:49

HAHAHHAHHAHAHHHAHSHAHHAAHHAHAHAHHHAGSHSHA~~

Amei essa risada final do protagonista/narrador! "Desde dos meus sete" hahhhahahahah~

Meus parabéns a todos que participaram desta obra, ficou muito legal!!

Adorei a ambientação que deu para o início da história e a própria situação que levou ao tema de fato, me impressiona a narrativa do ragnarok rima, tramada, explicada e muito curiosa e adorável.

Amei a forma como desenvolveu cada personagem em diversas características, desde seu jeito de falar até suas ações perante as situações da obra e mesmo assim, com tamanho desenvolvimento dos personagens, não tornando nem um pouco cansativa ou pesa a leitura, mas dandeu mais profuntidade a mesma.

Encantada com seu texto.

Agradeço por compartilhar sua obra e ne ddar a honra de ter uma obra sua articipando do concurso deste ano.

Assinado, uma pequena vampira, <3