O Escritor
Silva
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/11/20 12:03
Editado: 30/11/20 12:03
Gênero(s): Drama Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 4
Comentários: 4
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Palavras: 646
Este texto foi escrito para o concurso "Concurso Inspirações 2020" O intuito deste concurso é que os participantes escolham apenas e obrigatoriamente 3 (três) das 15 (quinze) frases disponibilizadas para este concurso, através destas frases escolhidas, devem redigir uma obra na qual as frases sejam inseridas no corpo do texto com originalidade. Ver mais sobre o concurso!
Livre para todos os públicos
Capítulo Único O Escritor

O som das teclas sob os dedos ágeis e articulados era apenas uma das variadas sonoridades naquela inquieta vizinhança. Fosse a inevitável imposição do gosto musical dos inquilinos ou o trânsito e sua insistente orquestra de buzinas, raro era ouvir o silêncio. Este, improvável de chegar-lhe aos ouvidos sobretudo quando decidia transcrever súbitas ideias em parágrafos. O almejado som era indiferente aos ponteiros do relógio. Para a arte da escrita, aquele apartamento barato e barulhento era inconveniente, embora seu bolso discordasse. Parou a digitação levando o indicador direito até seu segundo par de olhos. Tais lentes quadradas eram um verdadeiro bálsamo para um escritor amaldiçoado pela opacidade da miopia. Levou a mão esquerda aos cabelos grisalhos. Aproveitou o pequeno intervalo e levou o olhar para a luz azulada e artificial oriunda da tela do computador. Pôs-se a analisar o aglomerado de palavras que acabara de produzir.

Enquanto lia os primeiros versos, sua mente o levou à época da saudosa datilografia. O homem de quase meia idade retornou a sua longínqua infância no interior com as enérgicas brincadeiras dos amigos de rua, a leitura dos infanto-juvenis e claro, o bisbilhotar na sala de seu falecido pai. Em suas recordações, havia o severo homem de vasto vocabulário que fazia palavras difíceis criarem vida naquela máquina formidável que despertava a curiosidade dum menino ávido por histórias. Histórias... a sucessiva ordem de palavras que todos têm, embora não sejam necessariamente escritas. Pensou em suas obras, cada um de seus sonetos, poemas, contos e romances. Todos eram sobre terceiros. Ainda que alguns estivessem em primeira pessoa, o seu eu lírico não estava naquelas linhas. Questionou-se a prosseguir escrevendo de tal maneira. Pairava sobre ele a sensação de que passará o resto da vida sendo um pálido reflexo da luz alheia.

Parte dele estava impressa em cada verso, todavia, não por completo. Ainda sentia a ausência de algo. Suas combinações de letras permeavam do tangível ao abstrato, mas o que escreveria a seguir? Contos sobre seus amores não correspondidos? Suas obras exalavam um ar de tragédia e parte da culpa recaia sobre Shakespeare e Machado de Assis. O maior dos sentimentos lhe trouxe uma melancólica certeza: o amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão. Voltou as mãos ao teclado e fez aquele parágrafo desaparecer, fitando apenas o ponto de inserção que piscava solitário na imensa folha branca. Ponderou sobre o que fazer com a terrível falta do sentimento essencial para qualquer escritor. Onde estava a sua amada e radiante inspiração? Se dormisse um pouco, quem sabe se algum sonho poderia lhe trazer uma nova ideia. Mesmo um pesadelo serviria, pois sem a pequena morte de toda noite, como sobreviver à vida de cada dia?

No entanto, há tempos seu sono se resumia a uma eterna escuridão, só findando quando abria os olhos. A aurora da criatividade parecia uma luz distante e inalcançável. Se viu perdido em seus devaneios e pensou sobre o motivo de ter feito da escrita o seu ganha-pão. Dinheiro, reconhecimento, ou mesmo a necessidade de deixar um legado? Não. Tais coisas eram triviais, ainda que lhe incomodassem todo santo dia. Seu lapso de memória sobre a infância e suas leituras o fez reviver preciosos momentos. Lembrou-se das aventuras de Robison Crusoé, da viagem de Wendy até a Terra do Nunca, da toca onde vivia um hobbit, do rugido imponente de Aslam... Todas essas histórias guardadas no velho baú da mente, ambas com algo em comum: Inspiração. Foi por causa deste sentimento único, dessas viagens a mundos e personagens com histórias cativantes que um menino decidiu usar as letras e fazer outras pessoas sentirem o mesmo. E sem aviso, aquele som invadiu seus ouvidos, tirando-o dos devaneios. Silêncio. Talvez não em três partes como na Pousada Marco do Percurso, mas lá estava o som. E com ele, lhe veio a inspiração para escrever algo do seu verdadeiro eu lírico.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Silêncio em três partes? Recomendo a leitura do livro O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss. :)

Obrigado pela leitura!

Apreciadores (4)
Comentários (4)
Comentário Favorito
Postado 30/11/20 22:06 Editado 30/11/20 22:07

Já escrevi mais de uma vez sobre escrever (por mais metaforicamente estranho que isso seja KKKkk), nunca segui uma abordagem parecida com essa e não esperava que você escrevesse sobre escritores também, mas olha que texto interessante temos... além de todos os detalhes de construção de personagem e mundo que engrandecem o conto, o que mais me surpreendeu foi o modo como tudo é descrito, como mostrasse o mundo na visão de um escritor real. De uma forma poética, tenho quase certeza que a maioria de nós vê o mundo dessa forma, com essa riqueza de detalhes, sem nem se ater a isso.

Foi um ótimo texto, e será um concorrente digno no concurso.

Até a próxima ;)

Postado 01/12/20 19:11

Que comentário bem feito e formoso :v No fundo, somos todos inspirados por alguma coisa. Grato pelos apontamentos e boa sorte.

Postado 30/11/20 19:41

Que interessante... Eu e você com textos sobre escritores no mesmo concurso!

Entretanto falamos de aspectos bem distintos...

Gostei muito do seu texto!

Boa sorte!

Postado 30/11/20 21:26

O seu estava incrível! Fico feliz em receber elogios de uma autora tão talentosa como você. Igualmente :)

Postado 03/12/20 08:15

Ahhhhhhhh meu amado silêncio em três partes!! Ele também é inspirador *-* assim como sua crônica (que está maravilhosa).

Sua narrativa é muito cativante e difícil não se identificar com o seu Escritor. As frases escolhidas vestiram tão bem o seu texto que parecem terem sido feitas para ele (e olha, não tô puxando saco, não, ein - realmente senti isso). O nível dos escritores do site é bem alto e isso é incrível!

Postado 03/12/20 09:39

Oi Clarke! Quem bom que está apreciando a academia. Sim, sim... O pessoal aqui escreve muito bem. O Nome do Vento <3

Muito obrigado pela sinceridade desse comentário maravilhoso. :')

Postado 14/12/20 18:08

Querido Silva, que alegria ter o prazer de ler mais uma obra sua!

De antemão, agradeço pela sua nobre participação em meu humilde concurso, seu texto é muito bom, trás a tona várias fases deste processo de criação que você, eu e todos aqui conhecemos bem, o emprego das frases foi muito perfeito, vieram muito a calhar com o tema e com o proposto no concurso!

Amei a parte que você falou sobre os sonhos, também ando sofrendo deste mal, quando eu sonhava mais vividamente, minha arte costumava ser melhor... Ossos do Ofício!

Achei apenas os parágrafos muito extensos, poderiam ter sido melhor distribuídos, o que pode ter deixado o desfecho da obra um pouco incerto, enfim, de qualquer form parabéns por esta obra tão sincera que evocou tantas memórias em mim!

Postado 15/12/20 23:45

Seu concurso foi maravilhoso, parabéns. Graças a sua iniciativa ótimos textos foram escritos. :')

Muito obrigado pelo carinho no comentário e fico feliz de ter causado identificação porque escrever é algo que amamos ou deveríamos amar. Uma boa sorte a todos os participantes!