O apocalipse começa pelas vitrines de uma livraria
Gans
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 02/10/20 15:43
Editado: 03/10/20 17:03
Avaliação: 9.53
Tempo de Leitura: 27min a 36min
Apreciadores: 5
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[Texto Divulgado] "Iminnar" Tudo o que ela precisa é completar o treinamento e se provar, para si mesma e o fantástico mundo que lhe cerca.
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Olá,

Depois de muito tempo tempo voltei ao Academia para ajudar no banimento do cavaleiro sem cabeça. Eu amo muito esse texto, foi um dos meus primeiros textos mais descontráidos com personagens mais ácidos e ambíguos, escrevi em agosto de 2019 para temática do mês daquele ano no Oneshot Per Month Project: Zumbis. Eu tenho outras histórias do gênero, mais antigas e mais densas (embora não tão bem estruturadas), mas de longe essa é a minha favorita.

Espero que vocês gostem como eu gostei.

Capítulo Único O apocalipse começa pelas vitrines de uma livraria

Antes de sair, eu sempre faço um pequeno ritual. Primeiro, costumo checar todos os itens em minha mochila e cinto, me certificando de que nada essencial ficou para trás. Então...pistola semiautomática, cartuchos de recarga...

Nota mental: lembrar de olhar mais uma vez naquele catálogo de armas qual é o calibre dessa belezinha. As balas estão no fim.

Continuando...água, muita água, alguns biscoitos e barras de cereal, corda, lanterna, pilhas extras, fósforo e, claro, um casaco no caso da temperatura cair repentinamente.

O segundo passo é de longe o mais importante: prender o cabelo em um coque super apertado. Vocês nem imaginam quantas pessoas tentaram pagar de protagonistas de fanfic, com seus coques frouxos, no meio do apocalipse e foram devorados ao caminho do Starbucks. Não é como se houvesse mais um Starbucks aberto de qualquer forma, mas adoraria tomar um café caro e cheio de frescuras.

Ah, acabei divagando de novo.

Bem, o terceiro é o mais básico: lembrar, mais uma vez, que estou sozinha nesse mundo de mortos e que não há ninguém para ler a minha história. É, definitivamente eu posso me dar ao luxo de ser niilista algumas vezes nessa porcaria de mundo.

O quarto e último passo é bem curto: Não confiar em ninguém. Não que tenha sobrado muitas pessoas para isso de qualquer forma.

Olhando pelo lado bom de toda essa situação: agora posso sair de casa e deixar a porta aberta sem a paranoia de ser assaltada, a poluição diminuiu drasticamente – o que é bom, considerando que na época que tudo começou o mundo estava à beira de um colapso ambiental.

Passando de carro pelas ruas quase vazias do bairro que resolvi me instalar, passo na frente da vitrine de uma loja, vendo que Adelaide ainda está lá, decomposta como sempre. Sempre que penso em como ela tentou me passar a perna, acabo rindo. É engraçado que ela tenha pensado que realmente me enganaria com aquela historinha de sobrevivente traumatizada. Sabe, Adelaide é minha prova de que eu fiz tudo para sobreviver, inclusive atravessar um mexedor de brasas no peito de outra pessoa. Bem, no final, Adelaide era o que o mundo fez dela: uma mentirosa nata. Como achei que este bairro estava muito vazio, decidi colocá-la para trabalhar na loja de roupas há três anos. Ela não foi a única e nem a última. Fui traída tantas vezes que até comecei a sentir tédio com a situação.

Ben e Luke, por exemplo, atropelaram o meu gato enquanto passavam pela região. Bem, eu os larguei em algum lugar infestado no centro depois que tentaram me roubar...talvez tenha sido naquela escola que usaram de abrigo na primeira semana. Se eles escaparam, foi pelo menos com a lição de que eu nunca os perdoei pelo Monroe. Eu, Nicole Anderson, não sou do tipo que perdoa fácil.

Ainda me lembro bem de como tudo começou, de todo o terror que senti, de toda a confusão, de todo aquele sangue no chão. Se eu tivesse que escolher o dia mais assustador da minha vida, seria naquela tarde há oito anos.

Era um dia qualquer de abril, se me lembro bem, entretanto, não havia nada de normal acontecendo com o mundo. Fazia semanas que boatos de pequenas cidades do interior da China estavam sendo queimadas até as cinzas por um motivo que os chineses recusaram-se a divulgar, em seguida, centenas de norte-coreanos começaram a atravessar a fronteira em pânico, o caos na Coreia do Sul foi gigantesco. Centenas de pessoas começaram a desaparecer no Japão, políticos saindo em viagens internacionais em massa no Brasil, mortes suspeitas no Canadá, Alemanha e Reino Unido, guerra generalizada em vários países africanos, portos e aeroportos fechados nos países da Oceania...E isso foi só o começo.

Bem, na época, eu era apenas uma universitária cursando História da Arte, presa em um trabalho de meio período numa livraria de um shopping perto da minha universidade. Eu ainda usava óculos decentes e adorava passar minhas tardes de sábado tomando um bom café com alguns amigos, adivinhem onde...no Starbucks. Talvez, mas só talvez, eu estivesse um pouco apaixonada pelo meu colega de trabalho, Peter.

Enfim, a livraria era e ainda é um espaço bem amplo: tem um longo balcão com 5 caixas, 10 corredores cheios de livros de diversos tipos e mais um andar apenas para mangás e novels. Lembro que inclusive pensava em fazer um mestrado sobre a influência da arte japonesa no mundo ocidental. Teria sido incrível.

— Meus pais querem que eu volte para a fazenda, sabe? Estão meio assustados com os boatos daquela doença e tal, mesmo que eu já tenha tomado a tal vacina...Eles dizem que é placebo. – Peter falava, como sempre, sentado atrás do balcão, esperando alguém finalmente trazer algo para ser pago. O movimento estava bem fraco naquele dia, de modo que havia apenas umas 15 pessoas na loja, incluindo Sasha e eu.

Peter era um cara alto, cabelo castanho escovado em um penteado elegante que parecia nunca ficar desarrumado, seu sorriso parecia saído de um comercial de creme dental. E minha teoria era que ele fazia clareamento semanalmente, mas nunca tive coragem de perguntar. Seus músculos do peito ficavam bem marcados na camisa branca do uniforme.

— Os meus estão visitando os meus avós do outro lado do país, querem que eu pegue um ônibus e vá até lá. Quero dizer, sei que os boatos parecem verdade, mas para mim estão criando pânico desnecessário. Como na epidemia de H1N1 anos atrás. Não que não fosse sério, mas...ok, péssimo exemplo. – disse, mas acabei rindo ao final pela expressão duvidosa que ele fez.

— Sei lá, acho que vou ficar por aqui mesmo, as provas finais estão chegando e… – Peter começou falando, mas sua atenção foi roubada por Sasha, que passou apressada indo na direção da entrada da loja.

— Pessoal, venham aqui. Tem algo estranho acontecendo. – A voz de Sasha ecoou pela loja e logo estávamos ao seu lado perto da vitrine. Outros clientes tinham se reunido ali, em volta da garota de cabelo preto, na altura dos ombros.

Sem falar nada, observamos quando as primeiras pessoas subiram a escada rolante logo a frente claramente assustadas com algo. Estávamos no segundo andar do shopping e as pessoas não paravam de subir. As primeiras pareciam apenas confusas por algo que estava por vir e se reuniam nos arredores da escada, apontando os celulares para gravar algo, mais e mais pessoas subiam e os gritos pareciam aumentar no andar de baixo.

— Vocês acham...que tem alguma situação com armas de fogo aqui…? – ela perguntou distraída, ainda olhando na direção da escada rolante. Lembro de achar naquela época que ela sempre teve um modo de falar um tanto presunçoso.

— Se fosse o caso, algum tipo de alarme teria tocado, não é? Tem um sistema quando algo assim acontece ou sei lá. – um rapaz de mais ou menos 20 anos comentou, segurando um livro grosso.

Ficamos em silêncio por algum tempo, só vendo cada vez mais pessoas subirem pela escada. E cada vez mais sangue. E cada vez mais pânico. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo lá fora, mas seja o que for, tinha chegado aqui dentro. Foi só quando todos começaram a correr para longe da escada que finalmente fomos apresentados à nova realidade. A primeira pessoa que subiu era uma mulher vestida como executiva, ela tinha um ferimento feio no pescoço e metade dos seus lábios tinha sido devorado, de modo que os dentes ensanguentados estavam visíveis do lado direito de seu rosto.

Ela não foi a única a subir, mais e mais pessoas como ela vieram. E antes que percebêssemos, o andar todo estava um completo caos. Assustada com o ataque repentino e sem saber que todas aquelas pessoas estavam mortas, me afastei da vitrine e corri para o balcão novamente. Meu celular estava no depósito nos fundos da loja, se eu chegasse até ele, poderia pedir socorro. No momento que dei as costas, ouvi gritos e sons de vidro estilhaçando.

Ao me virar para trás, não só parte da vitrine estava em cacos como também havia uma mulher de vestido azul devorando o pescoço de Sasha, o olhar dela se encontrou com o meu, ela estendeu as mãos e eu apenas gritei enquanto todo aquele sangue se espalhava. Passei por cima do balcão no momento que Peter correu na minha direção seguido por outras pessoas. Um homem baixinho e engravatado foi pego por um homem alto e tatuado e os dois caíram por cima da estante, fazendo um verdadeiro efeito dominó nas estantes, tamanha a força dos mortos naquele momento. Nada fazia o menor sentido para mim. Corremos para o depósito nos fundos: Peter, um casal, o rapaz que segurava o livro, uma garota loira vestida com o uniforme de alguma escola cara e eu.

XXX

Quando todos os serviços de emergência estavam com as linhas ocupadas, os tiros dos seguranças ecoavam pelo shopping e os gritos gradativamente diminuíram com o passar do tempo, nos damos conta de que o socorro nunca viria.

E, acreditando que era realmente o fim, todos os seis sobreviventes – três homens e três mulheres – decidiram que não havia nada a fazer se não explorar o corpo uns dos outros. Peter foi prensado na parede pelo rapaz que segurava o livro e suas mãos percorreram o seu corpo, descendo até…

Brincadeira.

(Ah, mas quem me dera…)

O que realmente aconteceu foi:

Quando realmente percebemos que aquele agora era um mundo de loucura em que as pessoas se devoravam – literalmente – por alguma doença estranha e que não adiantaria gritar para que as pessoas arranhando a porta e gemendo atrás dela fossem embora, decidimos que era finalmente hora de agir. O casal surgiu com a brilhante ideia de pegarmos algum tipo de arma e atravessar o shopping até algum local seguro – já que até aquele momento acreditávamos que o que quer que estivesse acontecendo era apenas dentro do shopping e que a polícia estaria nos esperando quando saíssemos.

E lá fomos nós. Peter quebrou uma prateleira com ajuda dos outros dois homens e cada um de nós ficou com um pedaço longo e afiado, embora eu suspeitasse de que aquilo não fosse o suficiente para ferir ninguém.

— Muito bem, quando eu disser, saímos ao mesmo tempo e corremos para a saída. O mais rápido e silencioso possível, certo? – Peter falava com uma certa adrenalina na voz, o que por uma parte fazia-me sentir confiante, mas por outra...talvez ele apenas não tenha se dado conta da situação. Assim como o resto de nós.

Quero dizer, naquele dia eu vi a garganta da minha colega de trabalho ser dilacerada enquanto os seus olhos imploravam por socorro. Vi a realidade pacífica que eu conhecia ser inundada por um grande pesadelo que contrariava as leis da biologia moderna.

— Ao mesmo tempo? Não seria melhor fazermos uma formação de batalha ou algo assim? – A garota de uniforme perguntou, amarrando o cabelo com o penteado favorito de um certo nicho de escritores e ajustando os óculos de armação preta no rosto – Seria mais fácil e seguro nos movimentarmos por aí de forma organizada do que todos correndo por aí sem rumo.

— Concordo com a garotinha, assim vamos ter olhos em todas as direções. Aquelas pessoas parecem rápidas, não é? Seria perigoso se não víssemos uma delas chegando. – A mulher do casal comentou, amarrando os cadarços do sapato com mais força. Ela não era muito alta, mas tinha seios fartos. Confesso que tive um pouco de inveja. Ah, o cabelo cacheado dela também era incrível.

Por que lembro de todos esses detalhes aleatórios e não lembro dos nomes deles?

— Mulheres...sempre dando palpite. – O homem resmungou, posicionado ao lado de Peter. – Façamos assim, eu e o garotão aqui vamos na frente, a loira e o rapazinho vão logo atrás e você e a garota vão por último. – sugeriu, na verdade ele quase mandou, e todos concordamos que poderia ser uma boa ideia. Ele tinha uma cabeleira de cor castanha invejável e parecia forte por baixo do terno, devia estar na casa dos trinta anos.

Se eles eram casados, o casamento deveria estar um lixo completo. Que tipo de homem manda a esposa ir na retaguarda quando os que ficavam atrás eram sempre os primeiros a morrerem?

Ignorando os sentimentos de ansiedade e medo crescendo no meu peito, corri para o corredor quando a porta foi aberta. Havia alguns rastros de sangue no chão do corredor, rapidamente atravessamos a distância e chegamos na livraria novamente, as estantes estavam caídas e até onde vimos estava tudo vazio. Passamos pelo balcão e lentamente caminhamos até a saída, prestando atenção em todas as direções, ninguém dizia nada, mas meu coração praticamente gritava com suas batidas altas dentro do meu peito.

Lembro de sentir o pânico crescer quando pisamos nos cacos de vidro na frente da loja e o som ecoou por todo o lugar. O segundo andar estava vazio, praticamente o ambiente inteiro tinha marcas de sangue, havia um homem careca caído perto das escadas rolantes, ele parecia ter despencado de algum lugar alto, provavelmente do andar de cima. Entretanto, mais importante, era a arma que ele segurava naquele momento.

Peter olha para trás e sinaliza com dois dedos para que continuemos a andar, saímos da loja praticamente pisando nas pontas dos pés, o único barulho no ambiente era o do ar condicionado — que geralmente ficava abafado pelo som que as pessoas faziam enquanto andavam alegremente pelo shopping, entretanto, naquele momento mais parecia um suspiro gigantesco de um monstro.

Alguns passos arrastados ecoam ao longe, dentro de um restaurante de comida japonesa do outro lado da praça. Assim como nós, alguém sai de lá apressado, segurando o braço direito cuja manga da camisa azulada tinham uma mancha proeminente de sangue. O homem de cabelo bem arrumado ao lado de Peter balançou a cabeça negando veemente a aproximação dele, mas o homem pareceu nem ligar. Os passos dele ficaram mais rápidos à medida que ele avança, o som ecoava, assim como os gemidos mórbidos.

— Me ajudem! – o homem que havia saído do restaurante gritou e, quase que imediatamente, o som que ouvimos foi o do nosso medo crescendo conforme mais e mais daquelas coisas corriam em nossa direção.

— Que merda… – Peter sussurrou. E antes que pudéssemos pensar em nossa próxima ação, o homem do topete saltou na direção do careca caído mais à frente e começou a puxar a arma da mão do guarda, que segurava-a firmemente pelo rigor mortis.

Depois disso foi tudo uma confusão.

Meus olhos congelaram por trás das lentes dos óculos no homem que se aproximava e em todas as outras pessoas correndo atrás dele, a garota loira gritou ao meu lado, mas a única coisa que captei foi um som abafado. Os músculos das minhas pernas estavam travados, eu queria correr, mas meu corpo parecia ter ficado em choque pela morte iminente, minha respiração estava descompassada. O homem do topete conseguiu, finalmente, soltar a arma da mão do cadáver do guarda e começou a atirar na direção dos infectados que seguiam o rapaz.

Uma das balas atingiu o pé do homem que corria na nossa direção e ele caiu, sendo coberto logo em seguida por cerca de cinco pessoas, seus gritos foram estridentes. E eu ainda estava paralisada pelo medo.

Do outro lado da praça, duas garotas vestidas com o uniforme de uma loja famosa de maquiagem vieram a toda velocidade em nossa direção, antes que os tiros pudessem acertá-las, elas morderam os braços e as costas do nosso atirador. A arma voou, a esposa dele gritou e Peter me puxou com força. Quando percebi, estávamos correndo para a escada rolante central. A menina loira chorava e o outro rapaz ainda segurava o livro com força.

Não ousei a olhar para trás, os gritos de dor do casal pareciam preencher todo o lugar, já que o som foi intensificado pelos ecos no amplo espaço. Se aquele era um destino que nos aguardava, eu preferia continuar correndo para sempre dele.

Nesse momento, nenhum de nós ainda segurava os pedaços de madeira.

— Isso não pode estar acontecendo...eu só queria comer o meu bolo favorito antes de ir para casa! – a garota loira disse entre lágrimas enquanto corríamos, ela parecia mil vezes mais assustada que eu. Ser uma adolescente nessa época é realmente difícil, imagino que com cadáveres ambulantes por aí a coisa torna-se ainda mais complicada. – Eu estava tão perto de me formar e sair do país…

(Deus, eu não percebi na hora, mas a garota tinha uma grande death flag cravada na cabeça.)

— Vai ficar tudo bem. Nós vamos sair daqui e a polícia vai nos ajudar. – o garoto do livro disse assim que chegamos a escada. Ele tinha um sorriso amplo e nervoso no rosto.

Assim que começamos a descer, percebemos que alguns subiam pelas escadas adjacentes, se não passássemos o mais rápido que podíamos, seríamos os próximos amigos deles. Descemos praticamente pulando os degraus, desviando de braços agitados que eram carregados pela escada rolante do lado. Um dos outros seguranças do shopping chegou bem perto de segurar Peter.

Uma mulher, seguida por outros dois homens vieram com avidez em nossa direção, Peter deu um tiro trêmulo contra ela e os outros dois, a mulher caiu para fora da escada levando um dos homens e o terceiro deles caiu inerte, seu corpo foi levado até a base da escada, onde permaneceu.

Quando estávamos quase no fim, chegando no primeiro andar, ouvimos a garota loira gritar e olhamos para trás ao mesmo tempo.

Ela estava caída na escada, as mãos em volta de outras mãos ensanguentadas. Um homem alto e forte segurava o coque frouxo dela com força enquanto subia pela escada do outro lado e a puxava contra o fluxo. O garoto do livro finalmente soltou o livro, jogando-o na direção da cabeça do homem, que nem ao menos ligou. O corpo musculoso dele curvou-se sobre os corrimões e finalmente caiu por cima dela, que teve seus gritos sufocados. Corremos na direção dela, mas quando o sangue atingiu nossos sapatos, apenas seguimos adiante.

Nesse ponto, faltava apenas mais um andar para a liberdade.

Neste andar, havia um grande átrio com um lustre gigantesco pendurado, iluminando o térreo e o primeiro andar, mais no canto do shopping estava uma fonte de água com alguns relevos em uma pedra por onde a água descia, também entre o térreo e o primeiro andar. Os mortos do andar de cima agora estavam nos seguindo, corremos pelo primeiro andar, na direção da escada rolante no lado oposto, bem a tempo de ver mais um grupo descendo apressadamente em direção ao térreo. Só mais um pouco. Só temos que aguentar mais um pouco até sairmos desse pesadelo.

— Acho que...não rola sair daqui de forma discreta, não é? – Peter disse parando repentinamente para recuperar o fôlego. A área estava livre por enquanto, mas seria problemático se não chegássemos na próxima escada logo. – Eles não param nunca, que droga. – ele completa numa respiração pesada, encostando-se numa parede

— Qual o sentido de sair daqui, afinal? Se ninguém veio nos ajudar, significa que a situação é a mesma lá fora, não é? Alguns deles são funcionários daqui, significa que até hoje de manhã eles vieram trabalhar normalmente. O que quer que tenha acontecido, aconteceu enquanto estávamos aqui dentro, ou seja, isso tudo veio de fora.

— A salvação que esperamos não está lá fora, certo? é isso que quer dizer? – Pergunto para o garoto que segurava o livro antes, com uma voz baixa e nada confiante. No final, esse pesadelo nunca teria um fim. Eu não tinha percebido isso até aquele momento.

— É melhor a incerteza lá fora do que ser devorado por essas pessoas aqui. Não parece uma morte pacífica. Eu deveria ter ido mesmo à fazenda quando tive chance. – Peter sorri sem muito ânimo, com o olhar perdido encarando o chão.

— Deve haver algum lugar seguro lá fora, só temos que… – disse, tentando melhorar o ânimo dos dois, mas fui interrompida pelos passos conhecidos e apressados atrás de nós.

Voltamos a correr, eu torcia para que pelo menos o meu carro ainda estivesse no estacionamento, dessa forma eu poderia ir o mais longe que pudesse dessa situação infernal.

Correndo ali, naquele shopping vazio, com mortos canibais atrás de mim, eu só conseguia pensar o quanto minha vida não tinha significado nada até o momento, na efemeridade dos momentos e enquanto nossas convenções sociais eram frágeis em um desastre. Quero dizer, só alguns minutos atrás um homem atirou contra alguém ferido para ganhar tempo e deixamos uma garota para morrer. Aos poucos, todos os aspectos que eu desconhecia em mim mesma e nas pessoas ao redor começavam a mudar.

Apenas uma linha tênue separa a civilização do caos completo.

E foi com esse pensamento que eu percebi algo errado no momento que chegamos ao térreo completamente vazio. Conscientemente eu não processava a situação na mesma velocidade que ela acontecia, mas o meu inconsciente gritava que havia algo errado.

Foi dessa forma que eu sobrevivi por tanto tempo, ouvindo o meu inconsciente e seu incrível poder de percepção. Foi assim que percebi todas as traições e tentativas de assassinato através dos anos.

É lamentável que quando tudo teve início, eu não tive a mesma sagacidade para perceber as luzes fortes vindo do lado de fora, o vidro das portas frontais estilhaçado, o sangue e os cadáveres sendo arrastados para fora, as balas que mataram Peter e o garoto do livro, que atingiram o meu ombro e quase me mataram.

XXX

Bem, só tenho a agradecer pelos soldados não saberem diferenciar uma pessoa morta de alguém vivo. Deve ser por isso que nas primeiras semanas a taxa de mortes no país teve um aumento de 200%.

Depois que acordei, percebi que estava no fundo de um lago vazio, a alguns quilômetros de distância da cidade. Era madrugada, fazia frio e algumas pessoas não estavam totalmente mortas. Ao longe, na completa escuridão, os incêndios e helicópteros que sobrevoavam a cidade eram visíveis, parecia que o mundo ardia de um dia para o outro, mas eu mal sabia que tinha apagado por um dia inteiro.

Meu ombro explodia de dor, o tecido da minha camisa estava praticamente colado em cima do ferimento e eu mal podia mexer o braço sem uma dor terrível espalhar-se por toda a extensão. Eu sentia que nada seria o mesmo dali para frente, mesmo sem enxergar nada, caminhei por um terreno irregular, a cada passo que eu dava algo se quebrava abaixo dos meus pés, o cheiro era forte e havia uma umidade estranha no ar, eu mal conseguia respirar, meu corpo estava quente. Eu provavelmente estava com uma infecção, mas me recusava a desistir depois de tudo que passei.

No meu caminho para a cidade, desmaiei e também chorei algumas vezes.

XXX

Quando finalmente cheguei, estava a beira de uma septicemia séria. Acredito que apenas tive sorte dos antibióticos terem funcionado de maneira adequada quando me tranquei nos fundos daquela farmácia esquecida em um canto do meu bairro ordinário.

Eu também poderia chamar isso de conveniência de roteiro, porque, veja bem, não é nada fácil escapar de uma septicemia, ainda mais quando você não faz ideia de quais antibióticos tomar. Além do mais, atravessei o bosque até minha casa sem maiores problemas, quase um milagre. E aqui estou eu, viva, para contar a minha história, mesmo que seja quase um fato de que ninguém está ouvindo.

Ah, eu poderia contar isso como se fossem memórias póstumas, não? Uma pena que já me apresentei viva no começo.

Acabo de divagar novamente.

Neste mundo dos mortos — que aliás estão cada vez mais lentos e fracos — o tédio é uma constante, acredite. Sinto uma falta imensa de muitas comodidades dos tempos pré-apocalipse. Certa vez, cheguei a sentir falta do final de semestre da universidade.

Esse, meu caro ouvinte, é o nível de vazio deste mundo. As trivialidades e reclamações estão mortas. Sinto falta de coisas estúpidas como me arrumar quando eu tinha trabalho com Peter e de coisas mais sérias como as questões geopolíticas. Todos esses nuances sumiram rapidamente em algumas semanas, deixando para trás resquícios de uma civilização que não deixou nada além de prédios gigantescos e tecnologia que não pode ser mais usada.

Quando a falta do que fazer e a preguiça de explorar a cidade me acertam com força, o meu refúgio é sempre o lugar onde tudo começou para mim: o shopping.

Os anos não foram gentis com o prédio, todas as vitrines e portas continuam quebradas, embora eu tenha limpado o sangue e os cadáveres que estavam no interior, algumas plantas cresceram demais e parte do teto meio que desabou por causa de uma infiltração alguns anos atrás. O importante é que a livraria ainda está inteira e com livros que ainda não li.

É um verdadeiro escapismo, mas depois de todos esses anos, eu tenho direito a isso. Tenho direito de me desligar dessa realidade desoladora e de todas as 37 pessoas que tive que matar ao passar dos anos.

Matei para sobreviver, por amor, por piedade, por vingança, por desespero e por esperança. Carrego cada uma delas comigo, porque graças a isso estou viva hoje, por causa de cada uma delas eu vivo para ver este futuro que eu detesto. E continuarei viva o quanto puder, até o fim incerto de meus dias.

Estaciono meu carro na vaga de sempre do estacionamento do shopping, desço do carro e com a faca em punho, limpo o meu caminho até a entrada. Como disse antes, os mortos estão cada vez mais lerdos, mas não significa que não têm a sua utilidade como vetores, pelo contrário, ainda conseguem ser úteis de várias formas.

Algo que sempre achei bonito, é a maneira como algumas flores brotam até mesmo do asfalto. Aquelas pequenas flores brancas e amarelas saindo das rachaduras sempre lembram de mim mesma, fui capaz de florescer e sobreviver mesmo em meio a toda a adversidade.

Percebo que não estou sozinha ali, existem mais alguns carros estacionados de modo a formar uma barreira na frente da porta principal, vejo alguma movimentação. Parece ser pelo menos duas ou três famílias. Pela aparência, realmente passaram por maus bocados.

A única pergunta que fica é: essas pessoas que estão no meu shopping serão amigas ou inimigas?

O meu subconsciente está em silêncio no momento.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Até breve, bebam água e não duvidem da força de vírus emergentes como certos governos estúpidos no maior país da América do Sul~

Apreciadores (5)
Comentários (5)
Comentário Favorito
Postado 06/10/20 18:14

Eu to me segurando para não falar um palavrão, mas que p... texto foi esse?!

É GENIAL, É INCRÍVEL, É VICIANTE, É CONTAMINANTE, É TUDO PRA MIM!

Gente, eu to chocada. Não sou fã de ler textos muito longos (isso porque tenho preguiça), mas esse veio para tirar toda preguiça que tenho. Ele veio para desestabilizar geral!

Começo dizendo que: eu achei incrível o fato da Nicole rir dos leitores da mesma forma que os leitores riem dela. Não é uma risada de escárnio, é uma risada de companheirismo.

Ela segura a mão dos leitores e os faz entrar nesse escárnio de fanfic (porque eu super achei isso, principalmente na parte do coque frouxo e suas consequências, o famoso Starbucks e o velho crush aka companheiro de trabalho aka melhor amigo aka companheiro de todos os dias) e ao mesmo tempo, ela faz com que nós saiamos do comodismo de ler uma história de zumbi por ver o morto.

Nós vemos o vivo. Nós vemos o que nos faz vivos. Quando ela conta que em um curto período de tempo todas as convenções sociais foram destruídas, coisas que demoram milênios para serem construídas a gente percebe o que é ser vivo.

Ela tem tédio da sobrevivência. Ela tem tempo. Ela anseia as peculiaridades do dia a dia e ela escapa para ler livro em meio a um apocalipse zumbi.

Ela tem suas morais, mesmo que sabendo que elas não são muita coisa (dadas as circunstâncias), mas mesmo assim ela fala do vivo e não do morto. Eu achei isso muito interessante. Ela narra a vida em um mundo de mortos.

Eu amei cada interação, amei a referência de Memórias Póstumas de Brás Cubas, amei as referências em um todo. Conclusão: Amei cada letra, fonema, palavra, parágrafo deste texto.

Muitíssimo obrigada por compartilhar esse masterpiece aqui <3

Postado 21/10/20 20:58 Editado 21/10/20 20:59

Depois que eu li o seu comentário eu fiquei enrolando para responder porque simplesmente não fazia ideia do que escrever ashsuhsuhs

Eu adorei você definir esse texto como contaminante, porque capta bem toda a questão de um apocalipse zumbi. Como você, eu também não costumo escrever textos grandes, mas esse simplesmente foi fluindo até se apresentar dessa forma, minha intenção desde início foi usar todos os clichês mais batidos nas fanfics e também no gênero dos zumbis para criar essa protagonista debochada e irônica que é a Nicole e, sinceramente, ela é uma das minhas favoritas, porque até certo ponto ela era um clichê ambulante que ficou mentalmente desequilibrada (presumido) e sobreviveu ao fim do mundo (por muitas conveniências do roteiro).

Como você destacou, ela realmente anseia para que algo novo aconteça, porque ela era uma pessoa fortemente ligada às comodidades e estilo de vida do pré-apocalipse, mesmo tendo sobrevivido por tanto tempo e tentar continuar a fazer, ela voltou a ficar conformada, presa em um estilo de vida e, obviamente, muito solitária e cheia de problemas de confiança.

Fico agradecido e feliz pelo seu comentário tão completo e também por ter passado todas essas nuances~

Postado 02/10/20 20:24

Saudações! Eu curti bastante o que acabei de ler e elogios são bem necessários. Zumbis nunca saem de moda e é sempre legal vê-los numa trama bem construída. A ambientação ficou crível e muito bem escrita assim como a narrativa (ótimas divagações da personagem inclusive :v) Sobretudo achei bem poderoso esse trecho do final:

"Algo que sempre achei bonito, é a maneira como algumas flores brotam até mesmo do asfalto. Aquelas pequenas flores brancas e amarelas saindo das rachaduras sempre lembram de mim mesma, fui capaz de florescer e sobreviver mesmo em meio a toda a adversidade."

A leitura é fluida e me prendeu até o final e já adianto que estou ansioso pelos próximos capítulos.

Parabéns!

É póetico, belo e como diz o próprio texto, esperança brotando mesmo num ambiente tão hostil.

Postado 02/10/20 23:56

Olá, fico feliz que tenha gostado!

De fato, é um tema que sempre retorna de uma forma nova, mesmo que algumas vezes seja reaproveitando conceitos. Agradeço que tenha achado bem construído e tenha gostado da personagem principal, ela é, sem dúvidas, uma das minhas protagonistas favoritas. Mesmo possivelmente desequilibrada, é inegável que a Nicole ainda guarda uma certa esperança.

Porém, esse é um texto que foi escrito para ser capítulo único, embora eu considere continuar a história dela com pelo menos mais um capítulo.

Novamente, obrigado pelo comentário :)

Postado 03/10/20 01:46

A leitura dessa obra me encantou e prendeu do começo ao fim. Adorei as descrições e a temática utilizada. Tudo está muito palpável e bem elaborado.

Obrigada por compartilhar conosco essa incrível obra.

Parabéns, Gans

Postado 03/10/20 16:55

Fico feliz que tenha gostado, eu me diverti bastante escrevendo esse texto. Muito obrigado pelo comentário!

Postado 04/10/20 10:04

Por mais que o assunto zumbis esteja saturado vc conseguiu criar algo muito criativo e interessante. Tava com saudade de ler algo seu, vc sempre ambienta a história muito bem!

Parabéns pelo texto <3

Postado 21/10/20 21:01

Por mais que o gênero fique saturado, eu acho que sempre é possível explorar alguma coisa diferente dentro dessa situação ashushus

Muito obrigado pelo comentário <3

Postado 06/10/20 06:44

Que texto fantástico!

Nunca tinha lido nada sobre zumbis, foi meu primeiro, só posso dizer que amei!

Que escrita preciosa!

Obrigada por compartilhar conosco!

Virá uma continuação?

Postado 21/10/20 21:02

Espero que você passe a gostar do gênero como eu gosto! E sobre a continuação...só o tempo dirá. Eu tenho algumas ideias desde que escrevi esse texto no ano passado, mas nada concreto ainda.

Muito obrigado pelo comentário~

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