Lembrei da Alzheimer na praia.
Lirismo Defeituoso
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 20/09/16 00:56
Editado: 20/09/16 01:17
Gênero(s): Drama Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 2min a 3min
Apreciadores: 4
Comentários: 1
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Palavras: 380
Este texto foi escrito para o concurso "Ozymandias" Não importa a grandeza ou prepotência, tudo há de se tornar ruínas. Ver mais sobre o concurso!
Livre para todos os públicos
Notas de Cabeçalho

Acredite em mim: eu não faço a menor idéia do que eu estou fazendo.

Capítulo Único Lembrei da Alzheimer na praia.

A luz do sol reflete em seus cabelos já grisalhos enquanto caminhamos em direção à praia. Você sempre me levava lá quando eu era criança. Me pediu, inclusive, pra não destruir a tradição, como fizeste comigo, eu deveria fazer aos meus filhos.

Essa praia é nossa, coisa de família, eles a devem conhecer.

Caminhando agora ao seu lado, lembrei que você me sentava na areia fria de fim de tarde, bem aqui. E, enquanto as ondas beijavam selvagemente as rochas, você, bem ao meu lado, começava a proferir suas histórias...

Já me contou quando você e seus amigos invadiram uma casa abandonada, só porque ouviram dizer que era mal assombrada. Também da vez em que a chuva repentina destruiu o piquenique do lindo dia de sábado, cheio de canto e ensolarado. Hoje, eu poderia me lembrar de todas as histórias que você já me contou, mas nenhuma se moldará tão bem ao que sinto agora quanto a do monumento imponente,

do faraó exigente,

achou que assim

se eternizaria nas mentes,

mas, assim como a Alzheimer destruiu as memórias dessa beldade de cabelos grisalhos, o tempo fez ruir toda imponência daquela esfinge. Ficou no passado.

Lembro como te ouvir me contar essa me trouxe um calafrio e me fez pensar no pesar em que adentrei, como que num rio muito frio, senti naquele momento o horror que me desnorteou, pude ver ao que somos destinados: ao fim. Que terror!

Por isso, até os seus cabelos grisalhos, hoje já me falam um bocado.

Lembre-se de Ozymandias! Tudo é efêmero, não se desespere, bom ou ruim, tudo ao pó vai se reduzir.

Suas memórias a Alzheimer lançou por terra e as minhas me trouxeram a essa praia.

O celular embaixo do travesseiro não parava de vibrar, levanto-me assustado, olho o calendário. É hoje. Já faz dez anos desde a última vez que você esteve aqui. Já não vivo perto daquela praia, nem sequer tive filhos, você não vai gostar de saber, mas nem cheguei a ser casado. Porém, ainda vejo o sol refletindo seu cabelo grisalho. Afinal, essa foto no criado-mudo é a única coisa que eu tenho... e vendo-a diariamente, me lembro daquele sonho:

Eu e você caminhando em direção à praia...

o que era mesmo que você repetia? Ah, sim... Ozymandias!

❖❖❖
Apreciadores (4)
Comentários (1)
Postado 09/10/16 16:13

Agora que o concurso já passou, to vindo aqui deixar a minha opinião.

Este texto foi o meu favorito do concurso, juntamente com o da Tháiza, apesar de não ter ficado no pódio na classificação agregada. Eu gostei muito de você ter trazido o tema do declínio e fim de Ozymandias para uma situação de decadência mental por conta de uma doença tão horrível quanto a do Alzheimer. A maneira como estruturaste e "quebraste" o enredo da história também chamou minha atenção, pois cadenciou o desenvolvimento e leitura da mesma sem prejudicar a compreensão.

Aliás, em termos de compreensão, o seu texto também foi fenomenal, sendo coeso e simples de entender. Gosto de escritores que utilizam um vocabulário mais humano para passar suas ideias, e acho que você atingiu isso com perfeição de uma maneira concisa, organizada e agradável.

Também achei bacana e criativo que você focou num tema familiar em vez do fim de um relacionamento amoroso, como muitos fizeram, e o fato de ter incluído o nome do poema e referências diretas a ele no texto também foi um ponto positivo para minha avaliação.

Obrigado por ter participado do concurso, parabéns pelo texto, e espero que continue a nos presentear com seu talento aqui no site.

Postado 09/10/16 23:56

Nunca me senti tão feliz lendo um comentário como agora.

Sabe, inúmeras vezes pensei em excluir o texto, porque achei (como sempre) que não transmitia bem a idéia. Mas, nossa, ler isso foi maravilhoso!

Muito obrigada, Sr Daniel.