Um Lugar Silencioso
Sabrina Ternura
Tipo: Roteiro (Cena)
Postado: 17/12/21 01:45
Editado: 17/12/21 02:12
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 18min a 24min
Apreciadores: 4
Comentários: 2
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Palavras: 2970
Este texto foi escrito para o concurso "Festival de Dramaturgia" A proposta desse concurso é escrever um texto em formato de roteiro! Ver mais sobre o concurso!
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Ciao, pessoal. Espero que estejam bem ♥ É com muito entusiasmo que apresento a vocês o Multiverso de Garraduende: o Garraverso. Achei interessante começar a desenvolver essa proposta através deste concurso, porque um dos elementos de um roteiro é sinalizar os personagens que participarão da cena - quem já leu meus roteiros sabe que, usualmente, eu não faço isso, mas julguei necessário fazê-lo neste caso para localizar o leitor. Abaixo, colocarei o nome do personagem do Universo Garraduende e seu respectivo nome no multiverso.

Diablair/Honjok - João Rocha

Tortura - Beatriz Rocha Trindade

Ternura - Betina Rocha Trindade

Tristeza - Berenice Rocha Trindade

Imperatriz - Flávia Rocha Nascimento

Philip - Felipe Costa Vasconcelos

Jake - Joaquim Tavares

Blake - Bruno Douglas Borges

Damon - Dante Silva

Mama Oudin - Inácia Rocha Nascimento

Desejo a todos uma divertida leitura :)

Capítulo Único Um Lugar Silencioso

CENA ÚNICA: INT. SOBRADO DA FAMÍLIA ROCHA (VALE DO ANHANGABAÚ) - NOITE (19H30)

A família Rocha era conhecida por ser extremamente barulhenta e numerosa. Por isso, não era de se surpreender que o volume da televisão, apesar de estar no 60, não conseguisse ser mais alto do que a falação que ocorria entre os oito membros desse curioso grupo familiar. A sala de estar, mesmo que possuísse um espaço relativamente grande, não conseguia acomodar a todos, por isso, Betina e Felipe estavam sentados no carpete e usavam a mesa de centro como apoio para colorir seus desenhos, enquanto Beatriz estava sentada no colo de seu noivo, Bruno, em uma poltrona. No sofá de dois lugares, acomodavam-se os ficantes Berenice e Joaquim. Flávia estava sentada no sofá de três lugares e tinha sobre seu colo a cabeça de Dante, seu namorado, apoiada em uma almofada, pois o mesmo encontrava-se deitado, ocupando o restante do espaço. A televisão exibia um episódio de Mindhunter, porém nenhum dos presentes estava interessado no conteúdo do mesmo, tendo em vista que uma intensa discussão ocorria entre eles.

BRUNO (com insatisfação): Eu acho um imenso absurdo você ficar deitado no sofá como se a casa fosse sua, Dante.

FLÁVIA (com deboche): E eu acho a maior das audácias o cara que não tem nem celular dar pitaco sobre isso!

BEATRIZ (com indignação): Ele não tem celular, porque foi assaltado!

DANTE (exaltado, apontando para a perna direita): E eu estou deitado, porque a porra da minha perna está quebrada!

[Berenice suspirou e seu senso de diplomacia decidiu intervir.]

BERENICE (com tranquilidade): Nós não poderíamos resolver o problema se os mais novos tirassem os desenhos da mesa de centro para Dante apoiar o pé? Assim, Bruno pode sentar no sofá maior. Felipe e Betina podem usar a mesa de jantar.

BETINA (sem tirar os olhos de seu desenho de borboleta): Tio João disse para não deixar os mais novos sozinhos, enquanto ele estiver fora.

BERENICE (indignada): Vocês vão para a sala de jantar que fica no cômodo ao lado, não do outro lado da cidade!

BETINA (com deboche, encarando Berenice): Se eu não puder desenhar aqui com o Lipe, vou contar pro tio que você anda beijando na boca do Joaquim e…

BERENICE (gritando, interrompendo Betina): SUA FEDELHA!

JOAQUIM (encarando as próprias unhas, com tranquilidade): Não é como se ele não soubesse, pirralha. Faz seis meses que eu ando beijando na boca da sua irmã.

[Bruno, Beatriz, Dante e Flávia soltaram gargalhadas por conta do que foi dito por Joaquim. Felipe estava com os olhos arregalados devido a confusão e havia deixado de lado seu desenho de caminhão para acompanhar a amiga enfrentando sua irmã. Betina não se afetou e prosseguiu com sua justificativa.]

BETINA (com tranquilidade): … e vou contar, também, da saidinha que vocês farão hoje de madrugada.

VOZ DE FUNDO: Pela primeira vez naquela noite, o silêncio pairou sobre a residência dos Rocha. A pequena Betina exibia um sorriso de satisfação, enquanto Felipe tinha sua feição pálida, temendo que a amiga fosse esquartejada pelos mais velhos. Bruno, Beatriz, Flávia, Dante, Berenice e Joaquim possuíam um misto de raiva e confusão em seus rostos, pois, de um lado, eles realmente temiam que a mais nova relatasse da pequena aventura que fariam pelas ruas da cidade de madrugada e, de outro, não sabiam como ela havia tomado conhecimento daquela situação. Bruno, Flávia, Dante, Berenice e Joaquim encararam a única pessoa na sala que poderia oferecer uma barganha à Betina, isto é, cabia a Beatriz pensar rapidamente em alguma coisa que pudesse favorecer tanto a irmã mais nova quanto seu amigo. A mais velha se ajeitou no colo do namorado, que colocou a mão sobre os olhos como se estivesse sendo torturado, e pensou no que poderia usar como moeda de troca. Quando nenhuma solução plausível lhe veio à mente, ela suspirou e optou por ser mais direta.]

BEATRIZ: E o que poderíamos dar a vocês em troca de seu precioso silêncio?

VOZ DE FUNDO: Betina olhou para Felipe, que acenou positivamente com a cabeça, e a menina voltou a encarar a irmã mais velha, só que desta vez com algo maldoso no olhar. Palavras não se faziam necessárias e todos os presentes souberam naquele instante que, ou a barganha custaria parte de suas almas. ou um terço de suas falidas contas bancárias.

CENA ÚNICA: INT. SOBRADO DA FAMÍLIA ROCHA (VALE DO ANHANGABAÚ) - MADRUGADA (02H10)

Beatriz olha uma última vez para Betina, que está dormindo profundamente em sua cama abraçada com seu cobertor rosa, e para Felipe, que está dormindo em um colchão no chão ao lado da cama. A mais velha sorriu, quando notou que a irmã mais nova continuava com um dos braços pendidos na beirada da cama, enquanto o menino entrelaçava seus dedos nos dela. Era uma cena comum, tendo em vista que ambos eram amigos de infância e, apesar de ser muito cedo, ela via na trajetória de ambos algo semelhante aos romances chick lit que lia: um amor de infância com potencial para florescer.

A jovem de cabelos negros caminhou para fora do quarto e suspirou quando fechou delicadamente a porta. Mesmo que quisesse muito sair pelas ruas de São Paulo, seu corpo estava cansado por conta da barganha feita com Betina.

FLASHBACK: INT. SOBRADO DA FAMÍLIA ROCHA (VALE DO ANHANGABAÚ) - NOITE (20H00)

O preço pela liberdade era mais alto do que aqueles jovens poderiam ter imaginado. Enquanto Dante e Flávia haviam ido retirar o pedido das crianças no Mcdonald's mais próximo de carro — com a jovem de cabelos tingidos de verde dirigindo —, Beatriz e Berenice tentavam transformar a sala de estar em local propício para um rodeio. Os sofás e a poltrona haviam sido afastados e seriam as arquibancadas e a mesa de centro, onde diversos ursinhos haviam sido colocados, seria o camarote. Ambas as organizadoras do evento enchiam com uma bomba o colchão de ar de casal, enquanto, na sala de jantar, Betina e Felipe preparavam os caubóis da noite: Joaquim e Bruno.

BERENICE: Se ela não fosse nossa irmã mais nova, eu iria esquartejá-la.

BEATRIZ (ofegante, enquanto abaixava e levantava freneticamente o mecanismo da bomba): Fica calma, Berê. É melhor aguentar as tramóias da Bet do que a fúria do tio e da mãe.

JUMP CUT*

FIM DO FLASHBACK

CENA ÚNICA: INT. SOBRADO DA FAMÍLIA ROCHA (VALE DO ANHANGABAÚ) - MADRUGADA (02H00)

Felipe e Betina pegaram no sono. Os mais velhos estavam exaustos, principalmente Joaquim e Bruno, tendo em vista que haviam sido touros, e não caubóis, por horas a fio. Os dois rapazes estavam deitados no chão de barriga para baixo, enquanto Berenice colocava bolsas de gelo sobre as costas dos mesmos. Dante saltava de um lado para o outro com uma perna só, buscando organizar a sala, já que Flávia e Beatriz estavam levando as crianças para o quarto.

JOAQUIM (com a voz cansada, para Berenice): Depois dessa experiência traumática, decidi que não quero ter filhos, Berezinha.

BERENICE (sorrindo para o ficante, sussurrando): Não foi isso que você disse na noite passada.

JOAQUIM (sorrindo com malícia, enquanto sussurra): Você deve ter visto hoje que não sou fácil de ser domado.

BRUNO (com indignação): Ah, puta que pariu! Eu posso ter quase morrido por conta disso tudo, mas meus ouvidos ainda funcionam bem, seus desgraçados.

[Dante coloca a última almofada no lugar e salta até o trio com um sorriso maroto nos lábios.]

BRUNO (com raiva, para Dante): Por todos os infernos, fale qualquer merda e eu quebrarei sua outra perna.

DANTE (com indignação): Mas eu nem falei nada!

BRUNO (com ironia): E nem precisa! É só olhar pra sua cara que já conseguimos supor que alguma merda vai ser falada.

DANTE (com delicadeza): Deve ter sido difícil pra você relembrar dos tempos de corno com essa brincadeira do rodeio, não é?

[O jovem ruivo se referia ao relacionamento anterior de Bruno que havia durado um ano e meio, onde o atual noivo de Beatriz havia sido traído pela ex-namorada, chamada Cassandra. Irritado, o jovem de cabelos negros deu uma rasteira em Dante, que foi amparado a tempo por sua namorada.]

FLÁVIA (com irritação): Guardem a energia de vocês para o nosso rolê, seus paspalhos.

BRUNO (para Flávia): Cadê a Bia?

FLÁVIA: Está colocando as crianças na cama, vendo se elas precisam ir ao banheiro e etc… Daqui a pouco ela deve descer. O nosso socorro já deve estar chegando, também.

JOAQUIM (com a sobrancelha arqueada): Como assim “o nosso socorro”?

FLÁVIA (com um sorriso maroto nos lábios): Só existe uma pessoa, além da mãe do Bruno, que nos ajudaria a sair em uma aventura. Como a Catarina não pôde ficar com as crianças, tive que apelar para…

[Três batidas na porta da sala fizeram os jovens se sobressaltar.]

BRUNO (para Flávia): Você não disse que a Bia estava lá em cima?

BEATRIZ (surgindo ao lado do noivo): E eu estava. Por que estão tão assustados?

[Flávia se levantou, porém foi impedida por Dante.]

DANTE (confuso): Para onde você pensa que vai? Alguém arromba o portão, bate na porta da sala e você vai abrir para desejar as boas-vindas?

[A jovem de cabelos verdes bufou e se desvencilhou do namorado, passando a caminhar até a porta.]

FLÁVIA (girando a maçaneta): É só a tia Iná. Ela tem a chave do portão e eu a chamei para dar uma olhadinha nas crianças enquanto estivermos fora.

[A porta se abre, revelando uma pequena senhora negra, vestida com uma camisola branca e que começa a adentrar a sala com o auxílio de uma bengala. O jovem ruivo finge que está sendo queimado ao vê-la.]

INÁCIA (com satisfação): Fique se contorcendo pelo chão feito uma lesma, menino idiota, e eu vou te colocar para fora na bengalada.

DANTE (parando de se contorcer e apontando para sua perna): Você expulsaria um homem indefeso?

INÁCIA (bufando e batendo sua bengala no chão): Você não consegue imaginar o tipo de coisa que eu já fui capaz de fazer, garoto atrevido. Onde estão os pivetes?

BEATRIZ: No andar de cima, dormindo.

[A senhora vai até o sofá e se senta. Todos os presentes a encaram.]

INÁCIA: Por que estão me olhando com essas caras de bestas? Dêem o fora daqui!

CENA ÚNICA: EXT. SOBRADO DA FAMÍLIA ROCHA (VALE DO ANHANGABAÚ) - MADRUGADA (02H30)

Todos adentraram a pequena van laranja com o logo da floricultura da mãe de Bruno, Catarina. O rapaz de cabelos negros sentou-se no banco do motorista e, no banco ao lado, encontrava-se Beatriz lendo um longo texto no celular. No banco de trás, Dante está com a perna esticada, tomando o espaço dos três assentos. Já na parte de trás do veículo, onde não haviam assentos, estava Flávia ajoelhada em cima de uma almofada e com os cotovelos apoiados no beiral do banco em que seu namorado estava acomodado, e Joaquim, sentado em um caixote com Berenice em seu colo. Bruno ligou o carro e apertou o botão do controle para abrir o portão da casa. Ele tirou a van da garagem e fechou o portão, porém ficou parado na frente da casa.

BRUNO: Conseguiu abrir o Randonautica¹, amor?

BEATRIZ (com desconfiança): Sim, li os termos de uso e, não sei, mas esse aplicativo é meio suspeito…

DANTE (com animação): E são eles que nos proporcionam as melhores aventuras.

[Uma tela com um mapa se abriu no aplicativo.]

BEATRIZ (exasperada): Agora é o momento em que pensamos no que queremos encontrar no local!

BRUNO (em pensamento, animado): Um lugar alto!

BEATRIZ (em pensamento, com hesitação): Um lugar… silencioso…?!

BERENICE (em pensamento, agitada): Um lugar vazio!

FLÁVIA (em pensamento, animada): Um lugar bizarro!

JOAQUIM (em pensamento, com tranquilidade): Um lugar próximo.

DANTE (em pensamento, exaltado): Um lugar em que a gente veja algo inesquecível!

[Por alguns segundos, nada mudou na tela do celular de Beatriz, contudo a seguinte coordenada surgiu: 23° 32' 48" S 46° 38' 16" O². Apressadamente, a jovem mostrou o celular para o noivo, que identificou a localização.]

BRUNO (virando o volante): Está nos mandando ir para o Viaduto do Chá.

DANTE (desanimado): E o que de inesquecível poderia acontecer neste lugar sem graça?

CENA ÚNICA: EXT. VIADUTO DO CHÁ (VALE DO ANHANGABAÚ) - MADRUGADA (03H00)

Mesmo que a casa da família Rocha fosse próxima do local, por conta de uma parada que tiveram que fazer no posto de gasolina, a rota até o Viaduto do Chá tornou-se mais longa. Além disso, o celular de Beatriz simplesmente desligou e Bruno teve que seguir até o local com o GPS de seu próprio celular. Apesar de tudo, o grupo estava na avenida abaixo do Viaduto do Chá. O lugar estava vazio e tão silencioso que o barulho do motor da van parecia ecoar pelas ruas. Uma neblina densa se espalhava pelo local, fazendo com que o grupo não conseguisse enxergar o que estava após a parte de baixo do viaduto, a qual estava há alguns metros de distância do veículo.

FLÁVIA (super animada): Esse lugar tá irado! Parece até filme de terror.

BERENICE (com hesitação): Eu queria um lugar vazio, mas… Vocês não acham que está vazio demais aqui? Não há moradores de rua pelos arredores, nem carros…

[Um arrepio percorreu o corpo de Beatriz que, abruptamente, apertou o cotovelo do noivo. Bruno se sobressaltou e imediatamente parou o carro.]

BRUNO (com preocupação): O que houve, amor?

BEATRIZ (assustada): Não tô sentindo coisas boas sobre esse lugar…

FLÁVIA (revirando os olhos): Ah, Beatriz, me poupe, né?! Você que agitou esse rolê todo e tá querendo dar pra trás agora, no momento em que estamos dentro de uma neblina bizarra?

[A jovem de cabelos negros começou a chorar e todos, inclusive Flávia, ficaram confusos e preocupados, principalmente porque Beatriz não era do tipo que se assustava fácil.]

DANTE (com hesitação): Olha, pra ser sincero, desde que saímos do posto de gasolina não tenho me sentindo muito bem… Parece que entramos em um tipo de limbo e o clima desse lugar tá muito pesado.

JOAQUIM (olhando de um lado para o outro): E a última vez que vimos uma alma viva foi no posto… Sério, gente, acho melhor voltarmos para casa, já que é aqui perto, e assistirmos um filme de comédia para expurgar esses sentimentos ruins.

BERENICE (com severidade): A Bia tá assustada, tá todo mundo sentindo uma vibe ruim e, sinceramente, não dá pra saber se o aplicativo estava nos mandando para o viaduto em si ou para essa rua aqui, já que o celular da mana desligou.

[De repente, a tela do celular de Beatriz se acendeu, assustando a todos. Bruno, que estava ao lado do aparelho, afastou-se do corpo da noiva e acabou esbarrando o braço na buzina da van, fazendo com que todos se sobressaltassem com o barulho.]

JOAQUIM (em pé, no fundo do veículo): Porra, Bruno! Não me assusta assim, tenho quase trinta anos!

FLÁVIA (com os olhos arregalados): Bruno, liga a merda do carro e vamos dar o fora daqui!

[Bruno se ajeitou no banco do motorista e virou a chave, porém o carro não ligou. Uma pequena discussão começou dentro da van, enquanto o jovem de cabelos negros tentava desesperadamente ligá-la.]

BEATRIZ (sussurrando e apontando para o viaduto): Gente… O que é aquilo?

[Todos se voltaram para o local sinalizado pela jovem e arregalaram os olhos quando viram uma sombra saindo de dentro da neblina e se posicionando na borda do Viaduto do Chá. Dante, percebendo o que estava prestes a acontecer, deu um tapa forte no ombro de Bruno.]

DANTE (desesperado): LIGA A PORRA DO CARRO, BRUNO!

[Bruno, apavorado, começou a girar a chave na ignição, porém a sombra se jogou do viaduto e um caos se instalou dentro da van laranja. Alguns gritavam e tremiam, outros prendiam a respiração enquanto colocavam as duas mãos sobre a boca. Não era possível ver o corpo por conta da neblina que se espalhava pelo local, mas, ainda assim, Beatriz conseguiu pensar racionalmente por alguns segundos.]

BEATRIZ (com a voz trêmula): Pessoal… Por que nós não ouvimos nada, nem mesmo um baque surdo… quando a pessoa caiu?

[Todos ficaram em silêncio e encararam a neblina com os olhos arregalados. Antes que qualquer um pudesse responder, a sombra saiu correndo de modo inumano de dentro da neblina e passou a ir em direção ao carro. Bruno gritava e girava a chave do carro desesperadamente na ignição. Beatriz subiu em cima do banco com os dois pés. Flávia, assustada, pulou em cima de Dante, que abraçou a namorada enquanto gritava. Joaquim e Berenice berravam na parte de trás da van.]

BRUNO (desesperado): LIGUE, INFERNO!

[Repentinamente, o carro ligou e o farol do mesmo iluminou a sombra que corria na direção do veículo. Sem pensar, Bruno deu ré no carro que saiu cantando pneu, fazendo com que Joaquim e Berenice caíssem. Beatriz estava tão assustada que não conseguia gritar, principalmente porque tinha visualizado a aparência da sombra: com vestes indígenas e um pescoço quebrado com um osso exposto, o espírito corria na direção do carro com uma raiva palpável emanando de seus olhos. A jovem de cabelos negros acabou desmaiando no banco, fazendo com que sua cabeça caísse para o banco de trás. Flávia rapidamente a amparou. Bruno realizou uma manobra com a van em alta velocidade, fazendo com que a mesma girasse e ficasse do lado contrário da sombra. O rapaz saiu em disparada pela avenida, sem olhar nos retrovisores.]

DANTE (desesperado): O que diabos era aquilo?

FLÁVIA (ajeitando Beatriz desmaiada no banco da frente, com a voz trêmula): Algo que não é deste mundo…

VOZ DE FUNDO: Após esse acontecimento, os jovens deixaram de utilizar aplicativos de procedência duvidosa e nunca mais tocaram nesse assunto, mas jamais se esqueceram dos eventos assustadores daquela noite. Beatriz não conseguiu desinstalar o Randonautica de seu celular, tendo em vista que o aparelho nunca mais voltou a funcionar.

FIM.

❖❖❖
Notas de Rodapé

* Jump cut – é um corte seco feito em um trecho de imagem do mesmo plano. Em vez de permitir que um plano mostre por completo uma ação ou uma fala, o jump cut suprime pedaços intermediários do plano, causando o efeito de avanço no tempo por meio de saltos, já que o corte normalmente interrompe a impressão de continuidade. – Fonte.

¹ Para saber mais sobre o Randonautica, clique aqui .

² Coordenada real do Viaduto do Chá.

– Motivo da escolha dos dois locais da cena e da caracterização do espírito do viaduto: O Vale do Anhangabaú é considerado amaldiçoado desde muito antes de os portugueses chegarem ao Brasil – seu nome, vindo do tupi, significa algo próximo de “rio do diabo”. Reza a lenda que muitos indígenas morreram nas águas do rio que tomava o vale e, depois da chegada dos europeus, outros, escravizados, morreram ali tentando se libertar. Depois da construção do Viaduto do Chá, o espaço também assistiu a vários suicídios por queda. As histórias de assombrações rondam o vale até hoje. – Fonte

Obrigada a todos que leram e eu declaro o Garraverso oficialmente aberto! ♥

Apreciadores (4)
Comentários (2)
Postado 14/01/22 21:26

Olá, Sabrina!

Nós agradecemos imensamente sua participação no concurso. Os resultados saíram hoje.

Na página do concurso você poderá ver cada nota recebida e também ler um comentário a respeito de seu texto.

Parabéns ❤️

Postado 01/11/22 01:18

Eu acho esse roteiro excelente e abriu com chave de ouro o Garraverso. Por todas as perspectivas, é uma obra bem escrita, que possui ótimas referências e fica claro o carinho e empenho em desenvolver algo ficcional atrelado a realidade.

Os diálogos são engraçados, mas conforme a história vai se desenvolvendo, vemos ela tomar um tom sombrio. Apesar dessa confusão assustadora, sei que essa galera tem mais traumas pela frente, portanto, coitados kkkkkk.

Parabéns, meu amor :)

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